Archive for February, 2012

Pedras contra Gás – Hebron, Cisjordânia, 24 de Fevereiro de 2012

February 29th, 2012 by admin

Fotografia João Henriques ( Manifestação em Hebron . Polícia israelita dispara gás lacrimogénio enquanto os palestinianos respondem com pedras )

Ao fundo, já se avistam os minaretes da Mesquita de Abraão no centro da milenar cidade de Hebron. Issa Amro, activista pela causa palestiniana e líder da organização Juventude contra os Colonatos (YAS), manda agachar cerca de mil manifestantes que meia hora antes se tinha concentrado diante da mesquita Wasaya Rasul Allah, no sul da cidade. A 300 metros, no fim da rua, uma barreira do exército israelita formada por soldados armados, veículos blindados e snipers posicionados nos terraços dos edifícios, bloqueia a passagem. A multidão ergue-se e avança em bloco em direcção aos militares, gritando em coro: “Allahu Lakbar” (Deus é Grande). Caminho na linha da frente do protesto, despreocupado e convencido de que a marcha continuará para lá da barreira, escoltada pelos militares.

Fotografia João Henriques

De repente, um rapazinho arremessa uma pedra, seguida de mais duas que não vejo de onde vêm; um miúdo de uns 16 anos corre para a cabeça da manifestação, de peito feito para os militares que agora se encontram a menos de 100 metros, desfralda uma bandeira de Israel e puxa-lhe fogo. A estrela de David é engolida pelas chamas, a multidão continua a aproximar-se e, de súbito, ouvem-se duas fortes explosões: “pum, pum”. Seriam bombas? Mísseis? Tiros para o ar? Todas as possibilidades passam em slide em frente dos olhos em milésimos de segundo. Sobressaltados, os manifestantes dispersam numa grande correria em todas as direcções; a maioria recua, uns metem-se dentro de lojas, outros escondem-se atrás de um contentor de plástico usado como escudo. Eu viro-me para a direita e sigo uma dezena de adolescentes para um beco. Primeiro entro num quintal, mas um grampo metálico voa na minha direcção e bate com estrondo num portão de ferro, mesmo ao meu lado. Fujo a sete pés para a parede que delimita a viela, os mais ágeis trepam-nos como gatos mas eu e os miúdos mais novos ficamos encostados a ele, a recuperar o fôlego. Nesse instante, um soldado de máscara e capacete surge embrulhado numa densa névoa de fumo a patrulhar a rua principal, vira-se para e beco e dá pela nossa presença. Depois, aponta uma arma robusta. Olho em redor; tinha perdido o Johnny e o Fontes na confusão e estava rodeado por putos indefesos aos berros. “O tipo não pode disparar”, pensava.

Chegáramos à Palestina na noite anterior, vindos de um barco que nos deixara em Haifa, no Norte de Israel. De manhã, tomáramos conhecimento da manifestação e apanhámos um táxi para a Wasaya Rasul, onde a concentração ainda estava a ser preparada. As ruas estavam decoradas com bandeiras da Palestina e com galhardates amarelos do Fatah, o partido de centro-esquerda fundado em 1964 por Yasser Arafat, que é considerada a facção mais importante da confederação multipartidária OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Uma das salas da mesquita estava a ser preparada para receber um comício, enquanto centenas de palestinianos começavam a chegar para a oração do meio-dia de sexta-feira, a mais importante da semana. Nas paredes, vários cartazes com as fotografias das 29 pessoas assassinadas a 25 de Fevereiro de 1994 no massacre da Mesquita de Abraão, às mãos de Baruch Goldstein, um médico judeu ultra-nacionalista. Esse acontecimento mudou a vida dos palestinianos em Hebron: “Foi há 18 anos. E é para homenagear essas vítimas que hoje esta manifestação quer chegar à Mesquita de Abraão”, diz Issa Amro. Temer Atrash, 23 anos, também membro da YAS, acrescenta: “Depois desse massacre, a cidade foi dividida em duas partes: a H1, sob controlo das autoridades palestinianas, e a H2, controlada por Israel e pelos colonos judeus. No meio, fica a rua Shuhada, que era a rua principal da cidade e o centro da vida comercial árabe. Expulsaram os habitantes, fecharam as lojas e proibíram os palestinianos de meterem os pés nessa rua. Estamos aqui para exigir a reabertura da Shuhada”.
Hebron é a única cidade palestiniana da Cisjordânia com um colonato judeu no centro. Durante mais de uma década, o exército israelita implementou uma política de separação entre os 800 colonos e os 170 mil palestinianos que vivem dentro de Hebron (há mais quatro populosos colonatos nos arredores da cidade). Alegando estar a proteger a minoria judia, os militares restringiram severamente a movimentação da maioria árabe: 77% das lojas fecharam e 1014 famílias foram forçadas a deixar as suas casas, o que representa 42% dos apartamentos da zona central. “O centro de Hebron tornou-se numa cidade-fantasma, onde apenas os judeus estão autorizados a movimentar-se livremente”, diz Temer. A rua Shuhada, especificamente, era o centro de negócio da cidade e fechou em 2000. Só em 2007, quatro famílias palestinianas foram autorizadas a voltar; contudo, como têm a porta principal vedada e não podem pisar a rua, são obrigadas a subir ao telhado e sair pelas traseiras. Também a Mesquita de Abraão, mais famosa pela sua denominação judaíca – Túmulo dos Patriarcas – foi dividida ao meio: metade mesquita, metade sinagoga. É um templo sagrado para ambas as religiões, onde estão supostamente sepultadas algumas das figuras biblícas mais determinantes: Adão e Eva, Abraão e Sara, Jacob e Lea e Isaac e Rebeca. Os cadáveres idolatrados que, em última análise, estão na origem de todos os conflitos em Hebron.

Fotografia João Henriques

 

Fotografia João Henriques

 

Fotografia João Henriques

Com o fim da reza, mais e mais gente se acumulava em frente à mesquita. Não eram apenas islâmicos – havia também dezenas de activistas ocidentais com um cachecol à Arafat enrolado ao pescoço, entre os quais duas mulheres sexuagenárias que tinham uma bandeira da União Europeia. Dominavam as cartolinas amarelas com as mensagens: “Abram a rua Shuhada” e “Fim do sistema apartheid”. Pelo meio, uns dez homens levantavam a bandeira síria e cantavam a demissão de Bashar al-Assad. Para nossa estranheza, começaram a aparecer fotógrafos e cameramen com máscaras de viseira e capacetes: “O capacete serve para, se estiveres junto aos soldados, não levares  com pedras na cabeça, e se estiveres do lado dos manifestantes, protegeres-te do gás lacrimogéneo”, diz um dos repórteres. Pedras? Gás? Ninguém nos tinha avisado que a manifestação podia ser violenta. Não tínhamos qualquer tipo de protecção.

Fotografia João Henriques

 

Fotografia João Henriques

 

Fotografia João Henriques

O corso arrancou, guiado por um Peugeot branco, com um tipo com um megafone pendurado na janela a gritar palavras de ordem. Assim continuou, pacificamente, até que os soldados surgiram no caminho para a mesquita e Issa mandou a malta agachar-se, atiraram-se pedras, queimou-se uma bandeira, ouviram-se explosões e deu-se a fuga. Uns minutos antes, um dos fotógrafos de capacete tinha-me tentado avisar do perigo mas não o entendi. Agora tinha uma arma apontada na minha direcção, apenas a umas dezenas de metros.

Fotografia João Henriques

O soldado dispara mesmo, duas vezes, com uma frieza implacável. O som atemoriza-me mas descanso quando ouço o silvar do gás a soltar-se de duas bombas pretas de gás lacrimogéneo que se aproximam pelo chão a grande velocidade. Só nesse instante percebo que não estão a atirar balas. Rapidamente, eu e os miúdos ficamos cobertos por uma nuvem de fumo esbranquiçado que me entra pela garganta e pelas fossas nasais e me obriga a fechar os olhos, enquanto corro para fora dali. Quando tento ver onde estão, tinham desaparecido. Enfio-me dentro de um curral abandonado e fecho a porta mas, quando penso que estou a salvo do gás, reparo que a janela não tem portada. O gás entra lentamente e, agachado a um canto, tento respirar sofregamente e esfregar os olhos para aliviar o ardor insuportável. As próprias lágrimas que me corriam pela face pareciam estar em chamas. Aflito, abro a porta para me pôr dali para fora, quando um miúdo vem buscar-me e me leva para dentro de um prédio. Finalmente, a salvo.

Fotografia João Henriques

 

Fotografia João Henriques

Mansur Fakhurie, 20 anos, dá-me prontamente dois lenços de papel húmidos para molhar a cara e um copo de água. Ele também estava encostado à parede quando o soldado lançou o gás sobre nós. Tem, como eu, as pálpebras ligeiramente inchadas, as bochechas inflamadas e uma tosse irritada pelo incómodo dos químicos. É um miúdo magro e sorridente, cabelo estilizado com gel e um ar gozão. “Porque é que te foste meter ali? Era o pior sítio para te esconderes”, diz-me.

Fotografia João Henriques

Guia-me até ao terraço, de modo a vermos o que se passa na rua principal. Lá em baixo, um cenário de guerra, embaciado pelo fumo negro de pneus a arder e pelo gás que continua a ser disparado. Chovem muitas pedras sobre os militares que respondem com mais gás e com jactos de água acastanhada. As sirenes das ambulâncias do Crescente Vermelho são aflitivas e incessantes, tal como as explosões de pólvora seca e de balas de borracha, e os carros militares patrulham todo o perímetro de Hebron, espalhando mensagens de medo através dos megafones: “Estão a dizer que se não dispersarmos vão começar a disparar balas reais”, traduz Mansur. “Agora é muito perigoso voltar á rua”.

Fotografia João Henriques

Os homens da família de Mansur e alguns refugiados do gás estão todos no terraço. No prédio da frente, os snipers israelitas apontam a M-16 na sua direcção e ordenam que voltem para casa: “Hey, eu estou em casa. Porque é que não vais tu para casa e não nos deixas em paz?”, grita o destemido tio de Mansur. “Eles apontam mas nunca disparam. São uns maricas. Nós já estamos tão habituados a isto que já sabemos como funciona”, explica o homem. “Além disso, estamos em H1, isto é a nossa zona, a presença deles naquele telhado é completamente ilegal”. Aventuro-me no telhado, mas o soldado também me aponta a arma e fujo a sete pés. Mansur ri-se. Prefiro ficar a espreitar pelas grades da janela.

Fotografia João Henriques

Servem-me um chá, recomponho-me e Mansur oferece-se para me levar para o terraço da casa do primo, que tem uma vista mais desimpedida. Saltámos um par de muros de quintais e entramos num prédio com um cheiro nauseabundo. “Será que morreu algum gato?”, brinca o rapaz. Enquanto subimos a escadaria a correr, cruzamo-nos com um miúdo gordito que nos passa para a mão dois pés de hortelã: “Respira isso. Alivia o ardor do gás e deste cheiro horrível”. Pergunto-lhe o porquê daquele odor putrefacto: “Aqueles jactos de água que eles atiram estão cheios de químicos que deitam este cheiro. É a primeira vez que o usam em Hebron. E sabes qual é a mensagem? Vocês são uma merda, então têm de cheirar a merda”, diz.

Fotografia João Henriques

Assim que alcanço o terraço, vejo um fotógrafo de braço estendido no topo de um prédio ainda mais alto. É o Johnny. Não sei bem como, mas o fotógrafo italiano que está ao meu lado recebe logo uma chamada dele: “Logo no primeiro gaseamento, fiquei com falta de ar e uns tipos levaram-me aqui para cima. Passei mal”, conta o Johnny. Como é asmático, é-lhe completamente impossível descer do prédio. As ruas estão infestadas de gás. Entretanto, Mansur chama-me a aponta para a janela de sua casa, onde há menos de cinco minutos tinha estado a espreitar pelas grades. Estava a deitar fumo. “Os sacanas mandaram uma bomba de gás para minha casa. Porquê? Não estávamos a fazer nada”, reclama Mansur.

Fotografia João Henriques

Volto ao epicentro do protesto e sou logo rodeado por manifestantes que me dão cebolas cortadas ao meio e uns paninhos embebeidos em álcool – alguns dos truques para suavizar a inalação de gás. No meio da rua, um miúdo de 17 anos, Moussa, com um cachecol com as cores palestinas ao pescoço, enfrenta o exército sozinho, atirando-lhes pedras atrás de pedras. Do cimo do telhado, os soldados israelitas, pouco mais velhos que ele, contra-atacam com as granadas de gás. Moussa, sem máscara, pára-as com os pés, pega nelas enquanto ainda libertam o químico e arremessa-as de volta. Ao vê-lo, perco grande parte do medo.

Fotografia João Henriques

Nisto, vejo o Fontes passar de cãmara em riste. Tinha fugido uns metros para trás, escondera-se numa casa e voltara depois para recolher as imagens do conflito e do constante movimento de ambulâncias. Pomo-nos em posição para gravar um depoimento mas, nas nossas costas, ouvem-se duas explosões; desatamos a correr e perdemo-nos outra vez no meio do nevoeiro lacrimogéneo. Para piorar as coisas, levo com salpicos de um jacto de água podre, ao mesmo tempo que um jipe israelita é atingido em cheio por mais um cocktail-molotov.

