Trabalham das 5h até ao anoitecer, vivem com três euros por dia e bebem álcool etílico para esquecer os problemas. Em Sidi Bouzid, na Tunísia, onde Mohammed Bouazizi se imolou pelo fogo e começou a Primavera Árabe, os jovens queixam-se de que nada mudou desde a revolução. Ficou apenas o slogan: “Quando estás cansado, arde”.
Na noite de 16 de Dezembro de 2010, Mohammed Bouazizi, um vendedor ambulante de fruta, de 26 anos, jantou lablabi (cozido de grão, pão, pimentos, ovos e atum) com os amigos num restaurante barato. À refeição, disse-lhes que ia pedir um crédito de 300 dínares (150 euros) no mercado abastecedor para vender mais fruta e arranjar dinheiro para comprar uma carrinha, com que se pudesse meter no transporte de produtos agrícolas. E assim fez: ás 22h30m, Bouazizi entrou no grande armazém de Sidi Bouzid, comprou 150 euros de bananas, laranjas, maçãs e limões, disse que pagava quando vendesse tudo. Daí, caminhou pelas ruas de terra batida, frias e silenciosas, até ao bairro de Cité Nour (Bairro das Luzes), que como sempre estava às escuras. Entrou na sua casa minúscula, um paralelepípedo de cimento caiado de branco, disse boa noite à mãe e aos irmãos e ficou a ver um filme de acção até adormecer. Acordou pelas 07h30m, correu para o centro da cidade para receber a fruta, que dispôs com todo o cuidado sobre o seu carrinho de mão, empurrando-o de seguida para junto da praça de táxis adjacente ao mercado de legumes. Pouco passava das 10h30m dessa sexta-feira, quando Fadia Hamdi, 45 anos, uma polícia com a missão de fiscalizar o comércio, abordou Bouazizi.
Ninguém sabe ao certo o que se passou a seguir; o controlo e a corrupção policial eram tão coloquiais na Tunísia que ver a autoridade chatear um comerciante já não era digno de atenção. Até a História, neste momento, estava de costas voltadas. Por pouco tempo.
(Leia esta reportagem na íntegra na próxima edição do Semanário Sol)
















Cheira-me a uma crónica fora de série…
Ei-la! E como previa a(s) estória(s) é (são) fantástica(s)! A dureza da vida na Tunísia, e especificamente em Sidi Bouzid, está eximiamente retratada.
Talvez fosse boa idéia transpor o ensinamento de Bouazizi, mas com uma ligeira alteração – “quando estás cansado, arde-os!” ah!ah!ah!