
Fotografia João Henriques ( Manifestação em Hebron . Polícia israelita dispara gás lacrimogénio enquanto os palestinianos respondem com pedras )
Ao fundo, já se avistam os minaretes da Mesquita de Abraão no centro da milenar cidade de Hebron. Issa Amro, activista pela causa palestiniana e líder da organização Juventude contra os Colonatos (YAS), manda agachar cerca de mil manifestantes que meia hora antes se tinha concentrado diante da mesquita Wasaya Rasul Allah, no sul da cidade. A 300 metros, no fim da rua, uma barreira do exército israelita formada por soldados armados, veículos blindados e snipers posicionados nos terraços dos edifícios, bloqueia a passagem. A multidão ergue-se e avança em bloco em direcção aos militares, gritando em coro: “Allahu Lakbar” (Deus é Grande). Caminho na linha da frente do protesto, despreocupado e convencido de que a marcha continuará para lá da barreira, escoltada pelos militares.
De repente, um rapazinho arremessa uma pedra, seguida de mais duas que não vejo de onde vêm; um miúdo de uns 16 anos corre para a cabeça da manifestação, de peito feito para os militares que agora se encontram a menos de 100 metros, desfralda uma bandeira de Israel e puxa-lhe fogo. A estrela de David é engolida pelas chamas, a multidão continua a aproximar-se e, de súbito, ouvem-se duas fortes explosões: “pum, pum”. Seriam bombas? Mísseis? Tiros para o ar? Todas as possibilidades passam em slide em frente dos olhos em milésimos de segundo. Sobressaltados, os manifestantes dispersam numa grande correria em todas as direcções; a maioria recua, uns metem-se dentro de lojas, outros escondem-se atrás de um contentor de plástico usado como escudo. Eu viro-me para a direita e sigo uma dezena de adolescentes para um beco. Primeiro entro num quintal, mas um grampo metálico voa na minha direcção e bate com estrondo num portão de ferro, mesmo ao meu lado. Fujo a sete pés para a parede que delimita a viela, os mais ágeis trepam-nos como gatos mas eu e os miúdos mais novos ficamos encostados a ele, a recuperar o fôlego. Nesse instante, um soldado de máscara e capacete surge embrulhado numa densa névoa de fumo a patrulhar a rua principal, vira-se para e beco e dá pela nossa presença. Depois, aponta uma arma robusta. Olho em redor; tinha perdido o Johnny e o Fontes na confusão e estava rodeado por putos indefesos aos berros. “O tipo não pode disparar”, pensava.
Chegáramos à Palestina na noite anterior, vindos de um barco que nos deixara em Haifa, no Norte de Israel. De manhã, tomáramos conhecimento da manifestação e apanhámos um táxi para a Wasaya Rasul, onde a concentração ainda estava a ser preparada. As ruas estavam decoradas com bandeiras da Palestina e com galhardates amarelos do Fatah, o partido de centro-esquerda fundado em 1964 por Yasser Arafat, que é considerada a facção mais importante da confederação multipartidária OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Uma das salas da mesquita estava a ser preparada para receber um comício, enquanto centenas de palestinianos começavam a chegar para a oração do meio-dia de sexta-feira, a mais importante da semana. Nas paredes, vários cartazes com as fotografias das 29 pessoas assassinadas a 25 de Fevereiro de 1994 no massacre da Mesquita de Abraão, às mãos de Baruch Goldstein, um médico judeu ultra-nacionalista. Esse acontecimento mudou a vida dos palestinianos em Hebron: “Foi há 18 anos. E é para homenagear essas vítimas que hoje esta manifestação quer chegar à Mesquita de Abraão”, diz Issa Amro. Temer Atrash, 23 anos, também membro da YAS, acrescenta: “Depois desse massacre, a cidade foi dividida em duas partes: a H1, sob controlo das autoridades palestinianas, e a H2, controlada por Israel e pelos colonos judeus. No meio, fica a rua Shuhada, que era a rua principal da cidade e o centro da vida comercial árabe. Expulsaram os habitantes, fecharam as lojas e proibíram os palestinianos de meterem os pés nessa rua. Estamos aqui para exigir a reabertura da Shuhada”.