Fotografia João Henriques

Ao longo de mais duas horas, os movimentos repetem-se, naquilo que parece ser um jogo do gato e do rato. Umas dezenas de palestinianos aproximam-se e lançam pedras que ficam aquém do alvo pretendido, assim que ultrapassam a distância de segurança, o exército riposta, com as bombas de gás e a água de mau cheiro, os contestatários escondem-se, esperam uns minutos pela dissipação da nuvem tóxica e voltam a investir, escondidos atrás de um contentor e de duas paletas de plástico. Depois erguem-se, exibindo aos soldados e aos flashes das câmaras as mensagens de ordem pelo fim da ocupação militar e pela abertura da rua da discórdia. As acções são muitas vezes lideradas por um grupo de raparigas vestidas de forma tradicional. A razão é simples: o exército tem mais pudor em apontar para elas, pelo que podem garantir um significativo avanço territorial. Eu e o Fontes abrigamo-nos com elas em mais um beco – estão atrasadas porque têm de apanhar um autocarro para Jerusalém -, a prova de que a manifestação ultrapassa as fronteiras de Hebron. Enquanto esperamos, deparamo-nos com uma situação caricata: um soldado israelita, com máscara e M-16, perde-se no meio dos manifestantes com quem troca pedradas. Depois, retira-se a correr debaixo de uma grande chuva de calhaus.

Fotografia João Henriques

Antes da desmobilização, ainda encontro Mansur, o rapaz que me arrancara do sufoco. Ele gostava de prosseguir os seus estudos em informática mas diz que não o consegue fazer em Hebron e que também não está autorizado a sair da cidade: “Até para irmos a Tel-Aviv ver a praia precisamos de uma autorização do exército israelita, que é muito difícil de obter”, explica. “Tenho 20 anos e ainda não tive um dia dez paz em Hebron. E é impossível tê-lo se não acabarmos com a ocupação militar de Israel”.

Fotografia João Henriques

Temer partilha da mesma opinião. Três horas depois do início do protesto, faz contas ao prejuízo: “Houve 88 palestinianos feridos por problemas respiratórios, um deles é paramédico, e seis foram detidos pelos soldados israelitas”. Segundo a YAS, até ao fecho desta edição, ainda não sabem do paradeiro de um deles, o activista Fadi Quran. Por seu lado, o porta-voz do exército israelita queixou-se de “dois cocktails-molotov atirados sobre as forças da autoridade e um pneu incendiado, em duas frentes de manifestação violentas e ilegais”.

Quando entramos no táxi, sentimos um cheiro pútrido. A água da fossa lançada para desmobilizar a manifestação tinha-se entranhado nos nossos casacos, calças e mochilas. Só o Johnny escapara, por ter estado num ponto mais alto. Primeiro, o taxista quis pôr-nos imediatamente fora do carro. Só quando lhe explicamos o que tinha acontecido, aceita conduzir-nos, mas quase sempre com a cabeça de fora da janela. Tínhamos tido apenas a primeira introdução ao conflito israelo-palestiniano e já percebêramos que quanto mais metêssemos o nariz no tema mais lhe sentiríamos o cheiro a podre.

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O Desembarque na Terra Prometida – Haifa/Jerusalém/Hebron, Israel/Palestina, 23 de Fevereiro de 2012

February 29th, 2012 by admin

Fotografia João Henriques ( Chegada a Haifa , Israel )

Estou no mais confortáveis dos sonos, quando o Fontes salta da cama superior do beliche e me acorda. São 6h e uma tímida aurora, de tonalidade rosa e cinzenta, descobre a face ensonada de Haifa, revelando a sombra dos seus prédios altos e do Palácio da Fé Baha’í. “Já tinha acordado às 4h30m para filmar o nascer-do-sol, mas quando olhei pela janela, vi uma luz tão branca que pensei que já fosse dia. Continuei a dormir. Só agora percebi que era o candeeiro do barco”, diz-me o Fontes.

Rogo-lhe duas ou três pragas, peço a qualquer entidade sagrada que prolongue o tempo de navegação e só a muito custo me descolo do colchão para lavar o rosto. Já há muito tempo que não dormia tão bem como no Alios. Olho para a roupa e deprimo-me: já não tenho calças de ganga sem buracos. Ou melhor, tenho umas, as que me foram oferecidas na Síria, mas não sei se por estar inchado de adrenalina na altura, se por ter emagrecido com a neura de não encontrar um barco, agora ficavam-me tão largas que me caíam pelas pernas abaixo. Também não me agrada ter de usar as mesmas meias por já não ter nenhumas lavadas, de os ténis precisarem de ser lavados, de andar com o mesmo casaco e com o mesmo gorro há uma semana. O Johnny e o Fontes têm o mesmo problema. Por andarmos sempre juntos, já nem nos apercebemos que nos transformáramos em beatniks perdidos no Médio Oriente, caminhantes desleixados e anti-materialistas, a quem só importa a próxima cidade, a próxima montanha, a próxima fuga; em Portugal, seria impensável usar esta indumentária em trabalho, muitos até podiam recusar-se a ser entrevistados por tamanhos maltrapilhos; aqui, com a loucura da viagem, impõe-se o lado selvagem, o look passa a ser cavernoso e o perfume não mais do que a fragrância natural da pele. As convenções e as vaidades, essas, ficaram numa gaveta lá de casa.

Fotografia João Henriques ( As últimas imagens da goPro)

Sentamo-nos na sala de estar a beber um chá matinal com Claude, o parisiense que transporta um camião-tanque com 300 mil crias de douradas para aquacultura. O francês, ainda mais desalinhado que nós, com o cabelo gorduroso pelos ombros e uma fila de dentes cariados, fala-nos dos intensivos interrogatórios israelitas. Ele é um habitual visitante de Israel e já está habituado a que, à entrada, lhe perguntem tudo e mais alguma coisa sobre o propósito da sua visita ao país dos judeus: “O que vens cá fazer? Quantos dias ficas? Para quem são os peixes? Porque tens tantos carimbos da Tunísia no passaporte? Qual é a tua religião? Eles vão perguntar-vos tudo. E, acreditem em mim, se suspeitarem de alguma coisa descobrem tudo sobre vocês. Não lhes digam que são jornalistas”. O navio ancora à espera de lugar para atracar. Pela última vez, Claude levanta-se para verificar o termostato do tanque. O Fontes mergulha a pequena câmara GoPro, feita para ser submersa, para levar pancadas e aguentar temperaturas extremas, para filmar as douradas, mas esquece-se de usar a caixa isoladora. Resultado: os circuitos afogam-se e a câmara colapsa. Deixamos a solução deste problema para mais tarde.

É que, por fim, o bar beija o cais do porto de Haifa e abre-se a porta do porão para dar entrada à polícia de imigração. Um tripulante indiano vem buscar-nos à cabina e somos chamados um a um para interrogatório na sala onde tínhamos estado a jogar às setas na noite anterior. O chefão é um tipo novo de óculos, com um ar assustadoramente normal, que se parece com Matt Damon num dos seus vários papéis de espião. Diz que nos vai interrogar um a um e aponta primeiro para o Johnny.

Eu e o Fontes aproveitamos para ir comer uma omoleta com bacon com a tripulação, ao mesmo tempo que nos rimos a imaginar o Johnny passar algemado pela polícia. Só o fazíamos porque estávamos confiantes de que não ia acontecer nada. Combináramos não dizer que éramos jornalistas, para evitar mais perguntas e suspeitas, e omitir que a Palestina era o nosso principal destino, e não Jerusalém como o Johnny deveria estar estar a responder nesta altura. Dez minutos depois, o fotógrafo sai (sem algemas) e conta o questionário: “Perguntaram-me como vos tinha conhecido, como tínhamos arranjado dinheiro para a viagem, o que íamos ver em Israel, no que trabalhávamos – disse que era fotógrafo e que vocês trabalhavam em cinema, como tínhamos combinado”. A dada altura, descobriram que tínhamos dois passaportes: “Então, mas se entraram ela Turquia onde é que está aqui o carimbo turco?”. O Johnny mostrou-lhe o segundo passaporte, obtido através de um pedido extraordinário na Conservatória de Lisboa, necessário para evitar a combinação no mesmo documento de carimbos de entrada em países que não se reconhecem, como Israel e a Líbia ou a Síria. Com um carimbo israelita no passaporte, não se pode entrar numa série de países islâmicos inimigos. Assim, temos um passaporte para Israel e outro para o mundo árabe.

O tipo parecido com o Matt Damon ri-se: “Bem, se é assim tão fácil ter dois passaportes em Portugal, quero ir para lá”. Depois, dispensa o Johnny, chama o casal neo-zelandês e, por fim, manda-me entrar em simultâneo com o Fontes e com o Claude. Ao francês, nem lhe perguntam o nome – a quantidade de selos israelitas no livrinho confere-lhe credibilidade. A nós, tiram-nos duas fotografias – uma à cara e outra às impressões digitais – mas não nos confrontam com as respostas do Johnny. Afinal de contas, o interrogatório não tinha sido assim tão exaustivo.

Fotografia João Henriques ( Haifa )

Passamos ainda por mais um controlo policial à saída do porão e somos de seguida levados de pick-up até à alfândega. Os desgraçados dos neo-zelandeses são obrigados a retirar tudo do jipe para revista. Comentamos as ocasiões em que fomos obrigados a fazer o mesmo em África: era uma chatice. A grande diferença é que este par dos antípodas tem tudo organizado em pequenas caixas de plástico, enquanto a bagageira do Yuran, o nosso jipe, parecia uma banca da Feira da Ladra. Felizmente, não nos obrigam a tirar a roupa da mala, na verdade, todas as autoridades nos tratam com a maior das simpatias, e, dois postos de controlo depois, estamos a sair do porto e a entrar em Haifa, a terceira maior cidade de Israel (depois de Tel-Aviv e Jerusalém), com 300 mil habitantes.

Em repouso na encosta do Monte Carmelo, Haifa é uma cidade com 3000 anos, altura em que se instalou aqui uma povoação portuária da Idade do Bronze, Tell Abu Awam. Ao longo da história, foi, entre outros, fenícia, persa, romana, bizantina, árabe, otomana e inglesa. Hoje, alberga uma população israelita 90% judia, oriunda especialmente da ex-União Soviética, e 10% árabe de origem cristã. É um dos centros mais importantes da pujante economia israelita, actualmente entre as 20 maiores do Mundo, com o porto, a universidade e o pólo tecnológico na vanguarda do país. Em Israel, há um ditado que diz: “Haifa trabalha, Jerusalém reza e Tel-Aviv joga”.

Impondo-se na paisagem, os Terraços da Fé Baha’í, ou os Jardins Suspensos de Haifa, dão a identidade a uma cidade que, caso contrário, morreria no anonimato. No topo, a cúpula dourada do mausoléu de Báb, o  Profeta fundador da fé babí, que nasceu na Pérsia, que se pode alcançar através dos impressionantes jardins escadeados.

Também impressionantes, mas pela negativa, são as notas de shekel israelitas, incompreensivelmente berrantes, que assim que nos chegam às mãos são logo gastas num bilhete de autocarro para Jerusalém. São 150 quilómetros e duas horas de viagem, que aproveito para ler uma introdução à história de Israel. Sentados à minha volta, estão judeus com quipás de todas as cores colados à cabeça, alguns jovens soldados, de uniforme pastel, armados com M-16 e ortodoxos chassídicos de colarinho branco e barba longa, com longas tranças onduladas penduradas por cima das orelhas. Israel, terra complexa, de tantas fés e tantas guerras, berço do judaísmo, cristianismo e islamismo, era um país que há muito queria visitar.

A terra que agora pisamos anda a ser calcorreada por diferentes povos há cerca de 22000 anos. Isso mesmo, mesmo vários milénios antes de Jesus nascer, aqui perto, em Belém, actual território palestiniano na Cisjordânia, já havia para estes lados muitas histórias mal contadas. Esta começou por ser Canaã, a Terra Prometida, banhada por três mares – o Mediterrâneo, o Morto e o Vermelho -  e abençoada por rios de leite e de mel, azeitonas, uvas e sol. Por volta de 2800 a.c., o Egipto Faraónico reclamou Canaã como parte do seu Império e foi sob tutela egípcia, 1000 anos depois, que Abraão aqui chegou, liderando a sua tribo nómada, os israelitas, desde a Mesopotâmia (actual Iraque) até às Montanhas da Judeia, onde, segunda consta, Deus lhe tinha dito que ficava a Terra Prometida (repare-se que enquanto em Portugal brincávamos aos celtas, aos iberos e aos celtiberos, aqui já se andava a fazer História a sério).

Apesar de a seca e a fome ter levado os israelitas até ao actual Egipto, Moisés, neto de Abraão, trouxe-os de volta à Judeia, em 1250 a.c., para acabar de uma vez por todas com a sua servidão perante o domínio egípcio. Acontece que, pela mesma época, chegou à região uma misteriosa civilização marítima, vinda pelo que se sabe da região do Mar Egeu, que ficou conhecida como os Filisteus, esses mesmos, os que na Bíblia vêm já mencionados como os maiores inimigos de Israel. Os Filisteus instalaram-se na zona costeira, entre o que é hoje Ashdod e Gaza e impuseram o seu domínio político e bélico. Os israelitas, ameaçados por esta hegemonia que vinha da costa, organizaram-se em 12 diferentes tribos debaixo do poder de um só rei, Saúl. Após a morte de Saúl, a tribo da Judeia apoiou o rei David, o tal que se tornou o herói dos oprimidos ao derrotar o gigante Golias, que por sinal era Filisteu, ficando depois com o caminho aberto para conquistar a cidade-estado de Jerusalém. E, de David nasceu Salomão, que construíu o Primeiro Templo. E assim se montaram as raízes de Israel.

Atenção, esta é apenas uma das milhentas versões da História. Mas, na verdade, mais de 3000 depois, tudo isto está na raíz do actual conflito no Médio Oriente; os judeus, que se consideram descendentes da tribo da Judeia, e os Palestinianos, que vêm os Filisteus como seus antepassados, iniciaram aí uma contenda eterna que, intervalada por tempos de relativa paz, nunca deixou de resfolegar. Por isso, ouvimos hoje as mais diversas razões para a supremacia no território; os judeus dizem que, nos escritos do Antigo Testamento, “Deus deu a sua terra aos judeus”, enquanto que os Palestinianos alegam que a região é habitada por uma maioria árabe há 1400 anos. Não admira que não se entendem.

