O João está submetido a uma espécie de tortura – tem de acordar de meia em meia hora durante mais de 24h para passar 800 gigabites de imagens de um disco para o computador e do computador para outro disco. Vejo-o acordar com um movimento de máquina fabril, fazer dois clicks no rato, olhar para o monitor e cair de novo com a cabeça na almofada para mais de 30 minutos de sono inquieto.
A dois passos do hotel, ouve-se uma algazarra. Ali, também há quem saiba o que são noites mal dormidas. São cinquenta vendedores de rua que ocuparam um terreno devoluto no centro da cidade e exigem que o Governo o transforme num bazar, onde possam realizar legalmente os seus negócios. Hoje, festejam o parecer positivo do munícipio em relação às suas demandas. Os homens, cuja profissão é exactamente a mesma de Mohammed Bouazizi, o vendedor ambulante de frutas e legumes que se imolou pelo fogo na pequena cidade de Sidi Bouzid, criticam ferozmente a polícia por não lhes permitir fazer o único ofício que têm à sua mercê: “Sou casado, tenho três filhos e vendo ferramentas há 25 anos nos passeios”, diz Nouldi Othmani, 42 anos. “No mês passado, a polícia apreendeu-me a mercadoria e proibiu-me de vender na rua onde sempre trabalhei. O que posso fazer? Vim para aqui pedir que este espaço unitilizado possa ser explorado por mim e pelos meus colegas”.
Dezassete dos homens estiveram até hoje em greve de fome. Dormem em colchões rotos por cima do entulho, encostados às paredes pintadas com palavras de ordem; “Temos direito a trabalhar”. Um sexuagenário arrasta-se pelo baldio com a cara amassada pela violência policial. Homens de fato e gravata e mulheres de saia pelo joelho passam diante do estaleiro, indiferentes ao miserável que lava os pés com um mangueira junto ao passeio. “Eu estive preso durante o mês da revolução porque confrontei a polícia. Hoje pergunto-me o porquê desse sacrifício…Não mudou nada neste país”, diz Ali, 33 anos,deitado num dos colchões á sombra do muro. Está menos satisfeito que os outros porque, apesar de ter feito greve de fome, ainda não tem o seu nome contemplado na lista dos futuros proprietários de bancas do souk (mercado) da Baixa. “Nem posso ver os meus dois filhos porque quando estou com eles não tenho dinheiro nem para lhes comprar comida. Não foi para isto que mandámos embora o Ben Ali”.
A insatisfação face ao período pós-revolucionário tunisino não é geral. Em frente à murada do estaleiro dos vendedores, conheço Yahya Chaker, 21 anos, estudante de engenharia informática. Diz-me estar envolvido em diversos movimentos da sociedade civil e num grupo de debate que pretende recolher as melhores ideias de cada uma das facções políticas da Tunísia. “É normal que depois de uma ditadura de mais de cinquenta anos haja confrontos entre cidadãos com diferentes mentalidades”, explica. “A grande ameaça são os extremismos. Os nossos islamitas querem proibir o álcool e legalizar o casamento de um homem com quatro mulheres e a nossa esquerda quer anular a cultura islâmica. Não pode ser”. Assim, Yahya e um grupo de jovens tem feito o levantamento do que há de melhor na sharia (lei islâmica) e na esquerda liberal e eliminado tudo o que pensam não encaixar na sociedade tunisina. “A sharia tem dogmas que não fazem sentido aqui como cortar a mão a ladrões e a poligamia mas também tem coisas boas como a preservação dos valores islâmicos e a solidariedade social. Do lado da esquerda, podemos agarrar a liberdade de expressão mas não podemos sequer conceber a criação de um estado 100% laico”.
