Sidi Bou Said, Cartago e Marsa constituem a correnteza de subúrbios finos na zona costeira de Tunes. São a Cornige tunisina, uma marginal de fazer corar de inveja muitas outras na Europa, Sidi Bou Said fica empoleirada num monte, com vista para o Golfo de Tunes e para as montanhas de 600 metros da península de Cap Bon. É uma vista privilegiada e confortável, uma tela de diferentes cores dominada pelo branco das casinhas espalhadas pela planície. A única semelhança com as encostas calvas do sul, são os túmulos de cúpula branca dos homens santos que estão espalhados pela região. O próprio Sidi Bou Said era um homem santo (Sidi, em árabe, quer dizer “Santo” ou “mestre”) que após uma viagem a Meca no século XII se instalou neste monte, enveredando por uma vida de asceta muito respeitado. Lá longe, 250 quilómetros a sul, outro Sidi, o Bouzid, fazia um percurso similiar. 900 anos depois, um episódio histórico ligaria as duas regiões.
A família de Mohammed Bouazizi, o vendedor de fruta de 26 anos que se imolou pelo fogo em Dezembro de 2010 dando origem ao movimento revolucionário na Tunísia, mudou-se da cidade agrícola do sul da Tunísia para Marsa, na região de Sidi Bou Said. A mãe e os irmãos do suicida não resistiram à pressão dos vizinhos e dos jornalistas e, depois de consumada a revolução, decidiram trocar de ares. Muita gente em Sidi Bouzid não lhes perdoou: dizem que o ex-Presidente Zine Ben Ali, acossado pelos crescentes tumultos em Sidi Bouzid, silenciou a família de Bouazizi com o pagamento de uma quantia astronómica de dinheiro. O valor não é conhecido – o que é certo é que três dias após o acto desesperado do seu filho a mãe retirou-se da acção de luta contra o governo.
Dentro de um táxi, procuramos a nova casa dos Bouazizi, em Marsa. Perguntamos a casais ricos que passeiam o cão e fazem jogging, a polícias e a jardineiros de grandes mansões – ninguém conhece a morada. Finalmente, um mecânico indica-nos que é algures atrás do liceu. Num ápice, damos com Mannoubia Bouazizi, a mãe de Mohammed, no quintal da sua nova casa, em auxílio a um homem que lixa e pinta de branco os muros. Mannoubia é uma senhora simples, com os olhos de uma côr ainda mais marinha do que o lenço que lhe cobre os cabelos. Dois dos irmãos de Mohammed também estão em casa; a irmã, de cabelos negros e olhos castanhos grandes, tem todas as caracterísiticas da beleza árabe; o irmãozinho fita-nos com um olhar tímido. A casa, que em Sidi Bouzid nos tinham dito ter uma dimensão palaciana, é na verdade bastante simples, com dois pisos baixos, um pátio e uma garagem, embora deixando a anos-luz a espelunca minúscula em que viviam em Sidi Bouzid. Depois de alguma insistência, a mãe da Primavera Árabe concede-nos a entrevista; está mais preocupada com o asseio da casa do que propriamente com os direitos de imagem.
A 17 de Demzembro de 2010, a senhora que tenho à minha frente perdeu o filho mais velho, aquele que através do seu trabalho, que nunca lhe dava cerca de 140 dínares por mês (70 euros), sustentava uma família de oito. Mohammed suicidou-se e, em condições normais, isso seria sinónimo de uma enorme tragédia para a família Bouazizi, pois o Islão coloca o suicídio na lista de haram (pecados) – Mohammed seria um apóstata. Contudo, não foi um suicídio como os outros. O acto desesperado de Mohammed, ateando fogo ao seu próprio corpo, desencadeou uma revolta em Sidi Bouzid seguida de uma reacção em cadeia em todo o Mundo Árabe; em pouco mais um ano, três ditadores caíram, outros enfrentam fortes acções de contestação, fala-se pela primeira vez de liberdade e democracia e Bouazizi conquistou um lugar na história. Não que ele tivesse noção da dimensão que a sua morte viria a adquirir, longe disso; foi somente um acto desesperado de alguém que perdera todas as ilusões de futuro. Para os tunisinos, fora a gota de água e eles próprios encarregaram-se de transmitir aos outros árabes que já não havia necessidade de ter medo. Para a mãe, fica o orgulho, mas não há revolução que lhe consiga apagar da memórias as chamas que consumiram o corpo de Mohammed.
Que género de homem era Mohammed Bouazizi?
Mohammed perdeu o pai aos três anos, com um enfarte, e desde criança que tentou preencher o seu lugar. Era uma criança tímida com um grande coração, amava a família e os amigos, que também o amavam. Era bom aluno, tinha ambição de chegar à universidade mas não tínhamos dinheiro para pagar os estudos. Ele próprio decidiu começar a trabalhar.na venda de fruta para poder dar aos irmãos mais novos a hipótese de estudarem, algo que ele não tinha podido alcançar. O seu maior sonho era ganhar dinheiro para ver-me tranquila em casa, sem necessidade de trabalhar, porque me dizia sempre que eu tinha trabalhado tanto para ele que chegara a hora de me retribuir.