Chegamos a Jerusalém e fecho os capítulos da História. Amanhã há mais. Deixamos o autocarro e somos logo submetidos a mais uma revista de bolsos e de bagagens, antes de entrar na estação. Apesar de estar numa mera estação de autocarros, que também é um género de centro comercial, nunca tinha visto tanta gente armada – nem na Síria. São miúdos e miúdas de 20 anos, a caminho e de regresso da tropa, que é obrigatória durante três anos para os homens e durante quase dois para as mulheres. São centenas deles, todos impecavelmente trajados, com a espingarda à tiracolo. Ponho-me a pensar que mentalidade nacional pode levar tantos rapazes a abdicar dos três melhores anos das suas vidas para os dedicarem à defesa da Pátria. É preciso gostar muito da Pátria ou gostar pouco da vida, pensava. Ou viver num clima de medo. Afinal, os vizinhos continuam a ser os Golias, maiores, mais numerosos, tentando engolir a estrela de David. Será isso que move os soldados deste pelotão ambulante que divaga pelo shopping? Ainda havia uns com um visual ortodoxo, quipás e peot (as tais tranças nas frontes), com espingardas atrás, o que é muito mais assustador, porque parecem justiceiros religiosos.

Apanhamos o autocarro 160 para Hebron, a 37 quilómetros, uma das cidades mais sagradas do Mundo – a 4ª para os islâmicos, a 2ª para os judeus. É lá que estão sepultados os patriarcas do judaísmo – Adão, Abraão, Jacó e Isaac. A partir de 1970, Israel iniciou a construção de colonatos em redor da cidade árabe de Hebron, um processo que se alastra até ao presente, com muitos israelitas a viver em cidades novas nos subúrbios. Esta é a realidade em quase todos os lugares importantes da Cisjordânia. Não em Hebron. Hebron é diferente, sempre foi e assim há-de continuar. Por isso é que a escolhemos para montarmos a nossa base. É que aqui há 800 colonos israelitas a viver no centro da cidade, e não são colonos comuns, são nem mais nem menos alguns dos judeus mais radicais da Cisjordânia, instalados no meio de uma das cidades palestinianas com mais radicais islâmicos. A coisa prometia.

À saída de Jerusalém, um checkpoint que parece uma portagem de auto-estrada marca a entrada no West Bank. Imediatamente, uma parede enorme ergue-se na berma, surgem rolos de arame farpado e vedações com soldados de plantão , janelas e portas enjauladas em grades de ferro, ventos de guerra e de ódio. Montes e colinas de pasto verde-seco, adornados por pedras brancas que espreitam do chão como toupeiras, pisadas por cabras e ovelhas, preenchem na perfeição o cenário que idealizara. As casas tornam-se mais modestas, as quipás dão lugar a lenços jordanos axadreados enrolados na testa. É outro país, outra terra, outra gente, que faz questão de realçar isso em cada detalhe de arquitectura e de vestuário. É a Palestina.

No autocarro, porém, não segue um único árabe. Somos nós e mais uma dezena de judeus. Andamos às voltas pelos colonatos, deixando e apanhando gente, até chegarmos a uma curva onde meia dúzia de civis e uma dúzia de militares estão parados junto a uma estação de autocarros e a uma grade de ferro que bloqueia a passagem para o centro da cidade. Última estação: Hebron. É hora de lusco-fusco e não há ninguém. Reina uma atmosfera desoladora. Caminhamos de malas às costas paralelos a um cemitério islâmico, do outro lado da rua, as portas dos prédios estão vedadas com cimento, cadeados e barras de ferro. Para onde foram as pessoas? O único movimento que se nota é o da agitação das bandeiras israelitas nos postes de electricidade. Finalmente, depois de 10 minutos de caminhada na cidade-fantasma, chegamos a um posto de controlo que, no fundo, é um barracão pré-fabricado construído bem no meio da faixa de rodagem daquilo que parecia ter sido, em tempos, uma rua de bastante movimento. Dois soldados pedem-nos o passaporte e deixam-nos entrar, desconfiados que sejamos turistas devido ao aparato de câmaras e computadores. Do outro lado, assim que transpomos o barracão, voltamos a sentir vida. Mais dois passos, e vemos táxis amarelos, lojas de tecidos mouriscos, cheiramos canela e açafrão, ouvimos gritos, risos e choros. “Abram a rua Shuhada. Queremos o fim do apartheid”, lê-se na parede. Afinal, o que se passa em Hebron?

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O barco dos loucos – Mar Mediterrâneo, 22 de Fevereiro de 2012

February 25th, 2012 by admin

Fotografia João Henriques

Há uma imensidão de pormenores deliciosos nos hotéis mais pobrezinhos. No Tycoon, em Limassol, onde nos instalámos antes e depois da reportagem em Nicósia, manhã não é manhã sem um inglês a preparar-se para mais um intenso dia de trabalho com uma gorda caneca de cerveja. A pensão, a mais barata da cidade, conta com um bar britânico na recepção e pelo balcão está permanentemente a soprar um vendaval de peripécias: vimos um inglês entrar com os dois olhos negros e a cabeça aberta depois de ter sido assaltado, outro cliente a tentar esmurrar um amigo porque tinha ido para a cama com a sua mulher e, hoje, em pouco mais de meia-hora, Angie, a dona do espaço, conseguiu ficar presa no elevador e ter um acidente de carro. Tudo isto perante o olhar pachorrento de Sky, um husky siberiano que se deita debaixo das mesas, contemplando todos estes filmes com o desprezo de quem já sabe o final de cor.

Não acordamos com uma caneca mas sim com boas novas. Allison, a pequena norte-americana que conhecêramos no ferry-boat para o Chipre, também conseguiu um barco para sair da ilha: “Vou voar para Port Said, no Egipto, e  embarcar num cargueiro com destino a Singapura. Vou estar mais de uma semana no mar!”. A rapariga da Carolina do Norte dissera-nos, numa das primeiras conversas, que a sua viagem intercontinental em cargueiros a tinha feito entender que, afinal, o Mundo não era assim tão pequeno e que era preciso suar muito para o conhecer bem. Tinha toda a razão. No entanto, a vida também está feita de pequenas coincidências que nos fazem pensar que o Mundo inteiro é acessível pela força de vontade; tanto nós como ela chegáramos ao Chipre desorientados, sem esperança nem destino e, exactamente no mesmo dia, assegurámos uma forma de continuar a viajar – ela para a Ásia, nós para Israel.

Detenho-me uns instantes em pensar o que move Alisson e todos os que têm um fascínio pelo mar, pela sua grandeza e pelos seus mistérios; viajar num navio de carga implica horas de solidão, de nenhuma companhia e de nenhuma paisagem senão as vagas do mar alto que agitam a imaginação e a ansiedade de voltar a pisar terra firme, sempre com a possibilidade de uma ancoragem forçada que obriga a embarcação a aguardar dias a fio pela sua vez de atracar no porto; acredito que é necessária uma boa dose de sádia loucura e de força interior para fazer este tipo de viagem; nós, animais de terra, habituados a uma mudança constante de caras e de lugares, vimo-nos nas últimas semanas, à imagem dos nossos antepassados descobridores, debruçados no mar interminável pois as placas tectónicas tinham-nos encurralado a Leste, não nos deixando nenhuma saída para além do mar. Esperáva-nos uma breve viagem de 12 horas mas, e se a viagem se prolongasse para o Japão ou para a Rússia, teríamos nós estofo para aguentar o murmúrio suporífero do oceano?

Após mais uma refeição no pequeno fast-food grego que nos habituámos a frequentar (da minha parte, com sucessivas tentativas de overdose de queijo feta), partimos, com a tralha toda, para o porto de Limassol, com o embarque para Haifa marcado para as 15h. Para grande surpresa, não nos controlam as bagagens e entramos pelo porão como ratazanas de porto prontinhas para alastrar a nossa peste revolucionária a outras paragens. Estacionados, um jipe com autocolantes da Nova Zelândia e um enorme camião com um tanque, mostravam que não éramos os únicos passageiros a bordo. O Alios Salamis, um barco roll-on/roll-off (ro-ro para os amigos, pela facilidade que oferece aos veículos de entrarem e saírem rapidamente da embarcação), tem 178 metros de comprimento e quase 30 de altura, mas só está autorizado a transportar 12 passageiros, os drivers dos camiões. Recebemos a informação de que somos apenas seis e que nós somos os únicos sem carro. Cada um de nós pagou 200 euros para embarcar, o dobro do custo do bilhete de avião, mas estávamos felizes por termos permanecido fieís às regras do nosso projecto, mesmo que isso implicasse uns dias de ainda maior razia orçamental. Estava ansioso por conhecer os demais passageiros. Teriam certamente boas histórias para contar.

Quando entro em qualquer navio, sinto imediatamente um apelo para subir ao ponto mais alto; assim o fiz, sentando-me no piso da cabine de controlo, enquanto aguardava pelas 18h, a hora de nos pormos a deslizar pelo Mediterrâneo. Cai a tarde e o sopro do mar salpica-me com algumas gotas, frias e salgadas.

Fotografia João Henriques ( Tiago Carrasco )

Observo maravilhado o que se passa no entorno; uma tela azul suave estende-se a Oriente, sarapintada pela espuma de ondas picadas e pelas silhuetas dos barcos distantes, do outro lado, a ilha, com as curvas das suas belas montanhas, adornadas com ramos de oliveiras e limoeiros, de um charme e de uma beleza que só Afrodite, a deusa que os cipriotas consideram sua, podia criar; aos meus pés, o frenesim portuário, um mundo metálico e alienígena habitado por seres estranhos. Os homens não se vêem, pois estão dentro das cabinas de veículos bizarros que se assemelham a insectos futuristas; há uns aracnídeos amarelos de patas gigantescas, com oito rodas, que transportam uma paleta de contentores de todas as cores do arco-íris e umas formiguinhas atómicas que levam de um lado para o outro as migalhas de carga. É um universo grotesto e robotizado; creio que assim tem de ser porque para enfrentar o mar há-que mostrar poder, pujança, cerrar-lhe dentes de aço.

Com o cair da noite, junto-me ao Fontes e ao Johnny na sala de refeições, com um prato de borrego com batatas assadas e uma lata de cerveja. Recemos a companhia de Richard e Jo, que são os donos do Land Rover que víramos estacionado no porão com o autocolante da Nova Zelândia. “Somos neo-zelandeses mas vivemos em Londres”, diz Richard, um tipo alto e corpulento como Jonah Lomu, o ícone do râguebi dos all-blacks. “Estamos a fazer uma viagem de Londres até Cape Town, pela África Oriental”. Os nossos olhos começaram a brilhar. Veio-nos impulsivamente à memória a viagem que fizéramos juntos em 2010, de Lisboa a Joanesburgo, pela costa oposta de África. Tal como nós, Richard e Jo modificaram a rota prevista devido ao conflito na Síria. Queriam agora chegar a Israel para alcançarem a Jordânia, estacionarem aí o jipe, apanharem um avião até ao Cairo para fazer outro passaporte que lhes permita entrar no Sudão sem mostrar os carimbos israelitas e prosseguir depois pelo Egipto, Sudão, Etiópia, Quénia, Tanzânia, Malawi e Moçambique, chegando depois à fascinante Cidade do Cabo. As suas aventuras podem ser acompanhadas em www.kiwisinafrica.com. Ainda bem que não éramos os únicos viajantes loucos no Alios.

Fazemos umas partidas de setas na sala de estar, com uns arremessos desastrados provocados pelo sacudir do navio no confronto com as ondas. Lá fora, no convés, um francês de cabelo comprido trepa ao topo de um camião-tanque para enfiar uns tubos por um género de escotilhas. Chama-se Claude e rapidamente ficamos a perceber que está a medir a temperatura da água dentro do tanque: “Levo aí dentro 300 mil douradas vivas para aquacultura em Israel”, diz. “Embarquei há três dias na Grécia e tenho de estar sempre atento, senão os peixes podem morrer”. Claude faz este tipo de transporte para uma empresa de Provença, em França, conduzindo e monitorizando camiões-tanque para a Tunísia, Grécia, Israel e mais uns quantos países. De hora a hora, era vê-lo subir ao tanque e enfiar nas escotilhas aquela mangueira, uma a uma, e ainda eram umas sete ou oito tampas.

Sigo escadaria acima para a torre de controlo e encontro o segundo capitão Elian, sentado diante dos radares. Peço-lhe para entrar. Elián reside no Chipre mas é grego, e passamos os primeiros minutos de conversa a debater o problema da crise económica europeia; apercebi-me de duas coisas: primeiro, de que já não falava neste tema há muito tempo e não tinha muitas saudades, segundo, que Portugal está na peugada da Grécia, caíndo nas mesmas armadilhas e engodos, como se os helénicos fossem a nossa lebre numa decadente corrida para o abismo. “Venderam a companhia de electricidade aos chineses? Nós também! Têm um imposto ilegal incluído na factura da electricidade? Nós também? O desemprego duplicou? O nosso também! Os salários desceram para quase metade? Os nossos ainda não, mas lá chegarão. E a maioria dos gregos acredita que isto tudo é uma enorme cilada montada pela União Europeia? Pois, acho que nós vamos questionar isso quando nos virmos tão entalados como vocês”, respondo, angustiado.

Fotografia João Henriques ( Torre de controlo )

Elian vira-se para o radar luminoso. A cabina está escura, só as luzes verdes e vermelhas dos aparelhos iluminam a cara do marinheiro. “A partir daqui, controlamos tudo. A velocidade, a rota, o tempo de chegada, a presença dos outros navios. Vês aqui? Temos o nome, a nacionalidade, o tamanho e toda a informação destes três navios que estão à nossa volta”, explica. Depois aponta para um deles, um cargueiro ucraniano: “Vês? Este está na nossa rota mas só o vamos alcançar numa dezena de milhas. O problema é que é ucraniano. São os piores. Quando comunicamos para se desviarem, nunca atendem, estão sempre bêbedos de vodca”.

