Archive for January, 2012

A cidade dos murmúrios – Diyarbakir, 25, 26 e 27 de Janeiro de 2012

January 31st, 2012 by admin

Fotografia João Henriques

Um grupo de quarenta pessoas junta-se de um momento para o outro em frente ao Palácio da Justiça de Diyabarkir. Todas elas empunham um cartaz vermelho com uma fotografia de um familiar e agem de uma forma apressada, como se estivessem a fazer um flashmob. Nos cartazes lê-se a palavra Kayip (“desaparecido”) e a data e o sítio em que aquelas caras foram vistas com vida pela última vez. São velhotes de bigode farfalhudo, adolescentes com acne, pais, filhos e irmãos. Começa a nevar e a polícia a aproximar-se por entre os flocos brancos. De repente, um estrondo, um minibus enfaixa-se na traseira de um autocarro grande, berros e sirenes. Impávidos, dois dactilógrafos de ocasião continuam a escrever cartas em máquinas de escrever, para todos aqueles que se querem queixar ao Governo e não sabem como.

“Estamos aqui para dizer que vamos tentar de tudo para clarificar estes desaparecimentos”, diz Mehmet Aktar, director da Associação Bar de Diyarbakir (BAR). “Quem os matou, até já confessou, mas nem o primeiro-ministro nem o Presidente fizeram nada”. Aktar refere-se à recente descoberta de, pelo menos, 23 corpos numa vala comum nas instalações da JITIM (polícia militar turca) dentro da antiga prisão de Diyarbakir. Existe a firme convicção de que as ossadas encontradas pertencem a curdos capturados e assassinados pelas autoridades turcas nos anos 90. Agora, as famílias dos desaparecidos querem fazer testes de DNA para apurarem se os cadáveres são dos seus parentes. Terminada a declaração, a pequena multidão dispersa; mais uns minutos e teriam problemas com a polícia.

Fotografia João Henriques, Neuzat Ozgen

Neuzat Özgen, 44 anos, mostra a fotografia do pai, Fikri Özgen, desparecido em 1997, aos 73 anos. Numa manhã de Fevereiro, Fikri saíu de casa para ir à farmácia comprar medicamentos para uma bronquite. Em frente a um restaurante, quatro agentes de segurança rodearam-no e, à força, enfiaram-no dentro de um Renaul Torus com vidros fumados. “Os Toros eram os carros usados pela JITIM nos anos 90”, conta Neuzat. “Foram eles que sequestraram o meu pai. Nunca mais niguém o viu”.

A vida dos Özgen foi completamente devastada pelo conflito sanguinário entre curdos e turcos, que dura desde o início dos anos 80. Além do presumível assassinato do patriarca da família, a luta pela independência do Curdistão levou os seus dois irmãos a aderir à guerrilha armada do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão – organização considerada terrorista pela Turquia, Estados Unidos e União Europeia). Há anos que não sabe nada deles. Por causa disso, também ele, empresário nos ramos de joalheria e construção, esteve preso durante 12 anos. “Foi o preço que paguei por ser eu mesmo, pelas minhas convicções”, diz. Durante mais de uma década, sofreu de torturas sucessivas: “Deram-me choques eléctricos nos dedos, nas orelhas, nos lábios, na língua e no pénis, apertaram-nos os testículos, puxaram-me o bigode até me arrancarem metade dele, penduravam-me de cabeça para baixo enquanto me espancavam, passei horas com as pernas e os braços abertos. Mas a pior era a tortura da roda. Os guardas punham-nos todos nús atados a rodas e depois mandavam-nas uns para os outros”.

Fotografia João Henriques

Entretanto, Abdultadir Aygan, um dos carrascos dos curdos nas prisões de Diyarbakir, hoje radicado na Suíca, já confessou vários assassinatos, entre os quais o de Fikri. Contudo, Neuzat, as suas duas irmãs e a mãe continuam sem conseguir fazer justiça: “A nossa vida foi destruída mas os assassinos continuam por aí”, diz. “Este conflito é um precipício sem fundo”.

Na antiga prisão de Diyarbakir, desmantelada em 2010, poderão estar os restos mortais de Fikri. Quase toda a cidade passou por lá, ou a cumprir prisão ou para visitar os prisioneiros. A polícia não nos deixa passar de uma barreira feita com pinos. “Estão a examinar as ossadas”, diz um agente. “Acho que não são de prisioneiros. São ossos antigos, devem ter uns 200 anos”.

Fotografia João Henriques

Quem já perdeu a esperança de recuperar o corpo foi Nezire Baran, cujo marido desapareceu sem deixar pistas a 14 de Janeiro de 1994. O casal residia na aldeia curda de Aktepe, nas cercanias de Diyarbakir, e dedicava-se à agricultura e criação de gado. Tinham duas filhas – uma de três anos, outra de quatro meses – e Nezire estava grávida de um menino. Naquele fim de tarde, o marido, Ömer Öner, deu por falta de uma vaca e voltou ao pasto à sua procura, levando com ele na carrinha um vizinho de 18 anos.

Nezire ficou a preparar-lhe o jantar: iogurte, chá, tomates, pimentos e carne. Pôs a mesa e ficou à sua espera, noite dentro. As horas passavam e Ömer não chegava, a comida arrefecia, a menina mais velha perguntava pelo pai. “Passou-me pela cabeça que podia ter fugido para as montanhas para se juntar ao PKK. Ele gostava muito do partido”, diz.

Chegou a madrugada e com ela a aflição. Nezire chamou a sogra e iniciou uma busca que durou dois anos, uma madrugada eterna, porque na sua vida nunca mais se fez dia. A filha mais velha passava horas à janela, quando ouvia aproximar-se um carro corria para a porta: “Pensava que era o pai”. Mas de Ömer nem sinal, nem do vizinho, nem da vaca. A carrinha apareceu sete meses depois, noutra província. Foi-lhe confiscada e entregue aos “Guardiões da Aldeia”, a milícia civil ao serviço das autoridades turcas.

Fotografia João Henriques

O filho que nascera após o desaparecimento de Ömer morreu aos 20 dias. A vida de Nezire tornara-se um inferno. Quase diariamente, as forças policiais irrompiam pela casa, partiam portas e janelas, batiam-lhe e gritavam-lhe que “era mulher de um terrorista”. Faziam a contagem dos animais que possuía e, sempre que conseguia ter dinheiro para comprar mais um, os Guardiões apreendiam-no: “O teu marido terrorista voltou das montanhas e deu-te dinheiro para comprares mais gado”, argumentavam. “Pois nós ficamos com ele”. Um dia levaram-na para a esquadra com o genro; viu-o ser espancado com pontapés na cabeça quase até à morte.

Em casa, a filha mais nova perguntava-lhe quem era o homem de bigode nas fotografias. Disse-lhe a verdade. Dersim, que teve de se registar Müjde, porque os nomes curdos eram probidos, estuda hoje Direito para vingar a perda do pai. Pelo poder da palavra, não pelas armas. “Nunca fomos terroristas como nos acusam”, diz Nezire, ajeitando o seu véu branco. Sob pressão do governo, a família mudou-se em 2000 para o bairro adjacente à prisão de Diyabakir. À noite, o zumbido de dor dos prisioneiros atormentava o sono. A cidade engordou com os refugiados – mais de 500 mil curdos terão trocado a terra pelo betão de Diyarbakir. “Nunca irei perdoar aos turcos. Este conflito, dure quantos anos durar, só pode ter um desfecho – a independência do Curdistão”, conclui Nezire.

Na sede do Partido da Paz e da Democracia (BDP), o partido curdo legal, que tem 36 assentos no Parlamento turco, vários membros discutem a actualidade política do país. Nas paredes, relógios com o símbolo do partido e posters propagandísticos com uma cantora, uma camponesa e um vendedor de chá. Em cima das mesas, o vapor dos chás misturava-se com o fumo dos cigarros. O debate estava aceso. “Os últimos anos foram mais calmos mas agora as coisas estão a aquecer outra vez”, diz Mehmet Arceç, um dos partidários. “Em Dezembro, a aviação turca matou 35 curdos, contrabandistas de açúcar e cigarros, a maioria deles menores de 18 anos. Dizem que os confundiram com terroristas mas acreditamos ter sido um ataque planeado”. Na sala, todos confirmam. Acusam a Turquia de usar armas químicas contra os curdos da Turquia e do norte do Iraque. O primeiro-ministro Recep Erdogan admitiu o erro, mas não pediu desculpa: “Vamos continuar a lutar com tudo o que temos contra o terrorismo”, declarou.

“Acha mesmo que estas mães têm filhos terroristas?”, pergunta-me Arceç. Sariha, uma mulher de vestes e véu negro, olha para mim. Tem duas filhas a combater nas montanhas. “Só há guerrilheiros porque continuamos a não ter os mesmos direitos que os turcos – a nossa língua e a nossa cultura é proibida. Mehmet Budak, um tipo calmeirão com o penteado moldado a gel, interrompe: “Nos anos 80, quando iniciámos a luta, não podíamos falar curdo na rua, não podíamos ouvir cassetes de música curda, não podíamos ter nomes curdos. Passo a passo, fomos conquistando direitos. A autonomia há-de chegar”. Para trás ficaram os tempos em que Leyla Zana, deputada do BDP, foi presa durante 12 anos por ter falado em curdo no Parlamento. Mas a falta de liberdade de expressão continua a ser uma das maiores queixas do BDP. A Roj TV, a única estação a emitir em língua curda, foi encerrada esta semana pelo Estado dinamarquês, segundo os membros do partido, por pressão do governo turco. “Além disso, temos imensos jornalistas presos. O editor de um jornal de Diyarbakir foi condenado a 360 anos de prisão. Limitou-se a defender a nossa causa, mas foi acusado de incitar ao terrorismo”.

