Desde o início da viagem que conhecíamos as dificuldades para entrar em dois países – Síria e Argélia. Por motivos diferentes: na Síria porque estão em plena revolução armada e na Argélia porque o governo não quer que se arme uma revolução.
O obstáculo sírio fora ultrapassado. Chegara a hora da Argélia.
Entramos na sala de espera do Consulado, onde duas pessoas preenchem papelada. É um homem que aparenta ter quase 70 anos, de óculos e cabelo branco, e um de cabelo curto e olhos claros, na casa dos trinta. Surpreendentemente, ouvimo-los falar português. Olhamos com mais atenção e reconhecêmo-los: são Carlos Carneiro pai e Carlos Carlos Carneiro filho, os autores do mega-projecto de viagens “Nunca é Tarde”!
Quis o destino que os 39 mil quilómetros deles de Renaul 4L pelo continente africano e os nossos 12 mil pelo mundo árabe desembocassem ao mesmo tempo naquela salinha do Consulado argelino. Pai e filho estão há mais de um ano na estrada e preparam-se para dar entrada no último país da odisseia antes de chegarem a casa. “Contactámos a Embaixada de Portugal que emitiu um pedido de autorização especial aos argelinos. Deram-nos o visto na hora”. É uma excelente notícia. Principalmente, porque nos apercebemos nos minutos seguintes que de outra forma seria impossível consegui-lo: o Consulado emite vistos apenas a residentes em Tunes e a Embaixada da Argélia só concede acreditações jornalísiticas a profissionais que tenham base na Tunísia.
O timing não é o melhor; a Argélia tem eleições legislativas no próximo dia 10 de Maio e o presidente Abdelaziz Bouteflika quer evitar que qualquer contágio da febre revolucionária dos países vizinhos. A única esperança é persuadir o cônsul português a fazer connosco o que fizera com os homens do “Nunca é Tarde” – mediar a solicitação de visto. Contudo, os projectos não são iguais: “Não posso omitir aos meus colegas argelinos que vocês são jornalistas”, diz o vice-cônsul. “Além disso, o vosso trabalho é muito mais político, vocês são jovens, não têm a idade do Sr. Carlos, têm o passaporte cheio de carimbos de países perigosos para a Argélia…não vai ser fácil”.
Sabia perfeitamente que a referência à nossa profissão podia arruinar qualquer hipótese de sucesso. Tento convencer o diplomata a fechar os olhos a esse pequeno pormenor, em vão. “Com o vosso equipamento todo como vão esconder que são jornalistas”, diz. E com razão. Depois, aponta-nos para a barba por fazer e para a minha t-shirt com o logo da Estrada da Revolução estampado: “Os argelinos vão pensar que vocês querem apoiar a revolução no país”, comenta. “Não se preocupe. A barba faz-se e a t-shirt muda-se. Não será por aí que teremos problemas”, respondo. Abandonamos a Embaixada portuguesa com duas certezas: que os diplomatas portugueses iam dar o seu melhor e que o seu melhor podia perfeitamente não chegar. Sinto-me um aperto no estômago; ao segundo dia em Tunes, auguro que nos estão a montar um cerco, uma forma de nos prender aqui. Espero estar enganado.
Pela tarde, visito o local mais apertado de Tunes – a medina. Meto-me numa rua estreita e calcorreio as ruelas labirínticas como se andasse por cima do dorso de uma serpente. Imediatamente, um carteirista tenta abrir-me a mala; sorrio, deixo-o passar e fico a observá-lo enquanto ele escolhe sorrateiramente a próxima vítima. Há sempre um Ali Babá na medina. É algo que faz parte da envolvência.
Entalado entre a corrente humana que desliza pela rua apertada e as lojas de candeeiros, tento captar toda a efervescência da medina; os pregões vivaços, os empurrões apressados, o cheiro a haryssa (picante tunisino), as velhas madrassas, as elegantes mesquitas, os tapetes coloridos, os cachimbos, os puffs de couro, os coloridos vestidos das mulheres com brilhantes incrustados. Não admira que em 1979, a UNESCO tenha inscrito a medina de Tunes na lista de locais Património da Humanidade.
Subo a um terraço e reparo como de cima a medina parece uma floresta branca de antenas parabólicas. No centro, destaca-se a mesquita com o nome mais engraçado do Mundo: a mesquita de Ez-Zotouna (Mesquita da Oliveira), com o seu minarete resplandescente. A medina tornou-se numa das cidades mais importantes do mundo árabe desde o século VII, altura da chegada dos árabes à Tunísia, até ao século XVI, quando foi conquistada pelos Otomanos. Antes, a Tunísia, com a sua capital na lendária Cartago, já tinha estado nas mãos dos Fenícios e dos Romanos, que se bateram por ela nas sanguinárias guerras púnicas, com o destemido Aníbal, o comandante cartaginês, a fazer a vida negra ao Império de Roma. Pelo meio, os Vândalos, e depois dos Otomanos, os franceses. Tunes é uma cidade cosmopolita, uma porta aberta para o Mundo e isso nota-se tanto na arquitectura da sua capital como na mentalidade dos tunisinos.