O barco é capitaneado por Kostas, também grego, que quando soube que o Johnny era português lhe disse: “Fiz a ponte marítima de Lisboa para Luanda em 1974, quando Portugal fez a revolução e Angola se tornou independente. Nessa época, Portugal era number one. Grandes tempos!”. Quando o encontro, puxo pelo assunto: “Estava a bordo de um cargueiro grego. Durante o dia, carregávamos as mercadorias. As pessoas não estavam autorizadas a levar nada com elas. Perderam tudo! À noite, enchíamos o barco de passageiros, às centenas. Iam tão tristes e desesperados”. Pergunto-lhe porque diz que passou grandes tempos no meio de uma situação tão dramática. “Porque acho que os portugueses são o melhor povo do Mundo. Esta gente ia só com a roupa que tinha no corpo, mas quando chegávamos convidavam-me para as suas casas, davam o que tinham e o que não tinham”.

Fotografia João Henriques ( Claude )

O Alios rompia madrugada adentro e só as investidas de Claude no tanque das douradas perturbavam a pacatez a bordo. Agarrado às amuradas, para não deixar que o vento me atirasse na noite espessa, aprecio aquele tecto de Planetário cheio de enigmas cósmicos. Desço depois até à sala de estar, onde alguns membros da tripulação, constituída por indianos, bandladeshianos e egípcios, bebem o último chá. Ponho-me a falar com Salim, um técnico de máquinas egípcio, sobre a nova vida no Egipto depois de Mobarak: “Não posso dizer muito, porque só estou em casa uma vez por ano. Já estive nas Filipinas, Rússia, Canadá, Brasil…Passo 11 meses por ano no mar”. E não é difícil? “Não, é só mais um trabalho como outro qualquer”, responde-me, com a maior naturalidade.

Entro na cabina, que tem melhores condições do que a maioria dos sítios onde costumamos ficar, e tomo um relaxante duche de água quente, enquanto penso que até a tal loucura que é necessária para uma vida no mar, se transforma em resignação quando dele se faz vida.

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Ao longo da linha verde – Chipre, de 18 a 21 de Fevereiro de 2012

February 22nd, 2012 by admin

Fotografia João Henriques ( Buffer Zone )

A República do Chipre, que vai presidir à União Europeia em Junho, está dividida em dois desde 1974: um lado grego e um lado turco. Os repórteres da Estrada da Revolução andaram pela linha de separação, a que os cipriotas chamam zona morta: acamparam com activistas, entraram em edifícios abandonados há quase 40 anos e visitaram uma aldeia onde as duas comunidades coabitam em paz.

Fotografia João Henriques

Acordo enrolado no saco-cama, com as costas doridas por uma noite passada em cima das tábuas de uma paleta de madeira. Ao abrir a tenda, entram os primeiros raios de sol e os andaimes de um prédio devoluto, em risco de derrocada, cheio de mensagens pela paz e contra a ocupação militar. Pego no estojo de higiéne, dou meia dúzia de passos ensonados, cruzo-me com duas turistas russas e, num posto de controlo, dois polícias pedem-me o passaporte. Entro na Europa para lavar os dentes e urinar, aperto a braguilha e regresso à tenda, em terra de ninguém; agarro num punhado de tostões e dou meia dúzias de passos mais despertos no sentido oposto, passo por dois imigrantes africanos e uma família asiática, e sou interceptado por um polícia imponente; digo-lhe que vou apenas comprar tabaco mas ele carimba-me no passaporte a entrada na não reconhecida República Turca do Chipre do Norte, peço os cigarros mais baratos, e no regresso perguntam-me se é mesmo só um maço porque é contrabando passar para a Europa cigarros aos molhos; respondo que não vou para a Europa, que vou ficar ali no meio na terra dos fantasmas, e assim faço, sento-me com os pés apoiados num bidão queimado e esburacado, em meu redor há anarquistas que dormem e soldados das Nações Unidas que, atrás das vedações, devem dormir também, pois há pouco para fazer em zona morta, e mesmo os vivos que passam de um lado para o outro não se apercebem que estão a pisar a linha que separa os dois lados daquela que, depois de Berlim, se tornou na última capital europeia dividida por um muro: Nicósia. E aquele era o checkpoint Charlie, o mais importante, bem no meio da principal artéria da cidade, a Rua Ledra, – uma passagem para o absurdo – que deixava no Norte os cipriotas turcos, com a língua de Atatürk, as suas liras e os seus kebabs, e no Sul os cipriotas gregos, com o idioma de Afrodite, os seus euros e as suas pitas.

Fotografia João Henriques

A 15 de Outubro de 2011, dezenas de activistas de ambos os lados do Chipre decidiram ocupar esta área da buffer zone, um tampão de segurança entre a República do Chipre e a República Turca do Chipre do Norte, um corredor com cerca de setenta metros de extensão que é controlado pela UNFICYP – a missão das Nações Unidas no Chipre – criada em 1964 para prevenir os combates entre gregos e turcos na ilha. Montaram uma “acampada”, com as tendas encostadas às vedações de chapa e arame farpado que escondem dos visitantes a presença dos capacetes azuis e rabiscaram as paredes dos edifícios desabitados com desenhos coloridos e mensagens como: “Um só Chipre, deixem-se de tretas”, “bem-vindos à dividida República do Chipre”, “os muros são imaginários” e “somos todos cipriotas”. Ocuparam ainda um dos edifícios desabitados desde 1974, data da operação Átila, a invasão do Chipre pelo exército turco, que resultou numa guerra fraticida e na anexação de 37% do território cipriota pelos soldados de Ankara. Transformaram-no num consultório de esclarecimento, com salão de festas, cozinha e uma biblioteca. Puxo da prateleira o livro Echoes from Dead Zone, de Yiannis Papadakis: “Só os escrementos nos esgotos de Nicósia têm liberdade de movimento”, diz, na introdução. Agora, também há liberdade de movimento na Linha Verde (assim é conhecida a fronteira entre os dois Chipres, por ter sido traçada no mapa a lápis verde pelo Major-General Peter Young, das Nações Unidas). Os activistas bebem latas de cerveja, grelham peixe e vegetais no meio da rua e fumam marijuana a poucas dezenas de metros dos postos de controlo fronteiriços e dos postos de patrulha das Nações Unidas. Na parede, pode ler-se: “Sim, nós, gregos e turcos, fazemos amor na buffer zone”. O muro de Nicósia tornara-se no mais desavergonhado dos muros da vergonha do Mundo. E bastou deixar cair o pudor para se encontrar a paz. Só ali, na terra de ninguém.

Fotografia João Henriques

Contudo, no resto da ilha continua a ser muito difícil apagar os rancores da história recente. Antes de se tornar independente, em 1960, o Chipre foi uma colónia britânica durante 88 anos. A partir dos anos 30, muitos cipriotas gregos, à época 80% da população, começaram a revoltar-se contra a soberania britânica e a exigir a enosis, ou seja, a junção da ilha à sua pátria-mãe, a Grécia. Para controlar a sublevação, a coroa britânica recrutou membros da minoria turca (19% da população) para as suas forças de segurança, contribuindo assim para o incrementar das tensões e do conflito entre as duas etnias. Assim, nos anos 50, surgiram no território cipriota grupos paramilitares armados; do lado grego, o EOKA, formado por cipriotas gregos radicais e milicianos gregos apologistas da enosis, do lado turco, o TMT, a organização de resistência turca, formada por cipriotas turcos antagónicos à ideia de um Chipre grego e apoiados pela Turquia, que combatia pela implementação da taksim, a divisão da ilha em duas Federações, estando uma delas reservada à minoria turca.

“A independência foi decretada numa altura em que o Chipre não estava preparado para tê-la”, diz  Faika Deniz Pasha, 24 anos, uma advogada e activista cipriota turca. “Nem ninguém a tinha pedido. Na verdade, as pessoas só estavam a pedir a união à sua terra-mãe e os que verdadeiramente pediam a independência eram perseguidos e assassinados”. De facto, os problemas não tardaram a aparecer. Em 1963, o presidente Makarius, um arcebispo de origem grega, que governava a ilha em parceria com um vice-presidente turco, ambos com direito de veto, propôs 13 emendas à Constituição que retiravam poderes aos turcos. Consequentemente, estes rejeitaram-nas e retiraram-se do Governo. Nesse mesmo ano, os confrontos entre as duas facções mais radicais resultaram em 364 mortos do lado turco, 134 do lado grego e no desalojamento de 20 mil cipriotas turcos. Aqui surge a primeira de muitas discórdias: os gregos alegam que os turcos se retiraram do Governo por sua própria vontade, estes dizem que foram obrigados a sair. Os britânicos, que tinham assegurado na Constituição de 1960 dois protectorados permanentes no Chipre, 2,5% do território da ilha, encabeçaram as negociações para a resolução da disputa. Em 64, Nicósia foi dividida pela primeira vez pelo lápis verde do oficial Peter Young. A divisão estava em marcha.

Fotografia João Henriques

Nos anos seguintes, a febre nacionalista não parou de aumentar, com embates constantes entre os dois grupos. A Turquia, alegando que o seu povo estava a ser discriminado, desapossado das suas terras e remetido para enclaves, decidiu unilateralmente encetar a Operação Átila, apresentada inicialmente como uma operação pacífica na defesa da população turca após um golpe de Estado que derrubou Macarius, mas que acabou por ser uma invasão do território, anexando o norte da ilha em 37% da sua área. “Não posso negar que, nessa altura, os nossos avós ficaram contentes com a invasão porque estavam a viver em ghettos”, diz Faika, que nasceu do lado norte de Nicósia. “Mas não perceberam quais as consequências do acto”. Hoje percebe-se. A invasão turca provocou a morte de mais de 4000 gregos e 1000 turcos, mais de 2000 desapareceram, 180 mil gregos tiveram de escapar das suas terras e refugiar-se no sul do país, a que se somam mais umas dezenas de milhar de cipriotas turcos que fizeram o caminho contrário. 33% dos cipriotas tornaram-se refugiados, impedidos de voltar a casa por uma linha verde de 180 quilómetros que separava as etnias. Até 2003, ano em que abriu o primeiro checkpoint, nenhum cipriota estava autorizado a passar da barreira. “Há relatos de crianças que, da primeira vez que passaram, disseram: ‘Mãe, afinal eles não são monstros”, diz Faika. “Eu própria pensava que os gregos tinham a pele mais clara do Mundo. Quando os vi, percebi que eram iguais a nós”.

Fotografia João Henriques ( Faika Denish Pasha, esquerda, e Mine Kanol, direita, )

Afinal, de quem é a culpa da divisão? “Obtêm-se respostas diferentes, dependendo a quem se faz a pergunta”, responde Mine Kanol, 24 anos, colega de Faika no YKP, um partido radical de esquerda pela reunificação do Chipre e numa associação feminista, a YKP-Fem. “Se perguntarem a cipriotas de esquerda, vão responder-lhes que a culpa é dos ingleses, que em prol dos seus objectivos colocaram gregos e turcos em confronto. Os gregos, não necessariamente os mais nacionalistas, vão dizer-vos invariavelmente que a culpa é dos turcos, que invadiram ilegalmente a ilha para tomarem controlo dela. Os nacionalistas turcos, responderão que a culpa é dos gregos porque em 1963 expulsaram os turcos do Governo com o propósito de se juntarem à Grécia”. Faika complementa: “Na verdade, a culpa foi do Mundo inteiro”. A 15 de Novembro de 1983, Faika e Mine, assim como outros 294 mil cipriotas turcos, tornaram-se cidadãos da República Turca do Chipre do Norte, em consequência de uma declaração unilateral não reconhecida por nenhum país à excepção da Turquia. “Agora temos um passaporte do Chipre do Norte, que não vale para nada, um turco e, desde 2003, um da República do Chipre que nos permite cruzar para o Sul. Enfim, temos três passaportes mas nenhum deles é o nosso”, diz Mine. As duas raparigas fazem parte da nova geração de cipriotas turcos, que, na maioria, se sente mais ligada aos cipriotas do outro lado da barricada do que aos colonos turcos que, desde 1974, têm povoado gradualmente a zona setentrional da ilha: “Já são três ou quatro vezes mais que nós”, diz Faika.

Fotografia João Henriques ( Manifestação organizada pelos activistas da buffer-zone )

Na buffer zone, cerca de cinquenta activistas e três cães por eles politizados concentram-se para uma manifestação pela reunificação do país. Erguem cartazes por um Chipre sem fronteiras e marcham no lado sul da Rua Ledra, perante o olhar curioso de clientes do Starbucks e do Macdonald’s. No final da rua, que desemboca numa pequena praça, cruzam-se com outros manifestantes – cipriotas gregos que expressam a sua solidariedade para com o arrasador momento económico dos seus irmãos de Atenas.

Fotografia João Henriques

 

Fotografia João Henriques

Alguns deles, insurgem-se numa postura de contra-manifestação. Trepam para uns bancos de pedra e confrontam os activistas com os cartazes de solidariedade: “Somos todos gregos”, dizem. Um deles, arranca das costas de um miúdo uma bandeira da Grécia e esfrega-a na cara de uma das activistas pela reunificação. “A invasão foi há muito tempo, mas é um crime que não prescreve. O Chipre foi violado, muitas pessoas morreram e somos refugiados. Exigimos que libertem o nosso país. O meu problema não é contra os cipriotas turcos, pois vivíamos juntos em paz antes da ocupação, mas sim contra o imperialismo turco que quer ocupar todo o Chipre”, diz Demetra Papaleoytiou, uma das defensoras da causa grega.