Fotografia João Henriques

Segundo o BDP, há cerca de 5000 políticos e activistas curdos presos. A libertação desses prisioneiros políticos, juntamente com a igualdade de direitos e a autonomia política, são as exigências actuais do BDP e do PKK . O primeiro-ministro Recep Erdogan deu mostras de alguma abertura para solucionar um problema que já matou 45 mil pessoas: admitiu alguns programas em curdo na televisão e encetou negociações com Abdullah Oçalan, fundador e líder histórico do PKK, condenado a prisão perpétua em 1999 e detido na ilha de Imrali, no mar de Marmara, também conhecida como a Guantanamo da Europa. No entanto, depois das eleições de 2011, Erdogan terá cessado as reuniões secretas com Oçalan, prendeu os seus seis representantes legais e enfatizou as operações militares contra o PKK, levando os cerca de 8000 guerrilheiros a ripostar. Há quem tema uma nova guerra civil.

Fotografia João Henriques

“Os curdos foram sempre oprimidos nesta região”, diz Mehmet Ermin, presidente da Associação de Direitos Humanos. “Desde o tempo dos otomanos houve 29 movimentos de rebelião, 19 dos quais no tempo da República da Turquia (desde 1920)”. À sede da associação, chegam cada vez mais pedidos para encontrar desaparecidos, motivados pela descoberta da vala comum. Às tantas, chega uma carta: uma mulher denunciava um acontecimento relativo a 1994, quando 11 miúdos, que partiam para se juntar ao PKK nas montanhas, foram interceptados pelas mílicias turcas, assassinadas e queimadas. Só 18 anos depois é que alguém ganhou coragem para denunciar o caso. “É uma sociedade dominada pelo medo em que o risco de morte está sempre presente”, diz Ermin. “Ainda há dois meses mataram dois miúdos numa manifestação. Queimam aldeias e destroem colheitas. Na semana passada, fizeram raids aqui na associação, na Câmara, em associações de jovens. Prenderam pessoas e levaram documentos”.

Lembrei-me do que me dissera Sultan Coban, uma dinamarquesa de ascendência curda a estudar em Istambul. Ela faz parte da rede de activistas internacionais do BDP e foi a primeira a avisar-me do que iria encontrar no Curdistão: “Há rapazes que recebem sentenças de dezenas de anos por atirarem pedras à polícia. Quando recebem a sentença, preferem ir para a guerrilha das montanhas do que para a prisão. Há mães que têm um filho nas montanhas, no lado do PKK, enquanto o outro é obrigado a fazer serviço militar e fica no exército turco. Isto é, esta guerra sangrenta leva irmãos a disparar um contra o outro”.

Fotografia João Henriques

“Histórias como estas são contadas pelos cantores de Dengbêj, recitadores de poemas épicos sobre os mais de 5000 anos de História dos curdos nesta região”. Após o golpe militar de 1980, com a criminalização da língua curda, os velhos cantores de Dengbêj foram silenciados. “As cassetes foram destruídas e quem fosse apanhado com uma era preso e torturado”, diz Mehmedê Pîrsgîrêkvan, de 58 anos, barba grisalha e olhos de lobo da montanha. Em 1991, o curdo voltou a ser autorizado na indústria musical e, em 2007, o município de Diyarbakir fundou a casa de Dengbêj.

Reunidos em redor de três mesas apetrechadas de tabuleiros de chá preto, estão 18 velhos cantores agarrados a masbaha (rosários islãmicos). Um deles, Seyithan Simsek, de 80 anos, coloca a mão esquerda atrás da orelha e, com uma expressão de sofrimento, solta os versos do seu povo, à capela,
porque são as palavras que mais importam. Canta desde os sete anos e a sua voz é tão forte que não se sente a falta de acompanhamento musical. “Não escrevemos estas canções. Elas fazem parte da nossa tradição oral”, diz Mehmedê. “Falam de amor e da nossa cultura. Também temos canções políticas, mas não as podemos cantar na televisão, nem gravá-las, nem cantá-las em frente a alguém do Governo”.

Fotografia João Henriques

Um a um, os trovadores mostram os seus dotes, intervalados por alguns aplausos e tosses de catarro. Simsek termina com uma letra sobre a liberdade. É uma melodia nostálgica, comovente, que soa a tiros nas montanhas, súplicas a Deus e gemidos nas masmorras.

Fotografia João Henriques

 

Fotografia João Henriques

 

Saíndo da casa do Dengbêj, ainda se consegue ouvir a voz de Diyarbakir, abafada pela neblina nas ruas estreitas e milenares. É um murmúrio sofrido, uma súplica encolhida, um segredo amordaçado, porque as muralhas negras têm ouvidos e do alto das 82 torres que circundam a cidade há sempre alguém a observar. Mas não conheci nenhum curdo que nos seus sussurros assustados não me prometesse que um dia ia gritar à vontade.

 

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O curdo que fala mil línguas mas não pode falar a dele – Diyarbakir, 24 de Janeiro de 2012

January 31st, 2012 by admin

A chamada para as preces sempre foi uma das coisas que mais me fascinou nos países muçulmanos. É um som que me remete para o interior, para uma certa espiritualidade e me transmite uma sensação contraditória, entre o medo e o fascínio pelo desconhecido. Mas, convenhamos, às 5h da manhã é uma valente chatice! Acordei zangado com Deus mas entusiasmado por estar no Curdistão, uma terra com quem Deus se deve ter chateado: os curdos lutam há quase 40 anos pela autonomia em relação à Turquia e, ao longo desse tempo, têm sido sujeitos a inúmeras violações dos Direitos Humanos mais básicos. Temia uma dificuldade: a língua. Se em Istambul já tinha sido complicado encontrar pessoas que falassem inglês, aqui descobrir quem soubesse outro idioma para além do curdo e do turco seria uma raridade.

Mas, as surpresas acontecem. Enquanto eu levantava dinheiro, o Fontes e o Johnny foram abordados mesmo à porta do hotel por um rapaz pequenino, de barba mal semeada e roupa andrajosa. Em inglês, perguntou-lhes de onde eram. Assim que soube que eram portugueses, atirou uma frase familiar, com sotaque brasileiro: “Tudo bem?”. Foi nesta altura que regressei e apanhei-os ainda de queixo caído: “Chama-se Mehmet e fala português”. Perdoei Deus pelo inconveniente matinal. No fim de contas, tinha mandado um tradutor para a nossa porta.

Mehmet, 24 anos, não só falava português quase perfeito, como também dominava o inglês, o francês, o espanhol e ainda dava umas achegas no japonês. “Já estás farto de viajar, não?”, perguntei-lhe. Estava completamente enganado. Mehmet era curdo e o sítio mais longínquo a que tinha ido era Bodrum, o balneário turístico da Turquia no Mediterrâneo. Aprendeu os idiomas na internet, não em casa, porque não tem computador, mas nos vários cibercafés de Diyarbakir. E o sotaque carioca? “Passei horas de auscultadores nos ouvidos a ouvir cursos de português do Brasil e em videochamadas com meninas brasileiras”. Quando lhe perguntámos se nos podia ajudar, disse que tinha uns problemas e que ia pensar no assunto.

Prega o povo, e muito bem, que quando a esmola é muita, o pobre desconfia. Na verdade, estávamos muito receptivos à desconfiança: nesta região há cerca de 60 mil “Guardiões da Aldeia”, a milícia de bufos e mercenários turcos que denuncia quem quer que represente uma ameaça à supremacia de Ankara no Curdistão. Assim, quando nos afastámos de Mehmet, começámos a conspirar: “Porque é que ele estava à porta do hotel quando saímos?”, “Não é possível ter aprendido tão bem português pela internet”, “Será que ele é da secreta turca?, “Anda a controlar-nos!”. Passámos nisto o pequeno-almoço, até que a credulidade voltou a vencer. Não podemos deixar de ser crédulos se esse tem sido o nosso maior trunfo em viagem.

Porém, Mehmet não nos podia ajudar: “O ambiente em Diyarbakir está muito tenso e eu já estou marcado pelas autoridades. Nãp tenho medo de ir preso, só receio que se vinguem na minha família”. Caminhávamos por uma rua movimentada, no velho centro de Diyarbakir, cheio de pastelarias com deliciosos bolos de pistacho, mercearias com molhos de frutas e vegetais cristalizados pendurados à porta, vendedores ambulantes de chá e cigarros e melodias orientais. À nossa volta, as muralhas negras conservadas desde o século VII, altura em que Diyarbakir era propriedade dos árabes. Hoje, é um lugar sobrepopulado, uma consequência da fuga de centenas de milhar de curdos das aldeias reprimidas pelos turcos para a cidade, mais estável; em 1960, tinha 140 mil habitantes, hoje tem cerca de um milhão. Isso explica a pandemia de mendicidade. Várias crianças de cinco e seis anos vendiam pacotes de lenços de papel e colocavam balanças aos nossos pés para nos pesarmos, uma velhota de véu branco, atado com uma fita dourada, sentada no chão, lamuriava-se enquanro batia com uma pequena panela no chão. Mais á frente, um homem sem pernas arrastava-se dentro de um alguidar até á sua banca de brincos e pulseiras.

Entrámos pela porta ogival de Hassanpaça, um hotel palacial edificado pelos otomanos no século XVII, durante muito tempo transformado em bazar de ourivesaria. Há quatro anos, o belo edifício de pedra negra foi recuperado e funciona hoje como uma espécie de centro de comércio tradicional, com corredores apinhados de vendedores de jóias e carpetes, escadas íngremes que desembocam em salas com tapetes e almofadas arabescas, onde dezenas de jovens se reúnem a beber chá. No centro do claustro, uma fonte, e defronte dela uma loja de quadros, onde o retrato de Che Guevara figura no meio de vários imam. Uma imagem que dizia muito sobre o espírito revolucionário dos curdos.