Sento-me a beber uma limonada junto a uma loja de marroquinaria. O comerciante, um jovem chamado Sadok, diz-se triste com o actual momento do país: “Como praticamente não há polícia, dão-se muitas confusões, o que leva a que os turistas não venham à Tunísia. Pouco a pouco, eles começam a aparecer, mas qualquer comerciante da medina tem tido prejuízo com a falta de turistas”. Na Tunísia, como no Egipto, tem sido o sector turístico que mais tem sofrido com o processo de transição. Na minha perspectiva, os turistas não têm o que temer na Tunísia; exceptuando uns rolos de arame farpado a isolar postos policiais em Tunísia, uns checkpoints pacíficos na estrada e as discusões sobre política diante dos cafés, nada denuncia que a Tunísia está a atravessar um decisivo processo de transição política. E, claro, o país continua lindíssimo.
Saio das muralhas da medina, encontro-me com o João e entramos juntos no Teatro Municipal, que apresenta um ciclo de documentários sobre a Primavera Árabe. A entrada é gratuita. O cinema tem estado na ordem do dia na Tunísia. Tudo porque em Outubro último, a poucos dias das eleições, o canal privado de televisão Nessma emitiu o filme Persépolis, um filme animado premiado em Cannes que mostra a revolução iraniana de 1979, com a islamização do país, aos olhos de uma menina. O objectivo da cadeia era obviamente alertar os tunisinos para os perigos de uma vitória islâmica nas eleições, que viria a acontecer, mas o que na verdade inflamou a raiva dos fiéis foi uma breve sequência do filme em que Alá aparece desenhado como um velho barbudo – um haram (pecado) no dogma muçulmano. No dia seguinte, 300 salafistas tentaram incendiar a sede do canal. Registaram-se vários confrontos entre radicais islâmicos e defensores da liberdade de expressão. Finalmente, já com o Ennahda (representante dos Irmãos Muçulmanos na Tunísia) no poder, o patrão da televisão, Nabil Karaoui, acabou por ser multado em quase 1000 euros por perturbação da ordem pública e violação dos bons costumes. Há um mês, tinha sido condenado pela justiça popular: a sua casa foi alvo de um atentado sem vítimas.
O filme de hoje é Tous Brulês(Todos Queimados), de Leila Chaibi, que foca os dramas e as frustrações da juventude tunisina, antes e depois da revolução. Conta com relatos angustiantes de rapazes que arriscaram as suas vidas para tentar chegar à Europa num barco a remos, das mães que perderam os filhos nessa travessia e com uma divertida discussão familiar entre apoiantes dos islamitas e apoiantes liberais no pós-revolução. Essa cena, particularmente, capta-me a atenção: a mãe, de cabelo solto, pergunta à filha, de vinte e poucos anos, porque usa o véu. Ela diz-lhe que a Tunísia obteve a democracia e que agora já se pode rezar livremente. Isto sustenta algo de que me tenho vindo a aperceber: ser islamita está na moda no seio da juventude. São os efeitos normais de uma revolução recente. Nas revoluções dos anos 60 e 70, quando os comunistas eram perseguidos e presos, os jovens adquiriam a sua identidade revolucionária seguindo o caminho de Marx e Lenine. No Médio Oriente e no Magreb, ditadores como Kadhafi, Ben Ali e Mubarak oprimiram durante décadas a livre prática do culto islâmico, prendendo os Irmãos Muçulmanos, dispersando quem rezasse na mesquita durante a madrugada, abominando o uso do véu. A consequência está à vista: hoje seguir o Corão é tão rebelde e revolucionário como ter o Manifesto Comunista na mesa de cabeceira.
Os que rejeitam esta tendência, que são muitos, fazem tudo para a anular ou então tentam sair do país. Mas não é fácil – as portas da Europa estão fechadas e os países vizinhos estão numa situação ainda mais instável. Para quem receia que a Tunísia secular desabe em ruínas como Persépolis, o cerco aperta. Como para nós, que ainda não encontrámos a solução para furar a muralha argelina.





















já me tinha aprecebido dessa tendência no mundo islâmico: a religião como rebeldia. estranhas as voltas que o mundo dá.
Vamos lá ver o que resulta da vossa “teimosia”! Para os Carneiros foi fácil! ( é compreensível).