Fotografia João Henriques ( Michalis Eleftheriou)

“Já viram tantas bandeiras gregas juntas?”, pergunta-nos Michalis Eleftheriou, 26 anos, cipriota grego integrante da manifestação pela reunificação. “Quando fui à Grécia disse aos meus amigos que lá não havia bandeiras porque estavam todas no Chipre”. Olhando para o céu de Nicósia, saltam à vista os esvoaçantes trapos vermelhos e azuis das bandeiras da Turquia e da Grécia. “Vivemos com este absurdo do nacionalismo estrangeiro, onde toda a gente respeita a Turquia e a Grécia como nações soberanas”. Michalis nasceu em Londres e viveu a infância em Nicósia, onde voltou agora após 19 anos a viver na diáspora, maioritariamente em Buenos Aires. Nasceu para ser revolucionário e tudo na sua imagem reflecte esse carácter – a passada insolente, o cabelo desgrenhado, o punho em riste. Naquela manhã, já tinha sido detido por estar a fotografar uma esquadra da polícia. Em Janeiro de 2011, estava na Praça Tahrir, no Cairo, celebrando a queda de Mobarak, agora, está no Chipre para lutar pela reunificação, a quatro meses da República do Chipre assumir a presidência da Comissão Europeia: “Pode ser que sirva para a Europa finalmente olhar para esta ilha e perceber o imenso absurdo em que nós vivemos”, diz o activista. “Temos euros, BMW’s e Mercedes, lojas finas e toda a gente está, desde que entramos para a União Europeia em 2002, virada para o Ocidente. Mas o Chipre é, na verdade, uma base militar flutuante do Médio Oriente”. O Chipre tem dentro das suas fronteiras seis exércitos de diferentes bandeiras e, na semana passada, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu anunciou um acordo com os governantes cipriotas para a instalação de uma base militar perto de Pafos, no sul da ilha, com vista a regular e vigiar a exploração das reservas de gás encontradas recentemente nas profundezas das águas mediterrâneas que separam o Chipre de Israel. A pequena ilha prepara-se para ter um exército de sete nações (República do Chipre, Inglaterra, Turquia, ONU, República do Chipre do Norte, Estados Unidos e, agora, Israel). “Queremos transmitir que a divisão do Chipre não resultou de um movimento espontâneo de ódio entre cipriotas gregos e turcos, mas como resultado de um sistema global que é doente. Isto só serviu para criar bases militares estrangeiras neste país. A Inglaterra, num livro em que explica porque ainda detém partes deste território, diz que ‘o Chipre é uma inacreditável plataforma flutuante aos pés do Levante’. E isto diz tudo”.

Fotografia João Henriques

A marcha caminha paralelamente ao muro da discórdia, protegida com rolos de arme farpado e por postos de controlo das tropas das UN. Por fim, culmina num ponto em que a parede se agiganta a uns dez metros de altura, com uma grade de arame no topo; do outro lado, estão mais algumas dezenas de manifestantes do lado turco, agitando bandeiras azuis e amarelas com o mapa do Chipre uno e indivisível, separados da rede por um cordão policial; Mine e outros elementos da sua organização estão disfarçadas de palhaços, furando com sorrisos a barricada policial e acenando alegremente para os seus compatriotas gregos.

Fotografia João Henriques

Os dois grupos encontram-se a meia dúzia de metros mas não se podem tocar – o checkpoint mais próximo encontra-se a quase um quilómetro. Estamos perante a iconologia perfeita de um mundo sem sentido. “Queremos estar juntos”, grita-se do lado grego. “Só há uma solução: a revolução”, entoam os turcos. “Como podem ver, este muro é uma ilusão porque separa uma cidade que quer estar junta”, diz Eddie, um dos dinamizadores da “acampada” na linha verde. “E só não somos mais porque a educação que nos dão nas escolas explica o conflito de forma a não entendermos e a odiarmos o Outro”.

Fotografia João Henriques ( Michalis puxa o arame farpado )

 

Fotografia João Henriques

 

Fotografia João Henriques

 

Fotografia João Henriques

Michalis separa-se do grupo e abana os rolos de arame farpado na base da parede. O mesmo polícia que o tinha prendido de manhã empurra-o e ordena a retirada do protesto.

Fotografia João Henriques

“Vemo-nos brevemente”, grita o grego. “Até já”, grita Mine. Depois de mais uma acção conturbada diante da Embaixada grega, os dois grupos reunem-se no checkpoint da Rua Ledra. Um turista pergunta a Michalis se está a entrar na Turquia: “Não, aquilo ainda é o Chipre, mas falam turco”, responde-lhe. Depois mostra-me por uma frecha da vedação as ruas entaladas entre as paredes de Nicósia – a zona morta. Percebe-se que é rua de edifícios abandonados, uma cidade-fantasma, onde só habitam as almas dos mortos: “Esta é a ferida aberta no conflito do Chipre. Vês, vivemos na mais absurdas das sociedades como se fosse a mais natural”.

Mine e Faika dão-nos boleia até Famagusta, uma cidade situada junto à linha verde, do lado nordeste. Entregam-nos ao cuidado de Enver Timur, outro dos ocupantes do checkpoint de Nicósia, a estudar em Famagusta. Timur, filho de pai turco e mãe iraniana refugiada do sul da ilha, dirige a juventude do partido social-democrata do Norte do Chipre, de ideologia de centro-esquerda. O rapaz, de 27 anos, piercing na sobrancelha e gorro magenta na cabeça, prepara-se afincadamente para uma entrevista em directo na televisão estatal da República do Chipre do Norte; estuda como cruzar as pernas, como movimentar os braços e colocar a voz. Há poucas horas, Timur era um “ocupa”, amanhã será político.

“Eles vão querer entalar-me porque o meu partido defende uma República do Chipre federalista, com uma Federação governada por gregos e outra pelos turcos. Eu era dessa opinião, mas desiludi-me com a política e penso agora que a única solução é a reunificação total e que o federalismo só pode ser um passo para esse objectivo final”, diz Timur. Ensaio-lhe umas perguntas de teste e ele passa com notoriedade, separando com uma argumentação pró-pluralismo as suas ideias pessoais das do partido. Depois de nos ceder a sua cama e pernoitar no chão, faz a barba, veste um casaco de bombazine e uns ténis desportivos e mete-se a caminho dos estúdios em Nicósia.

Aproveitamos para visitar a Universidade de Famagusta, a mais prestigiada a norte. É frequentada por cipriotas de várias pontos da região e por turcos, filhos de colonos recentes ou estudantes oriundos de Antakya, Mersin ou Antalya. “Há uma cafetaria para cipriotas, que é esta onde estamos, e outra para os turcos, lá do outro lado. Não os deixamos entrar aqui”, diz Tolga Tinyaki, estudante de língua inglesa. Tolga tem pinta de britânico, olhos claros e barba rala e loura; fala apaixonadamente sobre política, é de esquerda, defende a reunificação, mas da sua camisola vermelha sobressaem letras de desapontamento: “No Hope” (Sem Esperança). “O meu avô foi obrigado a matar um miúdo grego de 12 anos na guerra de 1974, enlouqueceu e morreu. Essa geração está toda muito contaminada pela guerra e não confia no inimigo. Mas nós, sentimo-nos muito mais próximos de um cipriota do outro lado do que de um turco que chega aqui para ficar com as nossas terras e os nossos empregos. Normalmente, são fascistas que querem ‘turcanizar’ os cipriotas”, diz. “O problema é que nós abdicamos de produzir e recebemos dinheiro de Ankara. Perdemos toda a nossa soberania. Vivemos num país governado a partir do estrangeiro”.
Ainda em Nicósia, Mine e Faika tinham-nos explicado o movimento de colonização turca; logo em 1974, a Turquia realizou um primeiro acto de colonização, transportando aldeias inteiras de regiões remotas do país para o Chipre, mudou o nome das povoações para a nomenclatura turca e deu-lhes cidadania cipriota. Mais tarde, houve um segundo momento de colonização, formado por membros de famílias nacionalistas, destacados para doutrinar os cipriotas. De há dez anos para cá, tem vindo a acontecer uma migração económica, em que os turcos mais desfavorecidos recebem benefícios fiscais e propriedades para se deslocarem para a República Turca do Chipre do Norte. A isto acrescenta-se a presença de 40 mil soldados turcos e de todas as empresas multinaionais com sede em Istambul. “Nós votamos para o governo local, mas quem nos governa é Erdogan (primeiro-ministro turco)”, diz Tolga. “Quando ele visitou Nicósia, fizemos uma manifestação e, pela primeira vez, a resposta policial foi violenta. Erdogan disse que não podíamos protestar contra quem nos dá o que comer”, dissera-nos Mine, ainda em Nicósia.

Para perceber a animosidade entre os cipriotas, rumamos a Limassol, na ponta sudeste da ilha. É uma cidade cheia de restaurantes, bares e animação nocturna, que nesta altura do ano se mascara para festejar o Carnaval. É também a detentora de um dos maiores portos do Mar Mediterrâneo. No quartel-general do porto internacional, somos recebidos pelo Capitão George Pitsyakos, um dos administradores. Pretendíamos obter três bilhetes de barco que nos levassem até Israel, mas nesta época invernal estávamos com bastantes dificuldades em consegui-lo porque o tráfico marítimo é muito mais limitado. Inicialmente, George mostrou-se prestável, disse inclusive que conhecia uma companhia que fazia essa ligação. Ao telefone, perguntaram-lhe por onde tínhamos entrado: “Pelo norte, a partir da Turquia”, respondemos. George desliga e muda de cara, apresentando uma expressão de incómodo. “Então, não vos posso ajudar. Vocês estão ilegais e têm de falar com o vosso Embaixador. Neste momento, não podem sair de Chipre nem de avião, quanto mais de barco”. Europeus ilegais em solo da União Europeia? Não, claro que não. A unica ilegalidade que cometêramos fora tocar na sensibilidade do Capitão em relação ao conflito que há quarenta anos abala o seu país.

Fotografia João Henriques ( Aldeia de Pyla )

Contudo, há uma aldeia que resiste irredutível à separação do Chipre: chama-se Pyla (ou Pile, para os turcos) e fica mesmo em cima da linha verde, no distrito de Larnaca. É a única povoação cipriota onde turcos e gregos coexistem e sempre coexistiram pacificamente. Para lá chegar, saimos de Famagusta e viajamos sempre encostados à linha omnipresente, passando por postos de vigia turcos e gregos, muitas bandeiras, grades, muros e vedações, terras de ninguém, terras inglesas no protectorado de Dhekelya, até chegarmos a Pyla, terra de toda a gente.

Fotografia João Henriques ( Aldeia de Pyla )

A aldeia, habitada por 850 cipriotas gregos e 487 cipriotas turcos, está sentada numa planície virada para o mar, orientada por duas pequenas colinas; uma delas, ocupada pelo exército turco, a outra pelos capacetes azuis das Nações Unidas. São as tropas estrangeiras, por esta ser parte da buffer zone, que asseguram a paz na aldeia. Na praça principal, percebemos imediatamente porque é que Pyla é um caso de convivência único no Mundo: há dois cafés, um turco e um grego, com preçários em duas moedas, liras turcas e euros, duas Câmaras Municipais, uma turca e uma grega, duas empresas de telecomunicações, uma com rede turca e outra com rede grega, nomes escritos em duas línguas, grego e turco. Mais abaixo, há três igrejas e uma mesquita e duas escolas, uma para cada uma das comunidades, com um capo de futebol no meio. “Os miúdos nem jogam juntos porque não falam a mesma língua”, diz Mehmet Imam, um amigo de Timur que nos acompanhara desde Famagusta. No meio de tudo isto, o posto das Naçõs Unidas, com uns binóculos enormes apontados para a colina turca.

Fotografia João Henriques ( Ahmet Sakalli )

“Eu era o comandante da aldeia quando a guerra rebentou em 1974. Reuni-me com o líder grego e acordámos um pacto de não agressão”, diz Ahmet Sakalli, 75 anos, ex-presidente da Câmara turca, posição que abandonou em 2006. “Foi o melhor que fizemos porque não tivemos mortos e porque mantivemos a paz até hoje. Mas tudo isto é muito volátil. Basta uma quezília entre turcos e gregos no Chipre, ou mesmo entre a Grécia e a Turquia, para a ameaça de guerra voltar a pairar sobre Pyla”.

Perguntamos a Ahmet o que pensa dos colonos turcos. Ele responde, sem hesitar: “Sinto-me muito mais identificado com eles do que com um cipriota grego. É difícil confiar neles. Todos os dias rezo pela alma daqueles que sofreram com os ataques dos gregos em 1963. Vivemos tempos que não desejo a ninguém”.

Fotografia João Henriques ( Simon Mytides )

No café grego, dezenas de velhotes passam a tarde a jogar às cartas. Nas paredes, há cartazes de heróis helénicos, actores, guerreiros e clérigos, um poster da selecção grega campeã da Europa em Portugal e um mapa da mãe-pátria. Muitos dos homens continuam a defender a enosis, a união do Chipre à Grécia. Não é o caso de Simon Mytides, Presidente da Câmara da comunidade grega. Ele acredita na possibilidade de um Chipre unido a dois povos, à imagem de Pyla: “A enosis só nos prejudicou porque criou uma ideologia radical com que muitos se identificaram. Mas a nossa batalha é outra. Queremos mostrar ao Chipre que o país pode funcionar como esta aldeia”. Contudo, há problemas de melindrosa resolução: “O pior é a propriedade. Estes turcos que chegam ao Chipre são ilegais e estão a apropriar-se das terras de mais de 180 mil refugiados gregos. Como resolver isso? Há alguns turcos que chegaram agora, mas outros estão no Chipre há quarenta anos. Para onde os deportar? É complicado e vai levar algum tempo…”.