“Vocês não podem confiar em ninguém”, dizia Mehmet, enquanto nos sentávamos no café onde um dos seus irmãos servia à mesa. Chás para todos. “Eu confiei nos meus amigos da universidade, achei que lutávamos todos pelos mesmos ideais e acabei por ser rejeitado”. O curdo frequentava o terceiro ano de turismo na Universidade de Diyarbakir e, mesmo não o confessando, via-se que tinha apoiado o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), grupo curdo de extrema-esquerda fundado em 1984 por Abdullah Oçalan para lutar pela independência do Curdistão face à Turquia. Oçalan foi preso e condenado a prisão perpétua em 1999, mas a guerrilha curda continua activa nas zonas menos acessíveis do Leste do país. “Até pensei em juntar-me à guerrilha nas montanhas”, disse. “Mas, depois, percebi que nós, os curdos, não merecemos a vitória. Não remamos todos para o mesmo lado, Cada um só olha para os seus próprios interesses e se vir que pode ganhar mais passando para o outro lado, para o Governo, não pensa duas vezes em fazê-lo, Foi por isso que deixei os estudos”, disse, mantendo sempre um intigrante mistério.

Tornara-se um verdadeiro niilista, em relação à política, às mulheres, enfim, à vida. “Não posso viver mais aqui. Quero ir-me embora para o mais longe possível, para um sítio em que não veja nem um turco nem um curdo”. Em 38 anos de conflito, mais de 45 mil pessoas (curdos, na maioria), já perderam a vida, mais de dois mil desapareceram sem deixar rasto e outros dois mil são prisioneiros políticos. “Não há nenhuma curdo que não tenha perdido um familiar ou um grande amigo nesta guerra”, diz Mehmet. “Eu perdi um primo da minha idade”. Porquê? “Por nada. Saíu de casa de noite e apareceu morto. É assim que eles costumam actuar”. Às vezes, Mehmet interrompia o discurso, escrevia umas siglas num papel ou aproximava-se de mim para me segredar ao ouvido palavras proibídas – PKK, Oçalan, Curdistão. Nem em português se sentia seguro. Em curdo, muito menos. A língua foi proibida durante muitos anos na Turquia e, actualmente, o seu uso continua a ser muito limitado na educação e nos media. O único canal nacional a emitir em curdo, a Roj Tv, teve de instalar-se na Dinamarca, país que, há menos de uma semana, mandou encerrar o canal por pressão do Governo turco. “Não há liberdade de expressão”, desabafava, em português. Pensei na frustação que devia sentir por saber falar tantas línguas e não ser livre nem para falar a sua.

Dirigimo-nos à Associação de Direitos Humanos, convidaram-nos a beber um chá, mas ninguém falava inglês. Mandaram-nos para outra, a dos deslocados, que já estava fechada. À porta da instituição fomos rodeados por várias pessoas – miúdos do bairro, um canalizador e um velho alfaiate. Todos nos queriam ajudar mas a comunicação era impossível. Durante quase uma hora, tentámos transmitir o que queríamos fazer; eles pegavam no telemóvel, chamavam os tios de bigode e os amigos que continuavam a chegar e a cumprimentar-nos em curdo. Olhavam para nós como aves raras e riam-se por não perceberem patavina das palavras e dos gestos que ensaiávamos. De repente, o nosso telefone tocou. Tivemos esperança que fosse alguém que nos tirasse daquele pesadelo idiomático. Não – era apenas Tayfun, o soldado louco que tínhamos conhecido no comboio para Diyarbakir. Exigiu a um dos miúdos, Murat, que nos levasse ao seu encontro, à estação de caminhos-de-ferro. No caminho, Murat pediu ao Johnny para lhe ensinar a dizer “I Love You” em português. Quando chegou ao quarto de hotel, Johnny tinha uma mensagem de Murat no Facebook: “Amo-te”.

Tayfun mantinha a roupa e os tiques com que o vimos no comboio. Pegou no tripé e fingiu estar a empunhar uma metralhadora. Foi uma luta para lhe explicarmos que não podíamos ir a sua casa porque tínhamos de trabalhar: “Very understand, ok”, dizia, muito calmo. Mas, subitamente, disparava em rajada, com um olhar de psicopata: “ Tiego, Joe, my home, now, now, now”. Lá conseguimos fazer com que nos deixasse em paz, depois de lhe pagarmos uma refeição, que devorou em dois minutos.

Entalados entre a espada apontada à língua dos curdos e a parede entre os idiomas, fomos para casa perdidos na tradução. À noite, consegui encontar-me com Aziz, um curdo habituado a acompanhar jornalistas estrangeiros. Mesmo sensibilizado com o nosso orçamento parco, exigiu algum dinheiro: “Tenho uma profissão de risco”, argumentou.

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Do chá ao raki – Istambul, 21 de Janeiro de 2012

January 31st, 2012 by admin

Fotografia João Henriques

Já anoitecia quando eu e o Johnny decidimos ir a Fatih, o bairro mais conservador de Istambul, situado na cidade velha, nas costas da Mesquita Azul e das outras atracções turísiticas de Sultanahmet. Apesar da proximidade dos tesouros de Istambul, ninguém vai a Fatih. Nem os próprios turcos: “Moro aqui há anos e nunca lá fui”, diz-nos Burçu, antes de sairmos de casa. Fatih é conhecida por ser uma zona de radicais islâmicos, muito conservadores que, inclusive, fecham os acessos de determinadas partes do bairro a forasteiros. “Mas só se nota se falarem com as pessoas. De resto, é igual ao resto de Istambul”, avisou-nos um amigo de Burçu.

Nada mais falso. Bastou-me sair do táxi para perceber que estava numa cidade diferente. Fatih era o negativo da fotografia da Istiklal Caddesi; as lojas luxuosas davam lugar a estaminés de frutos secos multicolores, as mulheres maquilhadas e de cabelo solto escondiam a beleza por baixo de véus floridos e a batida electrónica dos bares transformara-se na melodiosa prece de um muezzin.

Comprámos dois euros em pistachos, deliciosos, e enfiámo-nos pelas ruas do mercado, espreitando, com os olhos arregalados, lojas típicas com vários tipos de mel, os mais variados queijos e inalando o aroma de especiarias com que os homens bezuntavam a Kefta (almôndegas), antes de as porem na grelha. Os cafés, frequentados exclusivamente por homens, serviam chás ao desbarato; alguns clientes jogavam às cartas, outros estavam colados ao televisor, assistindo a uma partida de futebol. Entrámos num desses cafés. As paredes estavam decoradas com fotografias de mesquitas e de quadros alusivos a passagens do Corão e, apesar de estar cheio, reinava um silêncio relaxante. É o que dá não haver álcool à venda: o ambiente torna-se muito mais pacífico do que em qualquer tasca portuguesa.

Fotografia João Henriques

Ao nosso lado, dois pedreiros curdos começaram a pagar-nos chás, num típico acto de hospitalidade turca. Primeiro, chás pretos, quentes e revigorantes, depois deram-nos a provar um chá de limão, de sabor suave. Só com bastante insistência conseguimos pagar uma das bebidas. Não sabiam falar inglês, pelo que sussurravam somente as palavras “curdos e…guerrilha”. Na TV, passava agora o noticiário, com 30 mil turcos nas ruas de Paris a manifestarem-se contra a decisão francesa de considerar genocídio o assassinato de quase um milhão de arménios às mãos dos turcos. De seguida, um bloco de acidentes de viação com imagens sinistras.

Antes de voltarmos a casa, pedimos para ir à casa de banho de uma espécie de salão de jogos, onde vários turcos fumavam e jogavam às cartas. As bexigas não estavam a lidar bem com a quantidade anormal de chá. Assim que entrámos, vimos que não iríamos sair dali assim tão rapidamente. Sentaram-nos numa mesa redonda forrada com uma toalha verde e, de pronto, apareceram dois adversários para um jogo de dominó. “International domino”, dizia o dono do salão. Um dos jogadores, um turco bastante divertido, antecedia as jogadas com a frase “this is baby”, e só depois metia a peça. Quando lhe dissemos que a nossa próxima paragem seria Diyarbakir, no Curdistão, pegou numa caneta e num papel e escreveu “007”. Para ele, um estrangeiro que fosse para um local daqueles só podia ser espião.

Fotografia João Henriques

Perdemos o jogo para um dos turcos e, quando já estávamos de partida, fomos convidados para mais um chá na mesa de Abdullah, um rapaz de Trabzon que tem uma loja de roupa italiana em Istambul. “Fatih é que é a verdadeira Istambul. Tem o nome de Fatih Mehmed, o sultão otomano que conquistou Constantinopola. O resto da cidade foi construída depois. Fatih é que é a verdadeira Istambul”, dizia. Estava tão distraído a explicar-nos isto que se esqueceu de olhar para as cartas e perdeu o jogo. “Não é justo”, exclamava. O rapaz do dominó agitava uma bandeirinha turca e continuava a propagar as suas palavras preferidas em inglês: This is baby!

Fotografia João Henriques

Uma hora depois, já não aguentávamos nem mais um chá. Tínhamos bebido nove cada um desde que chegáramos a Fatih.”Já estou a ficar mal-disposto”, dizia-me o Johnny. Ambos concordámos que se em Fatih se bebesse cerveja, já não nos levantaríamos. Levámos a maior demonstração da simpatia turca e a prova de que há várias cidades dentro de Istambul.

Juntámo-nos a Burçu, ao seu primo Aras e a namorada grega, e ao português Eduardo, para um último jantar antes da nossa partida para Diyarbakir. Serviram-nos umas saladas deliciosas, kefta, moelas e bifinhos de fígado, acompanhados com molho de iogurte. Para beber, raki, a poderosa aguardente turca com sabor a anís, que se mistura com água, ganhando uma tonalidade esbranquiçada, como se estivesse a desfazer-se no copo um comprimido efervescente. E que comprimido! Depois de dois copos de raki, eu e o Aras, ambos ateus, já estávamos a discutir se Jesus Cristo e Maomé eram revolucionários e não profetas, homens com ideias vanguardistas parta o seu tempo. “Temos de ter cuidado com o raki. É uma bebida de homem, muito viril. Quando um tipo bebe isto, perde as estribeiras, fica demasiado másculo. Por isso, é que vês para aí muitos turcos a bater nas mulheres”, avisa Aras.