Deixo-me contagiar pela pluralidade de opiniões e derivo pelas ruas de Tunes ávido de falar com gente. Escolho regressar á medina. Diante de uma loja de calças de gangas, três amigos pedem-me para os fotografar. Zendaoiu Abdelhamid, 48 anos, passa a tarde a olhar para rabos de saias. Por isso, não concorda com a implementação de uma lei que obrigue as mulheres tunisinas a usar véu. “As nossas mulheres são como as europeias: gostam de mostrar aquilo que é bom”, diz. “O Ennahda (partido de corrente islâmica que venceu as primeiras eleições com 41% dos votos) vai ter de moderar as suas políticas senão corre o risco de enfrentar uma nova revolução”. Zendaoiu é apologista de um Governo liderado por um partido islâmico moderado, que defenda o Islão mas que dê liberdade aos tunisinos de fazer aquilo que querem. Já o seu amigo Zaher, um tipo divertido de 34 anos, que vende malas de couro na loja vizinha, prefere a esquerda: “Não conheço nenhuma democracia que misture política e religião”, defende, agitando uma pequena bandeira da Tunísia.. “A religião sobrepõe-se sempre á política e acaba por matar a democracia”. Quem não acredita na democracia é Mahrez, um salafista de 30 anos, que os meus novos amigos arrancam de uma loja de informática para falar comigo. “O Ennahda não trouxe nada de novo aos muçulmanos da Tunísia e até me custa admiti-los como um partido islâmico. Aliás, eu não ligo nenhuma à política porque é feita por homens e é impura”, explica. Pergunto-lhe o porquê da sua opinião, sabendo de antemão que os salafistas genuínos rejeitam todos os tipos de sistemas políticos que não a sharia: “A única lei que pode existir é a de Deus e está escrita no Corão”. Insisto; quero saber se concorda com os grupos de salafistas que têm andado a virar do avesso os bares que vendem cerveja na capital da Tunísia. “Os verdadeiros muçulmanos não fecham bares à força. Temos é de usar a palavra de Deus para fechar no coração dos tunisinos a tentação de beber cerveja”.
Como ontem, enfio-me nas ruelas da medina, e dou tantas voltas e reviravoltas que acabo por perder-me. Manal vem da universidade e conduz-me à avenida principal. Tem 19 anos e estuda Inglês. Diz-se apavorada pelo crescimento do movimento muçulmano e receia que o Ennahda promulgue leis que a obriguem a partilhar um futuro marido com mais três mulheres, a ficar em casa a tratar dos filhos e a tapar o seu penteado estilizado com qualquer espécie de tecido: “Se isso acontecer, fujo do país”, confessa. “Quero que a Tunísia se transforme num país como Itália, com uma mentalidade moderna e onde as mulheres possam ter os mesmos direitos que os homens”.
Apesar de adorar a Baixa de Tunes, faltava-me conhecer os arredores da cidade, bairros onde a pobreza leva os moradores a agarrarem-se à religião. Apanho um táxi e peço para me levarem a Cité El Zohour (Vila Flôr), a primeira região da capital a insurgir-se contra Ben Ali em Janeiro de 2011. El Zohour é um típico bairro árabe da classe trabalhadora, transbordante de vida e movimento, com mercados de verduras, cafés apinhados de homens a beber café e a jogar às cartas, talhos a céu aberto e pequenas lojas de comércio tradicional. As casas são quase todas térreas e há imenso lixo a esvoaçar, atravessando-se à frente das bolas das crianças que jogam nas ruas. Entre os quarteirões, há grandes desterros, onde cabras e indigentes procuram nos montes de detritos a refeição do dia.
Sento-me no café e travo amizade com Rached Foumini, 25 anos, que é nem mais nem menos que o filho do imam da mesquita de El Zohour. “O meu pai era membro da Irmandade Muçulmana e esteve preso durante 14 anos. Cresci sozinho apenas porque frequentava mesquitas e mostrava o seu desacordo com as políticas de Ben Ali”, conta. “Depois da Revolução, as pessoas aqui do bairro escolheram-no para ficar à frente da mesquita. Ele faz parte do Ennahda e eu, naturalmente, também votei neles”. Para Rached, técnico administrativo de uma companhia de telemóveis, o partido que venceu as eleições na Tunísia está distante do radicalismo com que o pintam: “Defendemos a liberdade religiosa, os direitos das mulheres e a democracia. Todos aqueles que pensam que os Irmãos Muçulmanos estão virados para o Islão radical estão muito enganados. Tanto aqui, como no Egipto, na Líbia e em todo o Mundo Árabe, vamos mostrar as virtudes do islamismo através da tolerância. Ou achas que queremos fazer à oposição aquilo que o antigo regime fez a pessoas como o meu pai?”.