Fotografia João Henriques ( Festa na buffer zone)

De regresso à tenda na Rua Ledra, a nossa casa em terra sem lei, somos recebidos por uma festa organizada pelos activistas. É assim todos os sábados: música, cerveja, discussões políticas em redor do bidão em chamas e conversas com os visitantes que vão passando de um Chipre para o outro. De repente, Mikail, um polaco que anda há dez anos à boleia do Mundo, convida-me para trepar os andaimes e ocupar um dos prédios da zona morta: “Tens de ir. É o Paraíso”. Subimos ao segundo andar onde, numa sala nua e cimentada, Timur estava a fumar erva. Uma lanterna apontada para o tecto agigantava as sombras e assombrava os gestos. Penetramos pelos corredores da casa abandonada, pé ante pé, sem acusar a nossa presença, pois os soldados das Nações Unidas estão autorizados a disparar sobre quem invadir a zona de segurança. As portadas das janelas estão caídas, deram lugar a sacas de  areia que serviram de escudos aos soldados na guerra. Espreito por cima de um monte delas; estou justamente sobre o posto de controlo de entrada na União Europeia, ninguém me vê, nem os polícias nem sequer os activistas que continuam a entoar canções revolucionárias à volta da fogueira. Atravesso na escuridão a sala até chegar à janela do lado oposto – está tudo derrubado e destruído como se uma granada tivesse acabado de explodir ou se estivesse numa daquelas aldeias montadas de propósito para jogar paintball. Mas ali os tiros tinham sido a sério, ainda havia feridas de balas nas paredes. Debruço-me sorreitaramente à janela e vejo uma paisagem desoladora: uma rua abandonada e esquecida, que definha lentamente ao passar de cada segundo. É a zona morta, uma das ruas evacuadas em 1974, escondida de todos por muros e vedações. Mikail sussurra-me ao ouvido: “Percebes porque chamo Paraíso a este prédio? É o único lugar de onde podes olhar de cima para o Inferno”.

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No último segundo – Limassol, Chipre, 16 e 17 de Fevereiro de 2012

February 22nd, 2012 by admin

Fotografia João Henriques ( Bilhetes de barco Limassol - Haifa )

Pela manhã, esperneámos. Esperneámos como coelhos prestes a levar a última pancada na nuca. Eu e o Fontes deixamos o Johnny, engripado, no quarto e corremos até à Embaixada do Líbano em Nicósia. Depois, desdobrámo-nos em telefonemas para os nossos contactos em Beirute. Nada feito. Havia apenas uma pequena esperança: na sexta-feira, dia 17, um barco com bandeira liberiana chamado Cap Hamilton saía do porto de Limassol, no sul do Chipre, com coordenadas apontada a Beirute. No Líbano, um amigo que conhecêramos em Kinshasa, F. Ribeiro, tentava convencer a agência marítima a dar-nos uma boleia. Mas um obstáculo adivinhava-se quase impossível de contrariar: a tal agência, a HBS, até estava disposta a colaborar mas tivera uma primeira resposta negativa das autoridades portuárias libanesas. Quando pensava até onde é que a nossa persistência já tinha chegado – à polícia marítima libanesa – ficava um pouco mais tranquilo porque sentia que pouco mais podia ser tentado.

Mesmo assim, pegamos na trouxa e apanhamos um autocarro que nos leva, por pouco mais de setenta quilómetros, de Nicósia até Limassol. A cidade é banhada por praias estreitas de areia cinzenta e um mar calmo e convidativo, mesmo em dias de frio e vento como este. Ao largo, sombras de petroleiros, cargueiros e de um barco estranho que se assemelha a um galeão. Chegamos ao porto novo, um recinto enorme cheio dos habituais paralelepípedos de armazenamento e de gruas possantes. “Vai ser tão difícil entrar no Cap Hamilton”, diz o Johnny. Concordamos. Mas, chegados até aqui, tínhamos de queimar o último cartucho.

Nessa noite, recebemos mais uma notícia desmoralizadora de Ribeiro, em Beirute: a HBS tinha desistido da tentativa de nos transportar, pois as autoridades do Líbano tinham-se mostrado irredutíveis. Ainda fazemos um telefonema para o nosso contacto militar, um português no Líbano: “Pá, isto de entrar por barco no Líbano é impossível. Os gajos estão a bloquear a entrada marítima por causa das milícias líbias que entram pelos portos. Nenhum estrangeiro está autorizado a fazê-lo”. E ainda há os barcos israelitas a vigiar a costa contra a chegada de ajuda a Gaza, os navios cipriotas que controlam as recém-descobertas reservas de gás natural, os navios iranianos que ainda hoje entraram no Mediterrãneo para cerrar os dentes a Israel. Digamos que não são as melhores águas para pedir boleia. É como esticar o dedo numa estrada de Mogadishu. “Se conseguisse chegar aos portos antes deles, pá, mas nos portos não consigo. No aeroporto, dá, no porto não. Eles depois metem-vos na cadeia e eu aí posso ir buscar-vos, mas entretanto já comeram muita porrada”, diz. “E olhem lá, vocês safaram-se na Síria mas não pensem que aqui é pêra doce. Se quiserem apanhar outro susto, meto-vos no Norte do Líbano, em Tripoli, onde também já andam aos tiros. Isto aqui é tramado, pá!”. Sentiamo-nos num beco sem saída.

Procuramos abstrairmo-nos num restaurante de fast-food perto do hotel, um lugar que por coincidência abrira hoje. O empregado, Maxx, é romeno e tinha um interessante percurso de vida: fugira das montanhas da Transilvãnia com 18 anos para ir trabalhar como bartender em Ibiza – “uma loucura, dei em todos os tipos de droga e por isso faltam-me alguns dentes, man”. Depois, fartou-se e foi servir à mesa para o Dubai – “man, aí tinha de ir com um papel à polícia de cada vez que queria comprar uma cerveja”. No Chipre, desde 2010, já fez um pouco de tudo – trabalhou em discotecas no Verão, em restaurantes no Inverno e a vender uns gramas de erva para sustentar o ano. “Quando aqui cheguei era um dos únicos romenos. Agora este bairro aqui em frente está cheio deles”, diz Maxx. Pergunto-lhe se aqui os romenos também se sentem discriminados por serem rotulados de mendigos e pedintes. Maxx diz-me que nasceu na pronvíncia com mais ciganos da Roménia, onde reside o chefe do clã dos roma: “Claro, man. Nós somos os latinos sujos. Dizem que somos todos iguais, que somos todos ciganos. Olha para mim, man? Achas que sou ladrão pedinte, chulo ou um traficante perigoso?”. Não. Maxx tinha escrita no rosto uma enciclopédia da vida, mas via-se perfeitamente que era bom rapaz. Tal como Lauri, o rapaz da loja de conveniência do lado, um húngaro que emigrou para a Roménia aos seis anos, e que trabalha no Chipre há dois. Lauri é especialista na análise da sociedade cipriota: “Estes gajos são preguiçosos mas querem ter todos grandes carros, mesmo quando não têm assim tanto dinheiro. Passam o dia a beber café e a jogar às cartas aí nos cafés, não sei como conseguem. Fartam-se de gastar dinheiro nas casas de apostas desportivas e não bebem álcool durante a semana, mas às sextas e sábados apanham com cada bebedeira”. Houve um cliente que se antecipou e embriagou-se logo hoje, quinta-feira: veio a correr para tirar uma bola que o Johnny tinha nos pés, escorregou na água acumulada dos aguaceiros e estatelou-se ao comprido. Nós, os latinos, não conseguimos conter a gargalhada. Passamos o resto da noite a beber cervejas de um euro e a divertirmo-nos com aqueles romenos tão bem-dispostos. No fim da noite, já quase não me lembrava do Cap Hamilton.

Mas eis que, quando a cerveja evaporou, o maldito cargueiro do país de Charles Taylor me voltou a assaltar a preocupação. Ou apanhávamos o Hamilton, ou tínhamos de seguir de avião – o que implicaria a primeira derrota nos fundamentos d’A Estrada da Revolução. Nove dias de busca depois, hoje era o dia da decisão. Tentarámos tudo: estudámos a possibilidade de voltar à Síria, tentámos apanhar dois cargueiros em Mersin, pedimos boleias a iates em marinas, fizemos largas dezenas de telefonemas, equacionámos viajar pelo Iraque, navegámos para o Chipre, pedimos autorizações especiais a cargueiros e inclusive à Embaixada Portuguesa. O navio liberiano representa a nossa ínfima última oportunidade.

Chegamos ao porto e, tal como em Mersin, a infraestrutura surge-nos tão imensa que nos inibe de fazer alguma coisa. Ao contrário de um aeroporto, o porto internacional dispersa-se por uma área vasta e todo aquele caos de contentores e metal faz qualquer um sentir-se mínimo. E, claro, há o gradeamento, que nos impede de sonhar em nos aproximarmos do Cap Hamilton. Desconsolados, decidimos entrar nos escritórios e pedir para falar com o administrador. Encaminharam-nos para o Capitão George Pitsyakos, um homem de pele cansada de tabaco e uns olhos experientes, de pálpebras semi-cerradas. “É impossível viajarem num cargueiro”, diz. Olhamos uns para os outros, conformados com o desfecho. Pelo menos tínhamos de estar de consciência tranquila e pens…”Mas, pode ser que tenham sorte”, completa, enquanto eu já estava a engolir a derrota. Tento controlar os tiques de ansiedade. “Há uma companhia que está a fazer viagens para Israel e para a Grécia. Querem que lhes ligue? É a Salamis”. Aquele nome não nos era estranho…Exacto! A mesma empresa que recusara o nosso embarque à Embaixada Portuguesa por não terem condições de segurança para transportar passageiros. “Sim, por favor”, respondo.

Do outro lado da linha, o amigo do Capitão George pergunta-nos de onde somos e por onde entrámos. “Somos três jornalistas portugueses e entrámos por Girne, no norte da ilha”. O Capitão desliga o telefone e muda de cara. As pálpebras semi-cerradas escondem agora um olhar de rancor e o sorriso dá lugar a um semblante de indiferença. “Já não vos posso ajudar”, declara. “Vocês têm no passaporte um carimbo turco, estão por isso ilegais no Chipre. Têm de falar com o vosso Embaixador, senão não podem sair daqui para lado nenhum, nem de avião quanto mais de barco”. Europeus ilegais num país da União Europeia? Claro que não. Argumentamos que a lei está do nosso lado e que, caso o carimbo seja um problema, até temos um segundo passaporte com as folhas limpas. George rejeita qualquer ajuda e pede-nos para sair.

E agora? O Cap Hamilton já lá vai mas sabemos que há um empresa que faz ligações até Israel mas que, por embirração, já nos fechou a porta duas vezes; na primeira, mentiram à Embaixada Portuguesa, explicando que a linha não transportava passageiros, ao contrário do que o que confirmaram ao Capitão George, na segunda, disseram ao administrador do porto que com o carimbo turco não podíamos embarcar. Bem, estava visto que os tínhamos de despistar. Concordamos em abordá-los directamente nos escritórios, sem evidenciar que somos os tais jornalistas portugueses que entraram pelo Norte e que há mais de uma semana tentam embarcar para Israel ou para o Líbano.

Após uma discussão acesa com um taxista trafulha, que nos pede 10 euros por nos transportar menos de um quilómetro – leva apenas 3,5 -, o Fontes entra na Salamis Tours e pede-lhe informações sobre o barco para Haifa. Primeiro, dizem-lhe que não existe, mas depois de muita insistência lá lhe dizem que há um na próxima semana. Encaminham-nos para a outra delegação da empresa, a Salamis Shipping, que fica na outra ponta da cidade. Esse sim, seria o templo do juízo final.

O Johnny e o Fontes ficam à minha espera sentados no passeio (não podíamos mostrar-nos os três), entro na empresa, tiro os óculos escuros, tento meter um ar confiante e pergunto: “Há algum barco a sair para Israel que leve passageiros?”. “Sim. É na próxima quarta-feira e pode levar até 12 passageiros. Quantos bilhetes quer?”. Nem pediram os passaportes nem perguntaram por onde tínhamos entrado. E, assim, no último segundo, conseguimos arranjar da forma mais simples a solução para uma causa que parecia perdida. Os quatro dias de espera iam ser passados em trabalho, porque o Chipre tem muita matéria por explorar. Na manhã seguinte, voltaríamos à terra de ninguém.

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Com a casa às costas – Nicósia, Chipre, 15 de Fevereiro de 2012

February 21st, 2012 by admin

Fotografia João Henriques ( João Fontes a dormir no chão do barco )

Dormir por baixo das mesas tem a vantagem de não ser atingido pelos primeiros raios de sol da manhã. Mas não há nada a fazer quanto ao barulho. Os passageiros, petrificados num sono profundo toda a noite, como se a nuvem de cinzas que destruiu Pompeia tivesse caído sobre o ferry-boat, acordam e gritam por chás e cafés revigorantes na cafetaria. Levanto a cabeça do rolo do saco-cama, esgueiro-me por entre pernas de mesas e de pessoas e desejo bom-dia a um grupo de passageiros surprendidos por aquele despertar do subterrâneo.

Fotografia João Henriques

 

Fotografia João Henriques

Subo até ao terceiro piso e contemplo as sombras das montanhas cipriotas, já bastante definidas no horizonte. Estamos próximos. Mas a grande questão é: “Que raio estou a fazer no Chipre?”. Nunca nos tinha passado pela cabeça visitar a ilha do Mediterrâneo, muito menos neste projecto, mas a persistente procura de um barco para o Líbano fizera-nos vir cá parar. Porém, acredito que a nossa passagem pela grande ilha nos trará muitas mais peripécias.

Fotografia João Henriques

Um par de amigos curdos oferece-me um cigarro sem filtro feito com tabaco local. Duas bafuradas em jejum e a fumarada pujante embacia-me logo a vista, desço as escadarias em vertigem, bem agarrado ao corrimão e procuro um lugar para me sentar e evitar a quebra de tensão.