À mesa, um violinista tocava umas músicas tradicionais turcas. Pedimos-lhe uma canção portuguesa: tocou uma melodia de tourada espanhola. Apupos. Veio a conta e deixámos ali os olhos da cara. E ainda faltava a despesa no bar.

Voltámos à zona em redor da praça Taksim, a um bar chamado Kiki. Estava cheio de jovens, alguns estrangeiros, todos de cerveja na mão, música electrónica barulhenta , mas com gosto. Estávamos perante a antítese perfeita de Fatih. Cada cerveja custava quatro euros, pelo que deixámos prolongar o efeito do raki, mantendo-o apenas com uma ou duas Efes (a cerveja nacional).

Não quero duvidar dos efeitos machistas do raki, mas eu, o Johnny e a Burçu acabámos a noite em casa a fumar um charuto cubano e a falar de desgostos de amor. Talvez o chá da tarde tenha servido como antídoto

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O nosso irmão Hrant – Istambul, 19 de Janeiro de 2012

January 31st, 2012 by admin

Fotografia João Henriques

No dia 19 de Janeiro de 2007, há exactamente cinco anos, Hrant Dink, então com 52 anos, proeminente jornalista turco de ascendência arménia, saía da redacção do jornal onde trabalhava como editor, o Agos, quando foi assassinado. “Foi numa sexta-feira. Tínhamos estado na reunião de edição a rir juntos. Quinze minutos depois, ouvimos três tiros. O Hrant tinha morrido. Não podíamos acreditar”, diz-nos Sarkis Seropyan, actual editor do Agos. O crime foi perpetuado por Ogun Samast, um ultra-nacionalista turco de 17 anos, que esperou uns minutos à porta de um banco pela saída do jornalista, disparando de seguida os três tiros letais. Samast foi apanhado mas ficou a dúvida: havia uma entidade mais poderosa por trás do crime, ou terá o adolescente feito tudo sozinho?

Cinco anos depois, quase 40 mil turcos saíram às ruas de Istambul para homenagear o jornalista e protestar contra a sentença do caso, proferida dois dias antes. O tribunal condenou Samast a 22 anos de prisão, outros dois cúmplices adolescentes a 12 anos e outro homem que incentivou o crime a prisão perpétua. Mas a população não está convencida. Advogados, activistas pela liberdade de expressão e direitos das minorias étnicas, várias associações da sociedade civil e alguns partidos da oposição estão convencidos de que a organização clandestina Ergenekom, constituída por militares e políticos ultra-nacionalistas, planearam o homicídio. Os turcos democratas costumam referir-se a esta rede de figuras poderosas que governa na penumbra como o “Estado profundo”, e acreditam que são eles os responsáveis pelos conflitos no país.

Fotografia João Henriques

Mas, afinal, quem foi Hrant Dink e que perigo ele representava para ter sido aniquilado?

Dink nasceu em Malatya, este da Turquia, mas, com seis anos, migrou com a família para Istambul porque o pai tinha inúmeras dívidas de jogo. Como o pai não conseguiu vencer o vício e desapareceu, o avô, homem poliglota e letrado, internou-o num orfanato arménio, devolvendo o rapaz às suas raízes culturais. Na adolescência, Dink passava os Invernos no colégio e os Verões no campo de férias arménio de Tuzla, nas praias do Mar de Marmara, subúrbio de Istambul. Esse campo de férias assumiu uma importância fulcral na vida do jornalista: foi lá que conheceu, aos nove anos, a sua mulher Rakel, com quem, mais tarde, casou e foi lá que os seus três filhos nasceram. Mas, em 1984, Dink perdeu o campo de férias que marcou a sua vida – o Governo decidiu aplicar uma lei que obrigava todas as instituições pertencentes a minorias étnicas a entregarem aos antigos donos as propriedades que não eram deles antes de 1936. Até esse ano, o turco-arménio tinha-se licenciado em zoologia, chegara a estar filiado em partidos maoístas e era dono de uma editora livreira sem grande projecção. Mas a perda de Tuzla acendeu em Dink a chama da indignação.

Fotografia João Henriques

Olhava à minha volta e na rua Halaskargazi não havia espaço nem para um alfinete. Turcos de todas as raças e classes sociais, curdos, gregos, arménios, assírios, mulheres de véu, mulheres tatuadas, levantavam no ar cartazes pretos, ora com a fotografia de Dink, ora com mensagens como: “Somos todos arménios” e “Somos todos o nosso irmão Hrant”. Os gritos de ordem ecoavam ao longo de uma marcha de uns três quilómetros, pedindo em uníssono um desfecho mais justo para o caso: “O Estado culpado, tem de ser julgado”. Numa Turquia altamente patrótica, a manifestação estava envolta numa grande carga simbólica e emocional. Muita gente não conseguia conter as lágrimas.

Fotografia João Henriques

“O caso Dink não é um caso que possa ser encerrado. O caso Dink é uma ferida aberta na Turquia”, discursava, na varanda dos escritórios do jornal, a jornalista do Agos Karin Karadash.

Em 1996, Hrant fundou com outros intelectuais arménios da Turquia o semanário Agos, um jornal escrito em turco e arménio, que visava dar a conhecer a comunidade arménia à população turca e contribuir para a reconciliação entre os dois países, de costas voltadas desde 1915. Nessa altura, os soldados turcos exterminaram mais de um milhão de arménios residentes no território otomano da Arménia Ocidental (hoje este da Turquia), naquela que é tida como a primeira forma moderna de genocídio, a inspiração dos nazis para o Holocausto. Os arménios foram forçados a andar milhares de quilómetros para campos de concentração no actual deserto sírio, morrendo no caminho de fome e de variadas doenças. Os registos indicam que a população arménia foi gaseada, milhares de mulheres e crianças foram afogadas no Mar Negro, foram feitas experiências médicas sádicas, como a transferência de sangue infectado com febre tifóide para milhares de arménios sãos. Quase um século depois, o problema persiste: os arménios insistem na classificação dos acontecimentos como um genocídio étnico (20 países mundiais já o reconhecem como tal), os turcos rejeitam essa nomenclatura e alegam que o elevado número de baixas se deveu ao contexto, minado pela I Guerra Mundial. Isto é, a morte de Dink começou a ser traçada em 1915, quarenta anos antes do seu nascimento.

Fotografia João Henriques

Como editor do Agos, Hrant nunca se inibiu de usar a palavra genocídio, mas também sempre referiu que nem a diáspora arménia nem os arménios da Turquia deviam viver obcecados com isso. Socialista convicto, Dink tornou-se famoso pelas suas corajosas colunas de opinião, escreveu contra o nacionalismo, a favor dos direitos das minorias e de uma Turquia com direitos iguais para todos os seus povos. No fundo, foi uma ponte entre etnias, um homem que queria viver entre iguais. Quem não terá gostado foram os nacionalistas, que passaram a ver Dink como uma ameaça à sua ideologia, um país exclusivamente constituído por turcos islâmicos.

“Ele queria a amizade entre todos os povos, é por isso que vemos tantos turcos a gritar que são todos arménios. Isto é uma imagem muito poderosa”, diz Baris Altan, um arquitecto de 30 anos que aderiu à manifestação. Ao lado, um activista trepa um sinal e muda a placa do nome da rua para “Hrant Dink Caddesi”. A multidão aplaude. “Odeio este Estado, não quero viver neste Estado. Ele amava esta terra, amava este país e só queria a paz, acabou por ser morto por aqueles que dizem amar a Turquia mas só provocam a guerra”, grita-nos Zeyrep, outra manifestante. Como fundo, uma melancólica música arménia. “No ano passado, fui violada e tive um filho. Quero que o meu filho viva num país diferente, sem maiorias e minorias, não quero que viva num Estado assassino”.

Fotografia João Henriques

Por três vezes, Dink foi constituído arguido por violar a mais polémica alínea do Código Penal turco: o artigo 301. Penaliza todos aqueles que denigram o orgulho de ser turco. Começaram a chover ameaças de morte, a casa e à redacção. Por vezes, grupos de nacionalistas juntavam-se à volta do Agos, gritando-lhe: “Se não amas este país, vai para a tua terra”. A família e os amigos sugeriram-lhe que fugisse da Turquia, que parasse de escrever. “Não conseguia”, diz Sarkis Saropyan. “Ele preferia morrer a calar-se”.

Assim chegou às12h de 19 de Janeiro de 2007. O assassino, de boné e calças de ganga, apanhou-o pelas costas, três balas direccionadas à cabeça, ao cérebro, precisamente ao local de onde a ameaça vinha. Uma poça de sangue espalhou-se pelo passeio, as fotografias mostram os populares chocados, caíram lágrimas onde hoje há uma coroa de cravos vermelhos. Rakel, a mulher, colapsou, foi parar ao hospital, certamente lhe vieram à cabeça as imagens de uma vida no campo de Tulza, o namorico com nove anos, o casamento e o campo roubado pelo Estado que fez Hrant dar vida à pena, escrever as suas mágoas e as suas convicções. Naquele dia, foi ele, amanhã poderá ser outro. Vinte escritores e jornalistas têm guarda-costas na Turquia e mais de oitenta encontram-se presos. Hrant teve pior sorte mas a semente das suas palavras foi plantada na voz dos turcos.

Cansado, Sarkis, 77 anos, preparava-se para abandonar a redacção do Agos após a manifestação. À porta, três crianças com as respectivas mães: uma assíria, uma curda e uma arménia. Queriam todas saber quem era Hrant e onde ele trabalhava. “O Hrant não morreu em vão”, desabafa. “Aqueles miúdos vão querer viver na Turquia unida de Hrant, não na dos nacionalistas”.

Fotografia João Henriques

Nós próprios tivemos a prova disso. No dia seguinte, estávamos à porta do jornal quando apareceu Uzgur Kavuncu, um rapaz de 25 anos da zona fronteiriça com a Grécia, que não queria deixar Istambul sem conhecer os arménios do Agos. “Um dos meus objectivos de vida é conhecer todas as etnias da Turquia. Hrant conhecia-as melhor que ninguém. Ele era um revolucionário”. Uzgur pergunta-nos se sabemos o significado do seu nome. “Livre”, respondeu, com um sorriso. Livre graças a homens como Dink.