No dia 17 de Dezembro, Fadia Hamdi, uma polícia encarregue de fiscalizar o comércio, terá pedido a Mohammed Bouazizi a licença para vender fruta fora do mercado. Ele não a tinha e Fadia confiscou-lhe o carrinho de mão, a balança e toda a mercadoria. Mohammed ficara sem nada e, para mais, endividado perante o crédito que tinha pedido para comprar a fruta. Há várias versões do momento em que a vida de Fadia se cruzou com a de Mohammed para alterar o rumo da história do Mundo; a família de Bouazizi e vários populares dizem que a polícia lhe deu uma estalada e que os seus capangas lhe deram uma sova; Fadia nega qualquer agressão a Bouazizi e o tribunal deu-lhe razão – a 19 de Abril de 2011 foi libertada depois de três meses detida numa cela com 16 mulheres em Gafsa.
Bouazizi suicidou-se por ter perdido tudo ou por ter levado uma estalada de uma mulher?
Para o povo do sul da Tunísia, uma mulher que bate num homem é a maior das humilhações. Jamais se tinha visto uma coisa assim. O Mohammed já tinha 26 anos, o que já é uma idade avançada para trabalhar na venda de fruta, pelo que a polícia nunca o deixava em paz. Nesse dia, ele perdeu a paciência. Já andava farto da pobreza e da dureza do trabalho e, ainda por cima, nem o deixavam trabalhar. Mesmo que a mulher não lhe tenha batido, os seus ajudantes bateram-lhe e ele chorou em frente a toda a gente. Depois, foi três vezes à esquadra e duas vezes ao Palácio do Governador, mas ninguém o quis ouvir. Ele fartou-se de tudo. Nesse momento, enlouqueceu e suicidou-se. Era a única forma de morrer de cabeça erguida. Felizmente, as pessoas de Sidi ouzid não deixaram a sua morte cair no esquecimento. Fez com que percebessem os anos de opressão policial nos regimes de Ali e Bouguiba. Para todos, era a gota de água. Ninguém admite que uma muher bata num homem. E foi isso tudo que provocou a raiva da população.
Mannoubia enxuga as lágrimas. Inundam-lhe a memória os acontecimentos que se seguiram à morte de Mohammed. Em Sidi Bouzid, todos lhe estão gratos pela conquista da dignidade. Porém, queixam-se de que pouco mudou depois da revolução e que continuam a ter uma vida pobre e sem esperanças de prosperidade.
Tem receio que a morte do seu filho não seja honrada pelos futuros governantes da Tunísia?
A morte do meu filho fez com que tantos jovens inocentes da sua idade tivessem saído da prisão e com que as pessoas pudessem finalmente falar dos seus problemas e criticar livremente o governo. Isso já foi uma vitória. Mas é verdade é que pouco mudou na Tunísia e, especialmente, em Sidi Bouzid. Há quem tenha agora uma vida mais dura que antes da revolução. Toda gente continua à procura dos seus direitos e ninguém sente que alguma coisa de significativo tenha mudado. Continuamos sem dinheiro e a única boa é que podemos falar. Há outro problema: a Tunísia ainda não não deu nada a quem fez a Revolução ou a quem tenha perdido algo pela revolução. Até a nossa família; dizem que ficámos ricos mas estamos nesta casa a pagar renda, ninguém nos deu nada. Espero que não se esqueçam do sangue dos nossos mártires.
O que acha que Mohammed Bouazizi sentiria se pudesse voltar a este Mundo e ver as consequências do seu suicidio?
Para já, acho que o meu filho foi directamente para o Paraíso. E creio que terá de sentir-se orgulhoso porque sacrificou a vida em nome da dignidade e da liberdade. Sei que quando o reencontrar no Paraíso, ele vai estar feliz.
Deixamos a casa dos Bouazizi, passando pelas ruínas de Cartago e pelos casarões da família de Leila Trabelsi, a esposa do antigo ditador, hoje vandalizadas e revestidas de palavras de fúria. Em comum têm o destino de todos os Impérios: ascensão e queda. Cartago destruída pelas espadas romanas, as casas dos Trabelsi pelas mãos do povo tunisino.
Reflicto na mescla de sensações que a mãe de Bouazizi deve sentir; tinha uma vida pacata, longe dos holofotes da fama e, de repente, tornou-se numa das pessoas mais solicitadas do país. De cada vez que ligar a televisão, as notícias sobre as revoluções árabes relembrar-lhe-ão o seu filho e o seu nome será citado por muitos anos. Para o mundo, será apenas mais um nome, uma figura histórica, para ela será mais que isso, será um filho que se queimou, será carne amamentada transformada em cinzas. O duelo entre a dor e o orgulho jamais lhe dará descanso.
















Que crónica tão marcante! Soberba, rapazes!
Muito bom. A origem de tudo…