Hebron é a única cidade palestiniana da Cisjordânia com um colonato judeu no centro. Durante mais de uma década, o exército israelita implementou uma política de separação entre os 800 colonos e os 170 mil palestinianos que vivem dentro de Hebron (há mais quatro populosos colonatos nos arredores da cidade). Alegando estar a proteger a minoria judia, os militares restringiram severamente a movimentação da maioria árabe: 77% das lojas fecharam e 1014 famílias foram forçadas a deixar as suas casas, o que representa 42% dos apartamentos da zona central. “O centro de Hebron tornou-se numa cidade-fantasma, onde apenas os judeus estão autorizados a movimentar-se livremente”, diz Temer. A rua Shuhada, especificamente, era o centro de negócio da cidade e fechou em 2000. Só em 2007, quatro famílias palestinianas foram autorizadas a voltar; contudo, como têm a porta principal vedada e não podem pisar a rua, são obrigadas a subir ao telhado e sair pelas traseiras. Também a Mesquita de Abraão, mais famosa pela sua denominação judaíca – Túmulo dos Patriarcas – foi dividida ao meio: metade mesquita, metade sinagoga. É um templo sagrado para ambas as religiões, onde estão supostamente sepultadas algumas das figuras biblícas mais determinantes: Adão e Eva, Abraão e Sara, Jacob e Lea e Isaac e Rebeca. Os cadáveres idolatrados que, em última análise, estão na origem de todos os conflitos em Hebron.
Com o fim da reza, mais e mais gente se acumulava em frente à mesquita. Não eram apenas islâmicos – havia também dezenas de activistas ocidentais com um cachecol à Arafat enrolado ao pescoço, entre os quais duas mulheres sexuagenárias que tinham uma bandeira da União Europeia. Dominavam as cartolinas amarelas com as mensagens: “Abram a rua Shuhada” e “Fim do sistema apartheid”. Pelo meio, uns dez homens levantavam a bandeira síria e cantavam a demissão de Bashar al-Assad. Para nossa estranheza, começaram a aparecer fotógrafos e cameramen com máscaras de viseira e capacetes: “O capacete serve para, se estiveres junto aos soldados, não levares com pedras na cabeça, e se estiveres do lado dos manifestantes, protegeres-te do gás lacrimogéneo”, diz um dos repórteres. Pedras? Gás? Ninguém nos tinha avisado que a manifestação podia ser violenta. Não tínhamos qualquer tipo de protecção.
O corso arrancou, guiado por um Peugeot branco, com um tipo com um megafone pendurado na janela a gritar palavras de ordem. Assim continuou, pacificamente, até que os soldados surgiram no caminho para a mesquita e Issa mandou a malta agachar-se, atiraram-se pedras, queimou-se uma bandeira, ouviram-se explosões e deu-se a fuga. Uns minutos antes, um dos fotógrafos de capacete tinha-me tentado avisar do perigo mas não o entendi. Agora tinha uma arma apontada na minha direcção, apenas a umas dezenas de metros.
O soldado dispara mesmo, duas vezes, com uma frieza implacável. O som atemoriza-me mas descanso quando ouço o silvar do gás a soltar-se de duas bombas pretas de gás lacrimogéneo que se aproximam pelo chão a grande velocidade. Só nesse instante percebo que não estão a atirar balas. Rapidamente, eu e os miúdos ficamos cobertos por uma nuvem de fumo esbranquiçado que me entra pela garganta e pelas fossas nasais e me obriga a fechar os olhos, enquanto corro para fora dali. Quando tento ver onde estão, tinham desaparecido. Enfio-me dentro de um curral abandonado e fecho a porta mas, quando penso que estou a salvo do gás, reparo que a janela não tem portada. O gás entra lentamente e, agachado a um canto, tento respirar sofregamente e esfregar os olhos para aliviar o ardor insuportável. As próprias lágrimas que me corriam pela face pareciam estar em chamas. Aflito, abro a porta para me pôr dali para fora, quando um miúdo vem buscar-me e me leva para dentro de um prédio. Finalmente, a salvo.