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Do que se alimenta um viajante? – Istambul, 18 de Janeiro de 2012

January 24th, 2012 by admin

Fotografia João Henriques

No nosso caso, a resposta óbvia à pergunta do título seria “triângulos de queijo fundido La Vache que Rie”. Tal como em África, aqui também é o queijo mais barato do mercado. Comi doses industriais daquele queijo pré-fabricado durante cinco meses, derretido pelo calor africano, e evitei-o como a um demónio em Portugal até que, em Istambul, não tive maneira de escapar. Já me tinha esquecido daquele suave sabor a plástico, da textura de molusco e de como combinava maravilhosamente com uma fatia de pão de forma ressequida. Felizmente, não é isso que nos enche a barriga. Todas as manhãs, despertamos famintos de histórias e peripécias. E, nesse aspecto, sabíamos que íamos ter um dia farto.

Fotografia João Henriques

Pequeno-almoço: O João Fontes partiu muito cedo para o terminal de carga do aeroporto, a fim de ir buscar o monopé e o suporte de ombro que tinham ficado retidos em Lisboa. Eu e o Johnny saímos de casa directamente para o Consulado-Geral da Síria, país onde o movimento de contestação ao presidente Bashar al-Assad é tão grande que se avizinha uma guerra civil. A Síria é o próximo país no nosso caminho e queríamos saber quais as possibilidades de entrarmos como turistas.

Primeiro, ficámos uns minutos na rua a decidir o que argumentar para convencer o cônsul. Pensámos em fazer-nos passar por estudantes de desporto, em pesquisa para uma tese de mestrado sobre o futebol no Médio Oriente (a manha já usada em África), depois por especialistas em gastronomia mediterrânica (mas desistimos ao perceber que tínhamos um conhecimento nulo sobre o assunto) e, por fim, decidimos dizer que éramos simples turistas, com o desejo de passar pelas ruínas romanas de Palmyra, até alcançar a Jordânia e a mítica cidade de Petra.

Recebo por e-mail o relatório do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), que me diz que, diariamente, morrem de 25 a 50 pessoas na Síria, vítimas dos ataques do exército de Al-Assad. À porta da Embaixada, porém, não vejo nenhuma menção à violência no país – apenas fotografias das colunas de Palmyra, das praias de Latakia e do charme de Damasco. “Síria, a Terra-Mãe”, lia-se por baixo, “terra-mãe da civilização, terra-mãe da religião, terra-mãe da escrita”. “Se esta Síria de Assad é mãe, então o Mundo está prestes a ficar órfão”, pensei.

Fomos recebidos pelo cônsul, um homem com quase quarenta anos, alto, cabelo preto penteado para trás, tez oriental e uns olhos verdes de gato persa, astutos e misteriosos. Na sala de espera, mais três homens, provavelmente sírios, um deles a escrever num computador portátil. O cônsul perguntou-nos o que queríamos fazer na Síria, num inglês perfeito. “Somos turistas e queremos chegar por terra a Petra, na Jordânia. Só queremos passar pela Síria em trânsito”, respondemos. Nos instantes seguintes, fez-se silêncio. Lembrei-me do último relatório do OSDH: “O número de mártires foi hoje de 24 pessoas, incluíndo duas mulheres e uma criança”. Estava convicto de que o diplomata nos ia convidar a sair da sala. Em vez disso, abriu um sorriso e respondeu: “Claro que sim, é seguro. Aqui não lhes posso passar o visto, mas chegam à fronteira e pedem-no lá. Sem problemas”. Mais uma passagem do relatório de ontem: “Em Al-Beayada, fogo aleatório e pesado, sobre a localidade, com os habitantes a gritarem Deus é Grande”. E mais uma frase surpreendente: “Apenas 5% do que se vê na televisão é verdade. A culpa é da CNN. As estradas estão abertas, a vid a faz-se normalmente. Era capaz de lá ir com a minha família”.

Tiago Carrasco no barco a caminho da estação de comboios de Haydarpasa. Fotografia João Henriques

Fiquei estarrecido, numa mistura de euforia e de desconfiança, mas tentava não dar nas vistas. Entretanto, o cônsul retirou-se para confirmar a informação. Voltou menos simpático e com menos certezas: “Deviam ter feito o visto na nossa Embaixada de Madrid. Mas pode ser que consigam na fronteira. Diria que têm 70% de hipóteses”. Olhei bem para ele e pareceu-me estar diante de uma personagem sinistra, de um agente da polícia secreta ou de um afilhado de Assad. “Os atiradores furtivos mataram mais um activista em Homs”, pensava, lembrando-me do que lera antes de sair de casa. Nesse momento, os olhos do gato persa abriram-se e um sorriso maquiavélico brotou-lhe na face: “Mas, na fronteira, não pareçam tão desconfiados. Ajam como árabes e vão ver que passam. Sei que não é fácil, mas comportem-se como árabes”. Será que o gato persa me leu os pensamentos e se apercebeu do desconforto?

Almoço: Às 13h, já estávamos num barco sobre o rio Bósforo, a caminho da estação de comboios de Haydarpasa, situada no lado asiático da cidade. O vento frio cortava-nos a cara, mas o chá que nos serviram a bordo aqueceu-nos o sangue. Bem ao nosso lado, um casal apaixonado mandava pão às gaivotas, que sobrevoavam o barco em círculo, num grande frenesim.

 

A velha Istambul desfilava ao fundo, com arranha-céus disformes a insinuarem-se nas suas costas. Destacava-se a Ayasofya, com os seus quatro minaretes imponentes, hoje museu, mesquita durante quinhentos anos e, ao longo de quase mil, a maior Basílica do Mundo. Nasceu pela ordem de Justiniano I, em 537, para ser a catedral do Império Romano Bizantino. Foi construída por arquitectos gregos, que usaram para o efeito tijolos ocos trazidos de Rodes, feitos de argila porosa, que conferem ao edifício uma luz única. A Ayasofya, então Basílica da Santa Sabedoria de Deus, tem uma cúpula assente em 40 colunas massivas que revolucionou a história da arquitectura. Só 1000 anos depois, em 1520, a obra perdeu o seu título de maior templo cristão do Mundo para a Catedral de Sevilha. Nesse tempo, já deixara de ser cristã. Com a queda de Constantinopola (Istambul) às mãos dos Otomanos, chefiados pelo sultão Mehmed II, a Basílica foi transformada em mesquita: taparam-se os vitrais, desmantelaram-se os sinos e as cruzes, para se construir os minaretes, o mihrab e o minbar. Permaneceu assim até 1931, quando Kemal Ataturk ordenou que fosse secularizada. Reabriu em 1935, como o novo museu da recém-nascida República da Turquia. A Ayasofya representa as várias identidades de Istambul desde há 2000 anos – foi cristã ortodoxa, católica, muçulmana e hoje é de toda a gente que tenha 20 liras para a visitar (8 euros).

Mesquita azul. Fotografia João Henriques

À sua frente, de opulência similar, encontra-se a Mesquita Azul, construída pelos Otomanos entre 1606 e 1616, para provar que o Império não era bom somente a remodelar como também a construir de raíz. Lá dentro, as paredes e a cúpula conferem ao templo uma tonalidade azul muito luminosa, que a torna única no Mundo.

Torre Galata. Fotografia João Henriques

Destacava-se também a Torre Galata, cujo topo parecia espreitar por cima dos telhados e das antenas de Istambul, firme desde 1348, altura em que a cidadela de Galata era um entreposto de comércio genovês. A torre resistiu a inúmeros terramotos e até à destruição das muralhas genovesas no século XIX e hoje oferece a melhor vista sobre Istambul. Os turcos dizem que foi do cimo da torre que o Homem aprendeu a voar; Hezarfen Ahmed Çelebi, um otomano do século XVII, mandou-se da torre com umas asas artesanais feitas com penas de águia, sobrevoou o Bósforo e aterrou na outra margem, a mais de 3km de distância. O sultão Murat Khan deu-lhe um saco de moedas de ouro, mas ficou tão assustado com os poderes daquele homem, que o extraditou para a Argélia, onde terá morrido. Um dos três aeroportos de Istambul chama-se Hezarfen.

Estação de comboios de Haydarpasa . Fotografia João Henriques

Tal como ele, também nós chegámos ao outro lado do Bósforo enquanto eu estava perdido pela História. Dirigimo-nos à estação de Haydarpasa, que perdeu o telhado há um mês, num incêndio. Na bilheteira, pedimos três bilhetes para Diyarbakir, no longínquo Curdistão. Custavam apenas 12 euros cada, mas prontamente ficámos a saber o que estava por trás da pechincha – a viagem demora 33 horas e existem 91 paragens.

Sevval Kiliç durante uma conversa na LGBTT Istanbul. Fotografia João Henriques

Jantar: O Fontes chegou apressado do aeroporto, com o equipamento já completo. O envio custou-nos 200 euros (um rombo no orçamento, já de si muito limitado). Sevval Kiliç, a porta-voz da LGBTT Istanbul (Lesbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais de Istambul) esperava por nós na sede da associação, perto da Praça Taksim, onde dois voluntários depositavam preservativos num caixote para efectuarem a distribuição. Uma bandeira com as cores do arco-irís dominava a parede, decorada também com fotografias de transexuais assassinadas na Turquia. “Por mês, há um crime de ódio contra uma transexual no país”, começou por dizer Sevval.

Fotografia João Henriques

Istambul é uma das capitais mundiais do transformismo, com uma comunidade de mais de 5000 travestis e transexuais a viver do negócio do sexo. “Comparada com outros países da região – Síria, Iraque ou Irão – a Turquia tem uma certa liberdade sexual, por isso recebe muitos refugiados transexuais dessas zonas. Mas não pensem que é como na Europa. A nossa liberdade é muito reduzida”.