Uma mochileira baixinha e enfezada está agora à conversa com o Fontes e o Johnny. Chama-se Allison, tem 24 anos, é norte-americana e, imagine-se, anda há seis meses sozinha a dar a volta ao Mundo em navios de carga. Sim, só podia ser uma encomenda do destino, um sinal do Olimpo, ou então como explicar que no momento em que só pensamos em como encontrar um cargueiro, nos apareça, qual Nossa Senhora, uma pessoa que tem feito disso estilo de vida. Esfrego as mãos de contentamento. Encontráramos a pessoa certa para nos indicar o caminho marítimo para Beirute.

Fotografia João Henriques ( Alisson )

Mas a esperanção morreu à nascença: “Não vos posso ajudar porque eu própria não tenho barcos que me tirem daqui e a Fundação que me dá a bolsa tem uma lista de países que não posso pisar. O Líbano é um deles”. Allison deixou a Carolina do Norte em Julho de 2011, viajou de cargueiro até à Bélgica, depois andou por França, Suécia e Turquia, integrada em tripulações filipinas e polacas pelo Mediterrâneo e Mar do Norte. “Apanhei cinco barcos em meio ano. Como podem ver, não é muito. Aliás, no último mês tenho desesperado porque tenho andado na incerteza de conseguir arranjar mais algum. Como vos percebo, rapazes…Viajar assim é do mais difícil que existe”. O estado da americana revela isso mesmo: os inchaços nos olhos, o cabelo enfraquecido pela maresia e o corpo escanzelado a pedir mais do que rações de bordo.

Allison transporta um pequeno microfone ao pescoço e usa uma máquina fotográfica de bolso. Constrói peças de rádio e de imprensa para a web. É fascinada pela vida a bordo, pela forma como as tripulações vivem as notícias de casa quando estão isolados no oceano: “Uma vez, a tripulação filipina com quem estava recebeu por sms a notícia de que estava a acontecer um terramoto no seu país. Mas eles estavam em mar alto. O que podiam fazer? É desesperante”. Vai ter em Limassol uma reunião com a administração do porto e pedimos-lhe prontamente para nos tentar recomendar para um barco. Um qualquer. Algum que nos levasse dali.

O ferry está prestes a atracar. Adjacente ao cais, o castelo de Girne, que descubro por um passageiro tratar-se da povoação em que vamos saltar para terra. Encaminhamo-nos para o posto de controlo de passaportes e recebemos um carimbo da República Turca do Chipre do Norte, um país que oficialmente é inexistente, pois apenas é reconhecido pela Turquia. Em 1974, a Turquia invadira o norte do Chipre e, desde então, a ilha tinha ficado dividida em duas: a República do Chipre, dos cipriotas gregos, membro da União Europeia, e estes Chipre inconstitucional, habitado por cipriotas turcos e colonos da Turquia.

Só quando pousamos as bagagens à saída do piquete de segurança, me apercebo da monstruosa quantidade de coisas que transportamos, em contraste com a pequena mala que Allison carrega às costas. Faço um breve inventário: três mochilas de campismo carregadas de roupa e saco-cama, uma mala com câmara de vídeo, discos, microfone e outras peças de material de filmagem, uma mala com duas máquinas fotográficas e lentes, uma mala com livros, dois computadores portáteis, chinelos, pasta para as facturas e mais uma catrafada de tralha, um tripé, um suporte de ombro e uma mala com bloco de notas, óculos, carteira, gravador e outros artigos de uso quotidiano. Ao todo, são facilmente 60 quilos que temos de mover de cada vez que nos deslocamos de um sítio para o outro.

E, desta vez, depois de apanharmos um mini-bus de Girne para Nicósia, que passa por uma bela região montanhosa, decidimos carregá-las ao longo de uns três quilómetros pelo norte da capital do Chipre. Os ombros começam a ceder e os trapézios ficam mais sensíveis a cada metro percorrido. Uns quilómetros depois, já notamos na cara uns dos outros uma expressão de esforço na passada; eu e o Fontes vamos fazendo turnos com a mala do vídeo e com a dos livros, que tem rodinhas, e o tripé vai passando para as mãos de quem está menos cansado. Por vezes, paramos, para ganhar fôlego. Depois, voltamos à carga.

Fotografia João Henriques ( Buffer Zone )

É assim que, uns 45 minutos depois de iniciarmos a caminhada, chegamos à fronteira interna de Nicósia. Situa-se excatamente no meio da rua principal, a Rua Ledra, cortando assim a capital exactamente na sua artéria principal. Entre a saída do Chipre do Norte e a entrada no outro lado do Chipre, o europeu, está um corredor com pouco mais de setenta metros. Surpreendentemente, as paredes deste corredor estão pintadas com desenhos coloridos e mensagens de anarquia, paz e reunificação: “Chipre sem fronteiras, deixem-se de tretas”, “não somos turcos, não somos gregos, somos cipriotas” e “este muro é imaginário”. No meio da rua, Eddie, um cipriota turca alto e forte, com rastas e óculos, dá-nos as boas-vindas: “Estamos acampados aqui desde 15 de Outubro. A nossa missão é informar quem passa de um lado para o outro de que a reunificação é possível e de que isto tudo não passa de uma invenção do sistema global”. Conhecemos ainda Mikail, um simpático polaco de Poznan, que anda há dez anos a viajar à boleia pelo Mundo inteiro. Outras dezenas de activistas concentram-se no piso térreo de um edifício ocupado, onde, no meio de cervejas e de fumo, debatem temas políticos. Turcos e gregos, ricos e pobres, novos e velhos, agem como iguais em terra de ninguém. É uma zona destinada àqueles que, à imagem de Alex Supertramp, o abnegado viajante que deixou tudo para viver em liberdade, procuram dar com grandes causas um sentido à vida e, neste caso, entregam-se de corpo e alma à reunificação do Chipre. Fiquei com a sensação de que iríamos voltar.

Mas agora esperavam-nos na Embaixada de Portugal em Nicósia, para nos darem mais informações sobre a possibilidade de viajarmos num barco de carga, com a veracidade das nossas intenções atestada pelo Embaixador português. Temos grandes expectativas de sucesso e, depois de mais de uma semana de sofrimento, estamos perto de saber se a sorte está connosco. Tocamos à campaínha da Embaixada a arfar de cansaço e com as bagagens todas espalhadas pelo chão.

“Não, infelizmente, a Salamis, a empresa que viaja para Israel e Líbano, diz que não há condições para vos transportar”, diz um responsável da Embaixada, que prefere o anonimato. “Tentámos tudo mas é mesmo impossível”. De seguida, sugere que não percamos a esperança e que viajemos para Limassol, a fim de procurar uma boleia num camião que seja transportado num navio de carga. Falamos ao nosso interlocutor da nossa entrada pelo norte do Chipre. Ele dá-nos um pouco de informação sobre o tema: “Têm de perceber que quando se referem aquele país, tem de ser sempre entre aspas. É um país entre aspas, com um Presidente entre aspas e um governo entre aspas. Isto porque quem manda é a Turquia”. E esperança na reunificação? “É difícil por três motivos: nacionalidade, exército e propriedade. É complicado definir quais os colonos turcos que têm direito a nacionalidade cipriota e como restituir as terras aos gregos que tiveram de fugir do Norte, pois agora estão ocupadas por colonos”. A conversa interessa-me mas a pressão de obter um transporte para fora do Chipre martirizava-me mais do que os dramas cipriotas. Não iria conseguir pensar em mais nada sem encontrar primeiro uma solução.

Pouco esperançados, voltamos a meter as malas às costas e enfiamo-nos no hotel mais barato de Nicósia, o Tony, que vive num frenesim com a entrada de cipriotas com prostitutas asiáticas. Vicissitudes de quem anda com a casa às costas com poucos tostões no bolso.

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Cruel Valentim – Tasucu, Turquia, 14 de Fevereiro de 2012

February 17th, 2012 by admin

Fotografia João Henriques

Um gato solitário deambula pelo cais de Tasucu, onde dezenas de casais apaixonados exibem a sua felicidade. Indiferente, um velho pescador numa traineira forra o rebordo de uma canastra de vime com iscos. É Dia dos Namorados, uma data que pode ser encarada de três perspectivas: solidão, paixão ou indiferença. Nós estávamos a fim de não ligar nenhuma à efeméride. Mas é complicado, quando tudo em nosso redor remete para a celebração do amor.

Fotografia João Henriques

Aproxima-se um rapaz de sorriso tímido. Chama-se Eral e quer fazer uma surpesa à namorada, que vem a caminho. No bolso, traz um queque e uma vela e pede-nos encarecidamente para lhe tirarmos uma fotografia no momento da chegada da sua prometida. Dez minutos depois, ela surge; um atraso fica sempre bem, desperta o mistério. Ele tira apressadamente o queque de chocolate do embrulho e tenta acender a vela mas o Johnny acabara de lhe arruinar o isqueiro. Ela apanha-o em flagrante, com a supresa a meio, ele aflito, ela emocionada, olham um para o outro e abraçam-se. O Johnny dispara. O Eral tinha brilhado e nós acabáramos de ser atirados para o espírito de Valentim. O que não vinha nada a calhar entre três machos barbudos.

Fotografia João Henriques ( Eral e a namorada )

 

É que, mesmo que o orgulho o rejeite, neste dia toda a gente gosta de ter alguém com quem jantar. Como o homem de camisinha branca, corpo abandonado à beira-mar numa mesa para dois, que tira fotografias a si mesmo, num auto-retrado de profunda depressão. Ou o rapaz de olhos hipnóticos, de plantão em frente ao restaurante do Ahmet Ali, que acompanha com o olhar as namoradas dos outros: “Vim para aqui porque passam muitas miúdas. É o dia perfeito para engatar uma. Estão sensíveis. Hoje ninguém gosta de andar sozinho”, diz-nos.

 

Fotografia João Henriques

 

Serão eles mais infelizes do que os que hoje festejam o namoro? Reparo nas miúdas sorridentes que carregam peluches maiores que elas, sem ainda saberem que o tempo os vai transformar em peças de um museu de dissabores…

Fotografia João Henriques

Contudo, havia uma certa inveja, por estarmos tão distantes de todos aqueles amores e dissabores. Resignamo-nos a mais um jantar a três, como resignados também já estávamos com o nosso próximo destino: o Chipre. À tarde, recebêramos um telefonema da parte de uma amiga jornalista, experiente no Médio Oriente, que nos informara que seria quase impossível atravessar o Iraque de autocarro como meio de chegar à Jordânia. Assim, não nos restava outra solução que não apanhar um ferry-boat para o Chipre e acreditar que daí conseguiríamos navegar para o Líbano ou para Israel. Comprámos o bilhete e voltámos à nossa mesa no restaurante do Ahmet, que já nos preparava uma grelhada mista de kebab, na primeira fila para a televisão que transmitia a partida entre os portugueses do Sp. Braga e os turcos do Besiktas. Mesmo a calhar!

Fotografia João Henriques

 

O Braga perdeu 2-0 e, a cada golo, os turcos das mesas ao lado não perdiam a oportunidade para se meterem connosco: “Turkey 2 – Portekis 0”.

 

Juntamo-nos à fila de embarque e somos logo convidados a fumar os cigarros de um rapaz baixo, de cabelo rapado, que estava sentado em cima da mala. Era um soldado, como uma boa parte dos passageiros – jovens de todas as regiões do país, obrigados a cumprir 15 meses de serviço militar no norte do Chipre, território ocupado pelos turcos. Quando lhes dizemos que em Portugal a ida à tropa é opcional, respondem que gostavam que na Turquia fosse igual.

 

Somos sujeitos a um controlo de bagagens descuidado e, logo a seguir, um polícia abre o meu passaporte, compara a minha figura desgastada com a da fotografia, apresentável, franze o sobrolho e bate o carimbo de saída da Turquia: “Gule-gule (adeus)”. E eu, aliviado, pois já lá iam 23 dias na Turquia, mais do dobro que que tínhamos planeado, espreito por trás do ombro um busto de Kemal Ataturk, sempre ele, omnipresente como uma figura divina a vigiar quem entra e quem saí da Turquia que edificou.

 

As pessoas entram lentamente no navio da Fergun, uma embarcação grande, com quatro anéis em altura. O superior, onde funciona o posto de comando, oferece uma vista imponente do porto e do mar, e também do navio em si, numa altura em que três camiões compridos estacionavam no convés. As luzinhas e as traineiras de Tasucu afastam-se gradualmente e o ferry mergulha na escuridão do alto Mediterrâneo. São quase 2h da manhã, os pulmões exaustos de fumo e da fria brisa marinha pedem tréguas e as pálpebras trémulas exigem descanso.

Fotografia João Henriques

 

De regresso ao primeiro piso, o dos passageiros, deparo-me com um problema bicudo: os turcos não têm qualquer pudor em espojarem-se nos assentos, num repouso horizontal que ocupa três e quatro lugares. Para mais, enquanto filmávamos e olhávamos para a paisagem, o barco fora invadido por passageiros que não víramos na fila e que, agora, estavam espalhados pelo chão dos corredores e das salas, não deixando qualquer buraco para nos acomodarmos. Em desespero, atiro-me para baixo das mesas, encosto a cabeça ao saco-cama e sustenho a respiração que se processa sobre pés alheios. E, durante o sono profundo, embalado pelas ondas, sou teletransportado para um Valentim mais aconchegado.

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Mudar de ares, Tasucu, Turquia, 13 de Fevereiro de 2012

February 16th, 2012 by admin

Fotografia João Henriques ( a vila de Tasucu )

Dada a conjuntura, lavar a roupa pela primeira vez desde que chegámos foi um acontecimento. Deixámos quase 40 euros na lavandaria de um velhote turco muito simpático, que tinha um colete de pele de raposa (que certamente só pode lavar a seco), mas o prazer de inalar os trapos e já não sentir aquele aroma que misturava kebabs, fumo e indigência, não tinha preço. Só por isso, o dia estava ganho.