Também o seu primo Bilel, 22 anos, com um bacharelato em mecânica de aviões, está do lado do governo. Não encontra trabalho há três anos mas acredita que com o tempo a Tunísia vai alcançar a prosperidade. Tanto ele, com o seu boné preto e óculos de sol, como Rached, de t-shirt raiada e calções veraneantes, têm um visual e um estilo de vida ocidental, mas tentam seguir à linha os ensinamentos do Corão. Por exemplo, Bilel diz-se um bom muçulmano, apesar de já ter experimentado drogas como a cocaína e a quetamina. “O Corão proibe o álcool mas não refere as drogas como pecado. Claro que não sou estúpido, sei que as drogas me fazem mal e que Deus não gosta que as use. Mas acredito que Deus me vai afastar delas e que me vou tornar num muçulmano perfeito”.
A conversa sobre religião acaba nos temas do costume; Rached e Bilel não compreendem como os cristãos podem acreditar que o sangue de Issa (Jesus Cristo) é vinho tinto e que Jesus é filho de Deus porque Deus não pode ter filhos. “Mesmo admitindo que Jesus é filho de Deus, achas que Ele deixaria o seu próprio filho morrer assim? Pregado a uma cruz, a esvair-se em sangue?”, pergunta Rached. Dou por mim a defender algo em que também não acredito, só para não ter de confessar que não acredito em nada.
Para terminar a visita à Vila Flôr, os primos, orgulhosos, levam-me à esquadra central da polícia: “Antes da revolução, nem podíamos passar à frente da esquadra e olhar para eles. Agora, estão de portas abertas e recebem toda a gente bem”. O chefe da esquadra diz-me que o bairro não tem tido grandes conflitos entre islâmicos e liberais, até porque os esquerdistas costumam frequentar mais o centro. “O que nos dá mais trabalho é o consumo e a venda de haxixe e os roubos, devido à miséria e ao desemprego”. A Tunísia tem hoje mais de um milhão de desempregados.
No quarto, o João, qual anti-herói da mitologia grega, continua a cumprir o castigo que parece ter-lhe sido ditado pelos deuses do Olimpo; a privação do sono já lhe cavara umas fundas olheiras e tem a voz tão sumida que mal entendo o que me diz.
Depois de comer um farto prato de ravioli com molho de três queijos por sete dínares (3,5 euros), saio para uma cerveja no bar Oscar’s. Planto-me num dos cantos e observo a clientela: há mulheres a beber vinho tinto, velhos boémios, rapazes de cabelo comprido e dois músicos que tocam uma música sobre Che Guevara. É em Tunes, mas podia ser num botequim parisiense. Esta é a esquerda intelectual tunisina – a tal franja altamente liberal da sociedade que jamais aceitará a islamização do país.
Num só dia, tantas caras e tantas ideias. Fico com a sensação de nas ruas, mais que no Parlamento, os tunisinos estão dispostos a transformar a mais genuína e pacífica das revoluções árabes num Estado de liberdade e tolerância.






















“Dou por mim a defender algo em que também não acredito, só para não ter de confessar que não acredito em nada. “… lindo hehehe
Enquanto o Joao trabalha tu andas a “veranear”, não é? – ih!ih!ih!
Texto com qualidade semelhante de anteriores, em que consegues encontrar-te com praticamente todas as facções! Boa!