Sevval, 41 anos, nasceu no seio de uma família da classe média de Istambul. Soube desde os três anos que tinha nascido no corpo errado. “Era uma menina com um pénis. Traziam-me bonecos e eu alimentava-os e dava-lhes água, depois ficava a chorar quando ele urinava pela pilinha. Estava sempre à espera que me dessem uma boneca, de cabelo comprido”, diz Sevval. Os pais repararam e levaram-na ao hospital, como se estivesse doente. Sevval tinha 20 anos, não aguentou, fugiu de casa e descobriu pessoas como ela. “Fui amadrinhada por uma transexual que me levou para casa, alimentou-me, vestiu-me, ensinou-me tudo o que eu sei. Só comecei a trabalhar um ano depois”.

Estávamos numa altura a que a activista chama “anos de ouro”, os anos 80 e 90. Nessa época, havia menos transexuais em Istambul e clientes para todos. Hoje, todas as vítimas de discriminação sexual no Médio Oriente rumam a Istambul e a concorrência é feroz. Já nos anos 60, Zeki Muren, um cantor travesti que se tornou famoso, passeava no centro de Istambul de mini-saia. Quando a polícia o apanhava, dizia que “era um traje romano e que já tinha estado com 38 mulheres turcas”. “Tanto ele como Bulent Ersoy, outra transexual famosa, são responsáveis pelo trauma de todos os transformistas turcos. Eles são famosos mas nunca se assumiram como activistas transexuais. Preferem que continuemos a viver debaixo do chão. Como quem diz, existam, mas não saíam à rua com as vossas bandeiras para protestar”.

Fotografia João Henriques

Pergunto a Savval se acredita que a Turquia é um país sexualmente livre: “Não, não, não! Nós ainda não fizemos a revolução de género, e não pode haver qualquer outra revolução sem haver liberdade sexual. Até os pequenos partidos de esquerda, que dizem ter a mentalidade aberta, dizem que a homossexualidade foi uma invenção do capitalismo. Fuck you!”

(Saiba mais sobre a vida dos transexuais em Istambul na sexta-feira, na reportagem do semanário Sol).

Só à noite, quando chegámos a casa, nos alimentámos decentemente. O chef Johnny preparou uma saborosa massa com frango e cogumelos mas os nutrientes essenciais já tinham sido absorvidos pelos restantes sentidos.

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A preto e branco – Istambul, 17 de Janeiro de 2012

January 24th, 2012 by admin

Bairro de Tarlabasi , perto da praça Taksim, é a zona de residência das comunidades minoritárias da Turquia.Fotografia João Henriques

Na carruagem do metro, um anúncio a um programa de televisão deteve-me o olhar: não por ser muito apelativo – afinal, era apenas mais uma daquelas sitcom familiares -, mas sim porque os oito actores que apresentava tinham todos a pele branca. Não havia nem um com traços faciais do Médio Oriente. Podiam ser perfeitamente actores portugueses, espanhóis ou italianos. Fiquei a pensar por que carga de água não estavam representados os turcos de origem curda ou os de origem arménia.

Estávamos a caminho da Praça Taksim, o coração cosmopolita de Istambul, não particularmente bonita a nível arquitectónico mas com um carisma conferido pela multiculturalidade e pela pose de Ataturk na estátua de homenagem à implantação da República. Taksim, em turco, significa partilha, a praça da partilha, pois era dali que, nos tempos otomanos, uma fontes escoava água para toda a cidade antiga. Esperava-nos Aras Bilkin, um primo de Burçu, que nos ia mostrar o lado subterrâneo de Beyoglu, a zona entre o rio Bósforo e a Praça Taksim.

Aras Bilkin. Fotografia João Henriques

Aras, 27 anos, tinha sido um fervoroso comunista durante a adolescência, participando activamente em protestos e acções contra o poder dos militares na Turquia e em defesa das minorias étnicas do país. Quando entrou para a universidade, no curso de antropologia, já tinha o currículo manchado: os professores vetaram-lhe trabalhos sobre a ligação do êxodo rural à prostituição, sobre os bairros onde residem as minorias e até sobre as raízes culturais da cozinha turca. “Eu já vinha referenciado do liceu como um activista e eles anularam-me todas as possibilidades de fazer qualquer trabalho que tivesse uma ligação política”, diz Aras.

Aras Bilkin. Fotografia João Henriques

Com uma passada acelerada, Aras, de barba farta, olhar astuto e uma dentadura orfã de um canino, leva-nos até a um café para mais um chá preto. Na Turquia, não se pode iniciar uma amizade sem a partilha de uma chávena de chá forte. “Temos este dúvida existencial, este complexo que nos persegue, esta dupla personalidade: somos o país mais oriental do Ocidente ou o país mais ocidental do Oriente?”. Aras dá mais uma bafurada no cigarro. Atrás de si está a ponte do Bósforo, o tabuleiro que divide Istambul em dois, deixando 3% da Turquia em território europeu e 97% em solo asiático. “Eu acho que temos de ser os mais orientais do Ocidente. E isso quer dizer que podemos ser europeus, mas temos de conservar as nossas tradições e a cultura das populações do Leste. Não é o que acontece. O Governo quer “turcanizar” todos os povos e etnias do país”.

Falo-lhe do cartaz que tinha visto no metro. Aras confirma o meu raciocínio: “Sim, é verdade. Tenho amigas de pele mais clara que têm montes de ofertas para trabalhos como modelos fotográficas, e isso raramente acontece com alguém com a pele mais escura. A televisão é precisamente uma das maiores armas dessa ‘turcanização’ da população. Aliás, na Turquia, não há meio termo, é tudo de extremos, ou é preto ou é branco, não existe cinzento”.

Aras Bilkin fotografado no seu quarto. Fotografia João Henriques

Aras mostra-nos o seu apartamento, no tranquilo bairro de Cihangir, zona de intelectuais e artistas. É um último andar, ao estilo dos antigos apartamentos de águas furtadas de Lisboa. Como trabalha como editor de imagem, o computador ocupa um lugar central no seu quarto, com câmaras de vídeo e cabos espalhados pelo chão. O sol entrava pela janela do quarto, radioso, e tudo naquela casa nos parecia familiar – latas de cerveja e livros por todo o lado, cama por fazer, uma jambé a servir de mesa de cabeceira, uma garrafa vazia de aguardente de raki em cima da máquina de lavar roupa. Às portas da Ásia, tínhamos encontrado um rapaz como nós. À nossa frente, o Bósforo circulava sereno como a artéria aorta de Istambul, altiva e sábia, assente em sete colinas como a nossa cidade.

Bairro de Kasimpaça. Fotografia João Henriques

Voltámos a caminhar, passando primeiro pelo bairro de Kasimpaça, uma zona com fundações antigas mas restauradas. Do meio do bairro, erguia-se um moderno estádio de futebol: “Foi mandado construir pelo primeiro-ministro Recep Erdogan. Ele cresceu aqui e jogou no clube durante a juventude. Também vendia limonadas e pão de sésamo (simit) na praça Taksim para ganhar dinheiro”, explica Aras. “É por isso que que os turcos gostam tanto dele. Ele nasceu em Kasimpaça, um bairro duro da classe trabalhadora, uma zona de turcos viris, jovens e corajosos, e conseguiu chegar ao topo. Mas ele ainda hoje reflecte essa mentalidade do bairro, de trabalho árduo, conviccções firmes e orgulho patriótico”. Erdogan mudou-se com a família para Istambul com 13 anos, licenciou-se em economia e entrou no meio político, mas chegou a estar seis meses preso por recitar um poema, em 1997, quando já era presidente da Câmara de Istambul. O actual primeiro-ministro, criado numa envolvência extremamente religiosa, fez uma analogia entre os símbolos do Islão e elementos bélicos: “..Os minaretes são as nossas baionetas e a fé os nossos soldados”.

Fotografia João Henriques

Mesmo assim, em 2002, ganhou as eleições legislativas com dois terços dos votos e iniciou a era do APK – Partido da Justiça e do Desenvolvimento -, partido por ele criado. Aproveitando a falência económica do país (em 2001, 25 dos 45 bancos turcos faliram) e o facto de governar sem coligação, criou reformas corajosas que fizeram subir a taxa de crescimento do país até 7,3%, fez descer a inflação de 34,9% para 5,7% e reduziu o desemprego. Em relação aos direitos humanos, aboliu a pena de morte e deu um passo decisivo para a reconciliação com os curdos, mudando a lei de forma a autorizar a língua curda em espaços públicos e restaurou a nomenclatura curda nas cidades da região que tinham adoptado nomes turcos. Nem mesmo os problemas que subsistem, como a tensa relação com Israel e o prolongar do conflito turco, demoveram milhares de egípcios de inundar as ruas do Cairo aquando da visita de Erdogan ao Egipto pós-Mubarak. Nas ruas, liam-se cartazes com mensagens de veneração: “Erdogan é o líder islâmico do Médio Oriente”. A Turquia é tida como o estado de referência para muitos dos que integram os movimentos revolucionários na Tunísia, Líbia e Egipto. Mas quem não gostou do que ouviu foi a Irmandade Muçulmana, cujos braços políticos venceram as eleições na Tunísia e no Egipto, quando Erdogan referiu que “o caminho para a democracia passa pela secularização do Estado”.

Aras parou diante de um hotel com fachada envidraçada: “Daqui para a frente fica Tarlabasi, o bairro dos habitantes curdos e ciganos”, referiu. Mesmo ao lado da praça Taksim, Tarlabasi parecia ter sido atingido por um míssil. Estávamos numa outra ponte, desta vez uma passagem social, entre a cidade beijada pelo sol e a que se escondia na penumbra. Crianças ciganas surgiam de prédios em ruínas e comerciantes curdos espreitavam de mercearias escuras. “A matriarca deste bairro é uma mulher cigana. As pessoas de Tarlasi chamam-lhe mamã”, conta Aras. Cruzámo-nos numa esquina com dois africanos negros – Istambul é a porta de entrada na Europa de muitos africanos pois a Turquia não exige visto de entrada a cidadãos de inúmeros países a sul do Sara. Alguns não conseguem passar para a Grécia e ficam retidos em Tarlabasi, o mais barato dos bairros do centro de Istambul. “Reparem que estão aqui há tanto tempo que já se vestem como curdos”, nota Aras.