Mansur Fakhurie, 20 anos, dá-me prontamente dois lenços de papel húmidos para molhar a cara e um copo de água. Ele também estava encostado à parede quando o soldado lançou o gás sobre nós. Tem, como eu, as pálpebras ligeiramente inchadas, as bochechas inflamadas e uma tosse irritada pelo incómodo dos químicos. É um miúdo magro e sorridente, cabelo estilizado com gel e um ar gozão. “Porque é que te foste meter ali? Era o pior sítio para te esconderes”, diz-me.
Guia-me até ao terraço, de modo a vermos o que se passa na rua principal. Lá em baixo, um cenário de guerra, embaciado pelo fumo negro de pneus a arder e pelo gás que continua a ser disparado. Chovem muitas pedras sobre os militares que respondem com mais gás e com jactos de água acastanhada. As sirenes das ambulâncias do Crescente Vermelho são aflitivas e incessantes, tal como as explosões de pólvora seca e de balas de borracha, e os carros militares patrulham todo o perímetro de Hebron, espalhando mensagens de medo através dos megafones: “Estão a dizer que se não dispersarmos vão começar a disparar balas reais”, traduz Mansur. “Agora é muito perigoso voltar á rua”.
Os homens da família de Mansur e alguns refugiados do gás estão todos no terraço. No prédio da frente, os snipers israelitas apontam a M-16 na sua direcção e ordenam que voltem para casa: “Hey, eu estou em casa. Porque é que não vais tu para casa e não nos deixas em paz?”, grita o destemido tio de Mansur. “Eles apontam mas nunca disparam. São uns maricas. Nós já estamos tão habituados a isto que já sabemos como funciona”, explica o homem. “Além disso, estamos em H1, isto é a nossa zona, a presença deles naquele telhado é completamente ilegal”. Aventuro-me no telhado, mas o soldado também me aponta a arma e fujo a sete pés. Mansur ri-se. Prefiro ficar a espreitar pelas grades da janela.
Servem-me um chá, recomponho-me e Mansur oferece-se para me levar para o terraço da casa do primo, que tem uma vista mais desimpedida. Saltámos um par de muros de quintais e entramos num prédio com um cheiro nauseabundo. “Será que morreu algum gato?”, brinca o rapaz. Enquanto subimos a escadaria a correr, cruzamo-nos com um miúdo gordito que nos passa para a mão dois pés de hortelã: “Respira isso. Alivia o ardor do gás e deste cheiro horrível”. Pergunto-lhe o porquê daquele odor putrefacto: “Aqueles jactos de água que eles atiram estão cheios de químicos que deitam este cheiro. É a primeira vez que o usam em Hebron. E sabes qual é a mensagem? Vocês são uma merda, então têm de cheirar a merda”, diz.
Assim que alcanço o terraço, vejo um fotógrafo de braço estendido no topo de um prédio ainda mais alto. É o Johnny. Não sei bem como, mas o fotógrafo italiano que está ao meu lado recebe logo uma chamada dele: “Logo no primeiro gaseamento, fiquei com falta de ar e uns tipos levaram-me aqui para cima. Passei mal”, conta o Johnny. Como é asmático, é-lhe completamente impossível descer do prédio. As ruas estão infestadas de gás. Entretanto, Mansur chama-me a aponta para a janela de sua casa, onde há menos de cinco minutos tinha estado a espreitar pelas grades. Estava a deitar fumo. “Os sacanas mandaram uma bomba de gás para minha casa. Porquê? Não estávamos a fazer nada”, reclama Mansur.
Volto ao epicentro do protesto e sou logo rodeado por manifestantes que me dão cebolas cortadas ao meio e uns paninhos embebeidos em álcool – alguns dos truques para suavizar a inalação de gás. No meio da rua, um miúdo de 17 anos, Moussa, com um cachecol com as cores palestinas ao pescoço, enfrenta o exército sozinho, atirando-lhes pedras atrás de pedras. Do cimo do telhado, os soldados israelitas, pouco mais velhos que ele, contra-atacam com as granadas de gás. Moussa, sem máscara, pára-as com os pés, pega nelas enquanto ainda libertam o químico e arremessa-as de volta. Ao vê-lo, perco grande parte do medo.