Mas havia ainda que tomar uma decisão. A espera em Mersin estava a matar-nos abruptamente e a roubar-nos o ânimo. Tínhamos de mudar de ares. Não importava para onde, só tínhamos de sair dali, jogar com a sorte e esperar que as coisas melhorassem.

Encetamos uma série de contactos; do Chipre, recemos a informação de que a Salamis, uma empresa que no Verão faz transporte de passageiros para o Líbano e para Israel, tem uma linha no Inverno que faz o transporte de veículos e de mercadorias para Haifa, em Israel; do Iraque, chega-nos a notícia de que podemos chegar sem dificuldade à região autónoma curda, mas ninguém nos garante se conseguimos obter um visto à entrada da fronteira do Iraque árabe, nem sequer se existem transportes directos da zona curda para Amman, na Jordânia, onde pretendíamos chegar; e a internet diz-nos que há voos baratos desde Larnaca, no Chipre, para Beirut, no Líbano. Porém, estamos, por opção, de asas cortadas, pois voar não faz parte dos planos da viagem da Revolução desde a sua nascença.

Baralhamos as cartas e ficamos com o naipe que nos garante o melhor trunfo: o Chipre. E o caminho para o Chipre tinha de começar a 120km de Mersin, em Tasucu, uma pequena aldeia balnear de onde largavam os ferry-boats para a parte turca do Chipre. Depois, era só entrar num autocarro, passar o muro que separa o Chipre ocupado pela Turquia da Rep. do Chipre, membro da União Europeia e seguir para Limassol, um dos maiores portos do Mar Mediterrâneo. Aí, podia estar o tão anseado meio de transporte que nos levasse de novo para a estrada.

Percorremos a vastidão de Mersin, com os seus centros comercias e pólos universitários, num mini-autocarro. Pouco mais de duas horas e cem quilómetros depois, chegamos a Tasucu, uma pacata estância balnear e portuária com pequenas palmeiras plantadas ao longo de um extenso passeio marítimo e uma marina com iates e traineiras de pesca. O ranger da madeira dos barcos na tranquilidade da noite dava-nos as boas-vindas a um lugar bem mais aprazível.

Jantamos no restaurante de Ahmet Ali, um homem brincalhão e embriagado de raki, que prontamente nos faz sentir em casa. Traz-nos uns pratos com arroz de pinhões, feijões em molho de tomate e um guisado de beringelas. E um raki para brindar. “Serefe”, diz Ali. “À nossa”, respondemos. A Tasucu, que nos tinha devolvido a boa-disposição.

Saímos entusiasmados para uma caminhada pelo calçadão e luzes verdes e vermelhas piscavam no mar; sabia que alertavam os barcos para o perigo de encalhe mas queria entender que nos marcavam o caminho para o Chipre. Sentamo-nos num banco de madeira, de cerveja na mão a saborear a brisa amena mesmo em frente à marina pitoresca, qual lobos-do-mar, despedindo-nos da tempestade e falando de pescarias antigas. E quem visse, naquele instante, aqueles companheiros de faina na madrugada de Tasucu, não podia duvidar que, mais cedo ou mais tarde, a maré ia mudar.

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Neurótico – Mersin, Turquia, 12 de Fevereiro de 2012

February 15th, 2012 by admin

Fotografia João Henriques

As cidades portuárias custumam ter um fascínio particular. Tenho boas recordações de Cádiz, Marselha e Nápoles, sítios sujos que escondem por baixo da impureza uma alma poderosa. Para não falar de Lisboa, a cidade do meu sempre. São lugares sobrevoados por gaivotas famintas que procuram peixe miúdo, percorridos por marujos extasiados que correm bordéis em busca do que o mar não lhes dá, batidos por traficantes e contrabandistas que perseguem esquemas e negócios. E Mersin? Mersin não me deu isso. E o pouco apreço que tinha pela cidade esfumou-se hoje, no momento da partida dos dois barcos rumo ao Líbano. E nós, em terra. Era a única coisa que procurava aqui e já não havia nada em Mersin que eu desejasse. Sou gaivota sem peixe, marujo sem êxtase, contrabandista sem esquema. Estou num porto à procura do nada.

Convém dizer que que o sítio em que nos instalámos não ajudava; mesmo em frente à otogar (estação de autocarros), vejo pela janela gente que chega e gente que parte, gente com destino, gente que passa e ignora a luz do segundo andar que o destino quis que fosse pálida como a esperança em sair daqui; ouço os cantores dos cabarets, trovadores sem talento, que em casas escuras no meio dos móteis, animam os motoristas e as putas de estrada, que não têm nada a ver com as de mar, porque lhe sobra de óleo o que lhes falta de sal; sei que vejo e ouço com os sentidos toldados pelo desalento.

Torna-se difícil pensar nas revoluções dos outros quando há tantas em curso dentro de ti. Depois da Síria, é como se tivesse entrado no PREC. Tantas questões, tantas indefinições, tantos dias sem caminho. E, de repente, ponho-me a olhar para trás, e visualizo os travestis de Istambul, os desaparecidos de Diyarbakir, os feridos de Binnish. Será que a nossa passagem os ajudou em algo ou, como alguns temiam, até os conduziu à morte? Para eles, quais as consequências desta revolução? Corajosos são eles, não nós; e, lá mais atrás, os que ainda nos dizem adeus num aceno prolongado, os que abandonámos, os que pensam que a normalidade é a maior das revoluções e são felizes até quando protestámos em casa. Não estarão tristes por protestarmos longe? Não questionarão porque não estamos lá para protestar contra quem lhes chama de piegas ou contra os nossos Mobaraks, que com 20 anos de poder e de regalias, têm o descaramento de se queixar das suas parcas receitas?

É difícil explicar a evasão e encontrar uma razão para nos afastarmos quando nos sentimos felizes. Por vezes, parece-me claro como a água: é a ambição pessoal, o dever profissional, a vontade de saber mais e dar a conhecer. Mas, quando a alma está negra, é tão difícil vislumbrar um motivo. Porquê tanta inquietação? Porque não posso ser como a maioria? Talvez perdesse menos… E, então, um dedo incriminador pressiona-me a consciência e ouço a sentença: culpado – por abandono, desprezo e alienação. Declaro-me inocente mas a audiência ri-se. A pena é a intranquilidade eterna. E, só com o ego no calabouço, tudo volta a ser evidente: não és culpado quando não deixas de sentir. E logo gritas por justiça mas o Mundo está tão longe e tão moco que não te acode e, por iniciativa própria, pedes para cumprir a pena em solitária.

E não há sedativos para tantas dúvidas e tanta angústia; a garganta está seca sem voz e o cérebro vazio de estímulo.

Se viajar nos preenche quando aprendemos com pessoas novas, também nos suga o espírito quando nos deixa sozinhos perante a ignorância de quem somos. Na aflição, vemo-nos abandonados, desprovidos das raízes vitais e do meio que nos acalma. Tudo desaba. O que me aflige? Muitas coisas, mas tudo empolado pelo mesmo que, à devida escala, aflige as pessoas que tenho entrevistado: a sensação de clausura e a torturante expectativa que a combustão do cigarro seja interrompida por alguém que me tire deste porto.

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A ver passar navios – Mersin, Turquia, de 8 a 11 de Fevereiro de 2012

February 14th, 2012 by admin

Fotografia João Henriques ( a ver passar navios em mersin )

A sensação de tomar um duche de água quente depois de seis dias sem ver um chuveiro é libertadora. Tínhamos estado seis dias clandestinos na Síria e voltáramos ao decadente hotel Erçan, em Antakya, Turquia, onde diariamente chegam imigrantes subsarianos e um corrupio de prostitutas. Mas, hoje, depois da experiência na clandestinidade, o pardieiro parece uma suíte.

Mesmo não tendo roupa limpa, porque em quase um mês de viagem ainda não conseguíramos arranjar tempo para lavá-la, o facto de trocar a roupa com que dormíramos durante seis dias por outro menos suja é um motivo de alegria. Na Internet, a BBC diz que em Homs, cortaram propositadamente a electricidade numa maternidade, matando vinte recém-nascidos. A Síria não nos sai da cabeça, nem do coração. E como rapidamente íamos perceber, também não nos sai do caminho.

Fotografia João Henriques ( Tiago Carrasco )

Abro o mapa do guia de viagens para estudar a rota. E agora? Queremos ir para o Líbano, mas pelo meio temos 190 quilómetros de território sírio, por sinal, uma das zonas mais conflituosas do país. Obviamente, não podemos chegar à fronteira e pedir um visto, carregados de câmaras, de computadores e de discos com imagens que provam a nossa entrada clandestina no país de Bashar. Mais a Este, está o Iraque, por onde talvez consigamos contornar a Síria de autocarro e alcançar a Jordânia, mas não sabemos se nos dão visto de entrada na fronteira e, além do mais, é o Iraque! Evitar a Síria pelo Iraque é como esconder-nos na toca do urso para fugir do lobo. O norte do Iraque, região autónoma curda, é pacífico, mas mais a sul, o Iraque árabe é terra sem lei, minado de bandidos que bloqueiam as estradas para roubar ou raptar estrangeiros. Além disso, nem sabemos se conseguimos obter visto num curto período de tempo.

Sem poder viajar de avião, resta-nos o mar, o glorioso Mediterrâneo, e a chance de arranjar um barco que nos ponha a léquas da Turquia e nos leve para o Líbano ou para Israel, onde possamos continuar o projecto.

À partida para a viagem, tínhamos a informação de que havia um ferry-boat que fazia a ligação de Mersin, na Turquia, a quatro horas de Antakya, a Tripoli, no norte do Líbano – um enorme engodo. A Fergun, a companhia marítima que gere a linha, disse-nos que só realiza essa viagem nos meses de Verão. “No Inverno, não há forma de ir da Turquia para o Líbano por mar. Só de avião”. Prontamente, contactamos um amigo no Líbano que nos informa que, dentro de três dias, dois cargueiros de contentores saem de Mersin para Beirut. Fazemos a mala e apanhamos o autocarro. Á meia-noite, pisávamos Mersin. Objectivo: saltar para dentro de um cargueiro. É como alguém chegar a Lisboa e, num porto imenso, pretender apanhar um cargueiro para Cádiz. Sabíamos que não ia ser fácil.

Fotografia João Henriques ( Frente marítima de Mersin)

A cidade, a sexta maior da Turquia, alberga um milhão de pessoas e possui o maior porto do país. É também o principal ponto de entrada e saída de mercadorias. Os nossos barcos, os imponentes Classica e Monsun, iam desancorar de Mersin carregados de contentores para o Líbano e nós queríamos somente um lugar em cima deles. “É impossível. Nos cargueiros só podem viajar os técnicos de reparação do navio. Não são permitidos passageiros”, diz-nos o dono da agência que controla as embarcações. Estamos presos.

Olho para a cidade, vasta e pouco acolhedora. No centro, um enorme arranha-céus de 52 andares, a Mersin Tower, o segundo maior edifício da Turquia, impõe-se na paisagem. Na frente marítima, amigos e jovens enamorados passeiam sob um sol morno, comendo pevides e bebendo chá. Muitos entram em barcos ancorados, com a música exageradamente alta. Ao fundo, o Clássica e o Monsun partiam para Beirut, deixando-nos em terra a vê-los passar. E pensar que daqui fenícios, gregos romanos e otomanos se lançaram ao Mediterrâneo, galgando mares, e hoje não havia lugar para três lusitanos. Definivamente, este não é um mare nostrum.

Desesperados, corremos para as marinas: a dos pescadores, com pequenas traineiras de pesca local, e a dos iates, com turcos endinheirados em repouso debaixo do ameno sol de Fevereiro. Pedimos boleia, alguém que vá para o Líbano, em faina ou em recreio, mas ninguém se arrisca: “No Verão, há quem viaje para Beirut, mas no Inverno quem é que tem interesse em fazer isso? Já perguntei a toda a gente que tem iates na marina e ninguém vai para lá”, responde Tuna, um funcionário da grande marina. “Os pescadores não têm licença para entrar em águas internacionais e estas águas são patrulhadas pela polícia marítima síria, por causa da revolução, e pelos israelinas, para prevenir a entrada de activistas palestinianos”, diz-nos um homem no porto de pesca.

Fotografia João Henriques

Apanhamos um pequeno autocarro para as as praias contíguas à cidade, um balneário veraneante com blocos de apartamentos desordenados, ao melhor estilo da Quarteira, que esperam pelo calor para ganhar vida. Não há ninguém. Pequenas embarcações a remos hibernam na areia e, por momentos, desejo pegar numa delas e fugir para Beirut, qual imigrante desesperado à procura de uma piroga em Gibraltar. Quando Ataturk derrotou as tropas francesas e libertou a Turquia, em 1920, quis fazer de Mersin a “pérola do Mediterrâneo”. Para nós, era uma ostra fechada. E sabíamos que só no Verão assistiríamos ao seu desabrochar. Mas a Revolução não pode esperar.

Fotografia João Henriques

Voltamos ao hotel e estudamos saídas de emergência. Podemos perder a cabeça e ir de autocarro para o Iraque curdo, fazendo figas para que daí exista uma ligação rodoviária para a Jordânia. Há ainda a possibilidade de perder as cabeça e ir de ferry-boat para o Chipre e tentar pedir novamente uma boleia marítima para o Líbano ou para Israel. E ainda podemos perder a cabeça e meter-nos num avião para Beirut, admitindo uma primeira derrota por infringir um dos propósitos do projectos. Em qualquer dos casos, nesta espera à beira-mar plantados, é difícil manter a cabeça no lugar.

Fotografia João Henriques ( Tiago Carrasco , João Fontes e João Henriques )

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