Aras Bilkin , na rua central de Tarbalasi. Fotografia João Henriques

Dsembocámos na rua central, ladeada por traficantes de droga e bares de transexuais. “A ironia é que a esquadra de polícia fica ali no meio da rua”, aponta Aras. O bairro também está minado de sex-shops manhosas, todas no primeiro andar porque o Estado proíbe essas ‘poucas vergonhas’ ao nível do chão, e de lojas de perucas, onde as prostitutas transexuais mudam de penteado. “O objectivo do Estado é manter Tarlabasi na decadência, para ter um pretexto para demolir estas casas, que custam umas 300 liras por mês (180 euros), expulsar os curdos e os ciganos para os subúrbios e construir aqui prédios milionários”, explica Aras.

Ao voltar para a avenida principal, que separa o bairro da Taksim cosmopolita e charmosa, voltei a reparar na diferença de cores de Istambul. Estava tudo a preto e branco.

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Um Judeu em Istambul – Istambul, 16 de Janeiro de 2012

January 24th, 2012 by admin

Yoel Meranda , realizador e produtor à porta da sinagoga Neve Shalom em Istambul. Fotografia João Henriques

Quando a bomba explodiu à porta da sinagoga Neve Shalom, em 2003, na zona de Galata, em Istambul, Yoel Meranda estava a estudar cinema em Chicago. Tinha sido ali que os seus pais tinham casado e que tinha feito o seu ritual de circuncisão. “Ligaram-me a dizer que tinha morrido um amigo de infância, que também se chamava Yoel. Era três anos mais novo que eu e éramos bastante chegados”. Yoel, 30 anos, lembra-se desses ataques bombistas como o maior ataque à comunidade judaíca em Istambul desde que nasceu. Morreram 27 pessoas, das quais seis eram judias. O ataque foi reivindicado pelo IBDA-C (Great Eastern Islamic Raider’s Front) mas as autoridades acreditam que a dimensão do atentado supera a capacidade desta pequena organização radical islâmica. Nunca foram encontrados os autores reais do massacre.

Yoel é um judeu orgulhoso, mas não praticante. Realizador e produtor de filmes experimentais, movimenta-se no meio artístico onde é mais comum pessoas de diferentes credos e etnias se misturarem. Na rua da sinagoga, encontra outra realizadora judia e um actor muçulmano gay. “Quando és artista, só te dás com minorias”, explica. Vinte minutos após nos determos em frente ao templo, um guarda grisalho e de olhos azuis avançou na nossa direcção: “Têm de sair daqui por motivos de segurança”. A Neve Shalom é uma autêntica fortaleza – tem três paredes interiores antes da entrada e um sistema de reconhecimento por impressões digitais.

Os 27 mil judeus que vivem em Istambul são herdeiros de um passado de paz e tolerância. Mustafa Kemal Ataturk abriu as portas da recente República Turca a influentes judeus refugiados da perseguição nazi e já no tempo do Império Otomano, centenas de milhar de judeus espanhóis e portugueses fugiram da Inquisição para Istambul. Foi o que fez a família de Yoel, em 1492, quando terá escapado da região de Miranda do Douro para se fixar nas margens do rio Bósforo. Então porque é que o seu apelido é Meranda e não Miranda? “Porque nos anos 30, quando Ataturk introduziu o alfabeto romano e adaptou a grafia dos nomes à fonética turca, o meu apelido passou a ser Meranda. O meu avô e o meu pai quiseram alterá-lo, mas eu gosto dele assim. Há poucos Meranda no Mundo”.

Começava a nevar em Istambul. Flocos brancos serpenteavam pelo ar, poisando sobre os passeios, os carros, os impermeáveis amarelos dos pescadores do Bósforo e sobre os volumosos caracóis de Yoel. Ele tentava explicar-me como era ser judeu num país de muçulmanos: “Não é que eu sinta que um judeu tenha menos oportunidades em Istambul do que um muçulmano. Ou pelo menos, eu nunca me apercebi disso. Mas se pensares que estamos num país com 99% de islãmicos, perceberás facilmente que te vêm como diferente se andares na rua de quipá (chapéu judeu)”. E quem não usa o chapéu mas se assume como judeu? “Bem, há 20 anos falar em Israel na rua era uma coisa impensável. Mesmo há dez anos, muito dificilmente poderia estar a ser entrevistado na rua sobre judeus ou curdos. Agora já o conseguimos fazer. Está melhor. Apesar de, instintivamente, baixarmos o tom de voz quando pronunciamos essas palavras”.

Pescadores na ponte galata . Fotografia João Henriques

À noite, pedimos ajuda a outro judeu, Eytan Aji, e à nossa cícerone Burçu, para nos acompanharem a um bar transexual nas ruas adjacentes à majestosa Istiklal Caddesi. Queríamos conhecer um transformista e perceber quais os limites da liberdade sexual na Turquia, mas precisávamos de alguém que nos traduzisse o nosso pedido. O Sahran, o tal bar, era referido nos guias de viagem e nas páginas de internet especializadas como um perigoso antro de prostituição, onde os travestis e os transexuais assediam turistas, assaltam visitantes e, por vezes, expulsam os intrusos á pancada. Eytan, tímido ao primeiro contacto, não se acanhou com a reputação do espaço. Furou por entre chulos de bigode, corcundas zarolhos e matrafonas peludas até chegar perto de Christinne, um travesti entroncado, com quase 1,90cm. Olhei para aquele momento: um empresário judeu e um travesti curdo em amena cavaqueira na Turquia islâmica? E fiquei com a impressão que nesta Turquia se vai poder dizer todos os nomes bem alto.

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Um, dois, três…aprender outra vez – Istambul, 15 de Janeiro de 2012

January 18th, 2012 by admin

 

João Fontes e Tiago Carrasco no metro de Osmanbey . Fotografia João Henriques

Há coisas que nunca mudam. Há dois anos, na nossa viagem rumo à África do Sul, saímos de Lisboa sem câmara de filmar e tivemos de esperar por ela em Tarifa, no sul de Espanha, antes de atravessarmos o Estreito de Gibraltar. Desta vez, quando pensávamos que tínhamos tudo em ordem para o embarque para Istambul, uma senhora do controlo de bagagens disse-nos que não podíamos passar com o monopé e com o suporte de ombro para a câmara. Parece que com aquilo podíamos cometer um atentado…O Fontes ainda correu para colocar o equipamento no tapete da bagagem fora de formato, mas não foi a tempo – o check-in já tinha fechado. Mais uma vez, arrancáramos em falsa partida. Não nos restava outra hipótese senão partir primeiro e ficar à espera dos malfadados ferros em Istambul.

Ainda não sabíamos que as semelhanças entre as duas viagens ficariam por aí. O primeiro choque foi a ausência do jipe. O aeroporto Kemal Ataturk e a praça Taksim distam uns 50 quilómetros e tivemos de percorrê-los de mala às costas em vários transportes: primeiro, de metro, depois, em dois autocarros diferentes, até que, por fim, desembocámos num táxi que nos levou a Osmanbey, um bairro moderno próximo da principal praça de Istambul. Pelo meio, assistimos incrédulos ao desfilar de uma cidade de tamanho incomensurável, casa de mais de 15 milhões de habitantes, onde prédios altos com letras luminosas contrastam com minaretes de outros tempos. À excepção da África do Sul, não encontrámos na nossa viagem anterior nada de similar.

Tiago Carrasco , Burçu Baydemir e João Fontes na estação de metro de Osmanbey. Fotografia João Henriques

Instalámo-nos no apartamento de Burçu Baydemir, uma amiga turca que já viveu em Portugal. Apesar do cansaço, acompanhámo-la numa saída nocturna, numa zona chique da cidade. Nas galerias de um centro comercial, três bares com clientela aprumada competiam pela supremacia do volume da música. O resultado era uma enorme diarreia sonora, e até um cão sentado à mesa com os donos parecia procurar desesperadamente tampões para os ouvidos. O ambiente contrariava tudo aquilo que um estrangeiro pensa encontrar num país islâmico: mulheres de cabelo corrido e mini-saia, beijos, carícias, danças sensuais e cerveja aos molhos. Claro que isto não está ao alcançe de muitos turcos (nem de nós): cada cerveja custa seis euros. O ordenado mínimo na Turquia ronda os 400 euros.

Restaurante Datli Maya . Fotografia João Henriques

Pela manhã, Burçu convidou-nos para tomar o pequeno-almoço no seu sítio favorito. “O pequeno-almoço de domingo na Turquia é um evento. Por vezes, ficamos umas duas horas a comer”. Aquilo que incialmente figurei como um exagero, rapidamente se tornou bastante compreensível quando entrámos no “Datli Maya”, um tradicional e acolhedor snack-bar turco. O primeiro piso era dominado por um enorme forno a lenha que aquecia várias rodelas de simit – o saboroso pão turco com sementes de sésamo. Para se chegar à minúscula sala de refeições, passámos pela cozinha, onde fomos presenteados com uma agradável mistura de aromas de diferentes queijos, pão, azeitonas e mel. Qualquer refeição, tal como qualquer actividade de um turco, não se inicia antes de um copo de chá preto, tirado directamente de uma pipa arabesca. Depois, cada um serve-se do que quiser: beyaz peynir (um maravilhoso queijo de cabra), gozleme, (crepes finos que vão bem com uma deliciosa pasta de tomate), lor (requeijão), mel, azeitonas, ovos estrelados e sumo de romã. No que ao estômago diz respeito, ficámos com a certeza de que o vamos tratar melhor do que em África. A cozinha turca é considerada uma das melhores do Mundo. Há quem defenda mesmo que só a francesa e a chinesa conseguem ser tão variadas.