Nisto, vejo o Fontes passar de cãmara em riste. Tinha fugido uns metros para trás, escondera-se numa casa e voltara depois para recolher as imagens do conflito e do constante movimento de ambulâncias. Pomo-nos em posição para gravar um depoimento mas, nas nossas costas, ouvem-se duas explosões; desatamos a correr e perdemo-nos outra vez no meio do nevoeiro lacrimogéneo. Para piorar as coisas, levo com salpicos de um jacto de água podre, ao mesmo tempo que um jipe israelita é atingido em cheio por mais um cocktail-molotov.
Ao longo de mais duas horas, os movimentos repetem-se, naquilo que parece ser um jogo do gato e do rato. Umas dezenas de palestinianos aproximam-se e lançam pedras que ficam aquém do alvo pretendido, assim que ultrapassam a distância de segurança, o exército riposta, com as bombas de gás e a água de mau cheiro, os contestatários escondem-se, esperam uns minutos pela dissipação da nuvem tóxica e voltam a investir, escondidos atrás de um contentor e de duas paletas de plástico. Depois erguem-se, exibindo aos soldados e aos flashes das câmaras as mensagens de ordem pelo fim da ocupação militar e pela abertura da rua da discórdia. As acções são muitas vezes lideradas por um grupo de raparigas vestidas de forma tradicional. A razão é simples: o exército tem mais pudor em apontar para elas, pelo que podem garantir um significativo avanço territorial. Eu e o Fontes abrigamo-nos com elas em mais um beco – estão atrasadas porque têm de apanhar um autocarro para Jerusalém -, a prova de que a manifestação ultrapassa as fronteiras de Hebron. Enquanto esperamos, deparamo-nos com uma situação caricata: um soldado israelita, com máscara e M-16, perde-se no meio dos manifestantes com quem troca pedradas. Depois, retira-se a correr debaixo de uma grande chuva de calhaus.
Antes da desmobilização, ainda encontro Mansur, o rapaz que me arrancara do sufoco. Ele gostava de prosseguir os seus estudos em informática mas diz que não o consegue fazer em Hebron e que também não está autorizado a sair da cidade: “Até para irmos a Tel-Aviv ver a praia precisamos de uma autorização do exército israelita, que é muito difícil de obter”, explica. “Tenho 20 anos e ainda não tive um dia dez paz em Hebron. E é impossível tê-lo se não acabarmos com a ocupação militar de Israel”.
Temer partilha da mesma opinião. Três horas depois do início do protesto, faz contas ao prejuízo: “Houve 88 palestinianos feridos por problemas respiratórios, um deles é paramédico, e seis foram detidos pelos soldados israelitas”. Segundo a YAS, até ao fecho desta edição, ainda não sabem do paradeiro de um deles, o activista Fadi Quran. Por seu lado, o porta-voz do exército israelita queixou-se de “dois cocktails-molotov atirados sobre as forças da autoridade e um pneu incendiado, em duas frentes de manifestação violentas e ilegais”.
Quando entramos no táxi, sentimos um cheiro pútrido. A água da fossa lançada para desmobilizar a manifestação tinha-se entranhado nos nossos casacos, calças e mochilas. Só o Johnny escapara, por ter estado num ponto mais alto. Primeiro, o taxista quis pôr-nos imediatamente fora do carro. Só quando lhe explicamos o que tinha acontecido, aceita conduzir-nos, mas quase sempre com a cabeça de fora da janela. Tínhamos tido apenas a primeira introdução ao conflito israelo-palestiniano e já percebêramos que quanto mais metêssemos o nariz no tema mais lhe sentiríamos o cheiro a podre.




















































