Dilara Erbay , dona do restaurante Datli Maya . Fotografia João Henriques

 

Balança do restaurante Datli Maya . Fotografia João Henriques

A dona do restaurante, Dilara Erbay, era de origem grega. Os gregos e os turcos disputam a patente de muitos produtos gastronómicos – desde queijos até bebidas alcoólicas. A mais polémica é a da típica aguardente super-alcoólica com sabor a anis, que se chama raki na Turquia e ouzo na Grécia. “Como a Grécia viveu séculos sob ocupação do Império Otomano, tem vários elementos culturais influenciados pela Turquia. A comida é um deles”, diz Burçu. Em 1923, com a implementação da República da Turquia por Mustafa Kemal Ataturk, mais de um milhão de gregos ortodoxos foram recambiados da Turquia para a Grécia, acontecendo o contrário a meio milhão de turcos muçulmanos a residir na Grécia. Não foi, nem por sombras, a única alteração introduzida por Ataturk: ele secularizou o Estado, introduziu o alfabeto romano na Turquia, legislou a igualdade de género e incentivou o uso de vestuário ocidental.

Escadaria do restaurante Datli Maya . Fotografia João Henriques

Ao final da tarde, fomos ao estádio Besiktas Inonu, para vermos aquilo que, a par da comida, é a grande paixão dos turcos – o futebol. O desafio opunha o Besiktas dos portugueses Carlos Carvalhal, Manuel Fernandes e Hugo Almeida, ao Bursaspor. Como eu e o Fontes chegámos tarde, o Johnny, o Eduardo, um amigo português a estudar na Turquia, e uma amiga dele, Irem, uma turca baixa e divertida, já tinham comprado os bilhetes a um homem que os vendia à porta do estádio. Cada um custara 30 liras turcas (12 euros).

Dirigimo-nos para a porta de entrada, aturdidos com o som infernal da claque do Besiktas. Mas mais aturdidos ficámos quando os bilhetes não accionaram os torniquetes. Tínhamos comprado bilhetes falsos. Irem desesperava: “Sou fã do Besiktas e é a minha primeira vez no estádiio porque o meu pai nunca me tinha deixado vir. Isto não me pode estar a acontecer”.

A rapariga começou a correr de porta em porta, debitando a polícias e seguranças mil e um argumentos em turco para nos deixarem entrar. Ora porque éramos amigos pessoais do Carlos Carvalhal, ora porque éramos jornalistas, ou porque tínhamos sido barbaramente enganados e deviam ter pena de nós. Senti-me um personagem do filme “Offside”, do iraniano Jafar Panahi, em que uma rapariga, interdita de entrar num estádio de futebol reservado a homens, tenta de tudo para furar a segurança.

A um dado momento, olhei para trás e já tínhamos um pelotão de pessoas com entradas falsas atrás de nós, tentando aproveitar o caminho que tentávamos abrir. Um deles perguntou-me se podia juntar-se ao nosso grupo: sabia que tínha mais hipóteses com estrangeiros. Havia um jogo paralelo a decorrer nas imediações do estádio. Dezenas de rapazes forçavam a entrada, a polícia de intervenção agredia alguns adeptos, os seguranças reuniam-se em redor de fogueiras para enganar o frio. Em cima de um viaduto, mais de uma centena de pessoas espreitavam o jogo por cima das bancadas, vendo apenas uma pequena porção do campo. Aquela era a bancada dos vigarizados, de todos aqueles que tinham comprado bilhetes falsos. Depois de termos tentado entrar por todas as portas do Inonu, juntamo-nos a eles. Constatava outra diferença para África: lá, teríamos conseguido arranjar forma de entrar com os bilhetes da “candonga”, na Turquia revelara-se impossível. De dentro do estádio continuava a ecoar um som furioso, entoado pelos Çarsi, a claque organizada do Besiktas.

Adeptos do Besiktas vêm o jogo em cima dum viaduto por trás do estádio. Fotografia João Henriques

Os Çarsi são um grupo politizado, mais devoto a Che Guevara do que ao nacionalismo de Kemal Ataturk, conhecidos em toda a Turquia por protestarem contra tudo: “Çarsi contra tudo”, é o seu slogan. Manifestam-se tanto contra a subida do preço do gás como a favor do prémio Nobel da Literatura Orhan Pamuk, apoiando as suas posições sobre o genocídio arménio. Aliás, o chefe da claque é de ascendência arménia, algo impensável em qualquer outra claque. Uma das suas maiores lutas é contra o racismo. Aquando da morte de Michael Jackson, fizeram uma faixa enorme com a imagem do rei da pop e a mensagem: “Ele também era branco e preto”, em referência às cores do Besiktas e à cor de pele da população turca.

À mesa de um café, conhecemos ainda Ergan (nome fictício), um amigo de Burçu, empresário judeu num país de muçulmanos. Ergan pediu-nos para lhe chamarmos Jose, o seu nome espanhol, legado do tempo em que a sua família teve de fugir da Península Ibérica nos tempos da Inquisição. Aproveitando uma abertura burocrática na Turquia, Eytan conseguiu em 1992 obter o passaporte espanhol, que lhe facilitou a fixação em Amesterdão e Dubai nos últimos sete anos. Falávamos animadamente há já algum tempo sobre a comunidade judaíca em Istambul, quando lhe perguntei como eram as relações entre a Turquia e Israel. Ele respondeu-me que eram boas mas que, infelizmente, após o assassinato de nove activistas palestinianos que tentavam entrar em Israel num barco turco, em Maio de 2010, a Turquia retirou os seus embaixadores de Tel-Aviv e exigiu um pedido de desculpas por parte das autoridades israelitas. Instintivamente, pensei que estava a falar com um turco que defendia a causa do seu país. Esqueci-me que Ertan era turco, mas também era judeu. “Não entendo porque não pedem desculpa se mataram nove pessoas”, disse-lhe eu, inocentemente. Eytan mudou logo de voz e de postura. Ficou desconfortável. “Pois, eu não sou dessa opinião”, respondeu. “Se pedissem desculpa, iam ter mais barcos cheios de activistas palestinianos a tentar entrar em Israel”. No Médio Oriente, quando a discussão é política ou religiosa, qualquer palavra tem de ser pensada ao pormenor. O emaranhado de ódios e tensões é tão grande que qualquer intenção de disparar uma palavra apaziguadora pode, por lapso, transformar-se em fogo hostil para o interlocutor.

É uma nova viagem, uma realidade diferente. Tanto a comer, como a conversar, estamos a aprender outra vez. E essa é a essência de viajar.

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Meia-hora para Marte – Voo 1760 da Turkish Airlines, 14 de Janeiro de 2012

January 12th, 2012 by admin

Sinto que estamos a emigrar para outro planeta. Hoje, um ano depois da queda de Ben Ali, o ex-presidente tunisino, o primeiro déspota a cair em consequência da Primavera Árabe, viajamos para um planeta distante e desconhecido, o mundo árabe, com a sensação de que vamos pisar Marte pela primeira vez. É um mundo diferente, em mutação, em que os árabes oprimidos durante décadas se juntaram para gritar por liberdade, em contraste com o nosso, que continua mudo e austero.

Hoje, em Portugal, o tema do dia eram as reuniões de concertação social entre sindicatos e entidades patronais, para discutir a pertinência da implementação de mais meia-hora obrigatória de trabalho diário. Falava-se ainda da avaliação do país como “lixo” pela agência de rating Standard and Poor’s, dos cortes nos subsídios de Natal, da nomeação de mais compadres partidários para a administração de empresas públicas, dos “lobbies” na Maçonaria. Enfim, não admira que até os nossos próprios governantes nos peçam para emigrar. Nós fizemos-lhes a vontade, mas só por três meses.

Quanto à questão da meia-hora, que por acaso é o que nos falta para aterrar em Marte, a minha experiência pessoal leva-me a considerá-la absurda. Tanto como trabalhador independente como por conta de outrém, multipliquei as “meias-horas” de trabalho extraordinário, sem ter sido compensado por isso. Muito pelo contrário: em 2010 fizemos um projecto jornalístico em África, com muitas “meias-horas” de trabalho a mais durante cinco meses, um trabalho arriscado sem subsídio de risco, muitas vezes com ameaças à vida e sem seguro de saúde. Acham que pelo facto de termos capacidade para produzir para além das oito horas diárias, alguém nos contratou ou nos deu uma recompensa? Não, claro que não. E é isso que vai acontecer com qualquer trabalhador que seja forçado a trabalhar mais trinta minutos por dia. Mais sacrifício e nenhuma regalia.

O que os patrões não compreendem é que o tempo é irrelevante, pois só um trabalhador motivado pode produzir mais, não um que seja forçado a fazer algo. É isso que nos leva a substituirmo-nos aos patrões e a empreender projectos como a “Estrada da Revolução”. Não é o dinheiro, porque até agora só ficámos mais pobres, não é a loucura, porque os exames médicos continuam a dar-nos como sãos, não é a vontade de alienação, porque amamos o nosso país e os nossos amigos. É a motivação: o prazer inabalável de fazer um bom trabalho jornalístico e a vontade de continuar a acreditar que podemos ter o trabalho com que sempre sonhámos.  É precisamente por essa meia-hora de trabalho a mais, essa meia-hora na denúncia de crimes humanitários, na divulgação de povos e culturas desconhecidas, na busca de mais e mais conhecimento, que renegamos ao conforto e nos arriscamos em planetas misteriosos e hostis. Ninguém nos precisa de forçar a tal, porque amamos aquilo que fazemos. Ou pensam que Gilles Jacquier, o repórter da France 2 que morreu esta semana na Síria, perdeu a vida por o terem condenado a fazer uma reportagem num teatro de guerra? Não, ele fê-lo porque sabia que o seu trabalho ia denunciar as atrocidades contra seres humanos que se têm cometido na Síria. Morreu, infelizmente, na defesa do seu trabalho. Mais um mártir.

Os altifalantes do avião informam-nos que vamos aterrar. Temos 15 mil quilómetros pela frente, numa terra manchada pelo vermelho do sangue, mas também fertilizada pela esperança do povo. A primeira paragem é Istambul. Que comece a revolução.

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