Porta Fechada – Tunes, Tunísia, 2 e 3 de Maio de 2012

Há um rato no quarto! Estou a comer o pequeno-almoço quando vejo um pequeno roedor fugir a velocidade supersónica para debaixo do armário. Apareceu em boa-hora. O gerente do Hotel Garmuda, de Sidi Bouzid, fica tão chocado com o nosso relato que nos troca para a “suíte” – um quarto maior, com duas casas de banho interiores e quatro camas. Pena que também na “suíte” haja um ratinho, mas desta vez ignoramo-lo.

Pode ser que se vá embora na nossa ausência; precisamos de voltar a Tunes para tentar obter o visto para a Argélia. A Embaixada de Portugal preparara-nos uma carta de requerimento extraordinário de visto, uma vez que mediante a lei apenas os residentes em Tunes podem pedir na Embaixada da Argélia em Tunes o visto para o país vizinho. Todavia, não é garantido que os diplomatos argelinos aceitem, uma vez que já sabem que somos jornalistas, uma profissão pouco apreciada pelo regime argelino.

Na estação de Sidi Bouzid, não encontramos carrinhas para Tunes. Chegam mais tarde, dificultando-nos a missão de chegar a tempo às embaixadas. Felizmente, o nosso condutor, um homem castiço, baixinho e de bigode, que automaticamente apelidamos de “Schumacher”, mete o prego a fundo. Meia hora depois é obrigado a travar: a população de Jerma, uma pequena vila, bloqueia a estrada com pedras e troncos de árvores em protesto contra a qualidade da água canalizada: “Há 17 anos que só podemos beber água engarrafada”, diz um manifestante, no meio da balbúrdia. “A água corrente provoca-nos doenças e estraga-nos os dentes”. Há pouco mais de um ano, antes da revolução, seria inimaginável a aldeia de Jerma cortar a estrada à revelia das autoridades – tal ousadia custaria-lhes seguramente várias bastonadas policiais, uns quantos aprisionamentos e quem sabe algumas vidas. Hoje, os populares enfrentam os polícias e os militares, que têm nitidamente relutância em intervir de uma forma agressiva. Quando a democracia triunfar e entregar de novo à polícia o poder de defendê-la, por vezes cegamente, os tunisinos irão sentir saudades do período pós-revolucionário, em que era proíbido proíbir.

Quem não vai em cantigas é o sabichão do “Schumacher”, que nos manda trocar de carrinha e, numa mais adaptada para todo-o-terreno, contorna o corte da estrada pelo mato, por um atalho cheio de lombas, com uma condução de fazer inveja a qualquer adepto de passeios de jipes.

A nossa carrinha é divertida: além do porreiro do condutor, viaja Orfa, uma técnica de anestesia de véu e unhas das mãos vermelhas que regressa ao hospital da capital depois de uns dias na terra, Imad, um militar a caminho do quartel que sabe imenso de futebol, ao ponto de conhecer jogadores do Paços de Ferreira e do Vit. Guimarães e Bilel, que estuda comunicação em Tunes. Rimo-nos bastante com as diferenças culturais entre europeus e árabes e discutimos temas religiosos e políticos. Imad, por exemplo, gosta de Bin Laden e Hitler. Pergunto-lhe a razão: “Ambos lutaram contra a América”, responde. É uma opinião comum no mundo muçulmano principalmente da parte de pessoas que não tiveram a oportunidade de estudar; Hitler exterminou judeus e Bin Laden matou americanos, logo são amigos dos muçulmanos. Tento explicar ao militar que nem Hitler, nem Bin Laden, nem os soldados americanos são boas peças. Peço-lhe para não ser faccioso e para não gostar de qualquer pessoa que mate inocentes. Creio que ele entende a minha mensagem. Mas não vai mudar de opinião. Nem eu mudo a minha.

Saímos rapidamente no centro de Tunes; há uma feira bizarra, com centenas de gaiolas com pássaros de todas as cores e uma multidão ruidosa a leiloar a melhor espécie. Entramos num táxi e indicamos-lhe o caminho da Embaixada Portuguesa, onde o vice-cônsul já nos aguarda. A carta está bem redigida. Apela à sensibilidade das autoridades argelinas para a nossa intenção de visitar a Argélia, com o objectivo de fazer uma reportagem sobre música e, de seguida, metermo-nos num barco em Oran rumo a Espanha, protegendo o bom nome da Argélia no Mundo e compremetendo-nos a não nos metermos nas eleições parlamentares, a decorrer no próximo dia 10 de Maio. Claro que tudo isto é uma tremenda mentira; pretendemos entrevistar um jovem rapper que através da música critica o autoritário regime político de Bouteflika e posteriormente avançar de autocarro para o temido sul, a fim de chegar aos campos de refugiados sahaurís, no deserto, a 2000km da capital. Não contem a ninguém…mas é de loucos! A carta só tem um senão – denuncia que somos jornalistas.

Já não apanhamos a Embaixada argelina aberta e aproveitamos para beber uma cerveja no Bar jamaica, no terraço do hotel El-Hana Internacional, com vista desimpedida para toda a cidade e até ao Mediterrâneo. Conhecemos três amigos novos: Manal, Arbia e Youssef. As duas raparigas estudam juntas na Universidade de Tunes – Manal é do sul e Arbia de uma aldeia na fronteira com a Argélia. Diz-nos que, se quisermos, convence os guardas fronteiriços a deixar-nos entrar sem visto na Argélia. Mas e se nos apanharem lá dentro? “Bem, têm de andar escondidos”, responde. Dizemos-lhe que já tivemos a nossa dose de clandestinidade na Síria e que na Argélia deve ser dez vezes mais difícil escapar aos controlos policiais. Depois, Youssef leva-nos até Gamarthe, a 15 quilómetros, no seu velho Fiat vermelho modificado, com néones roxos e assentos de competição. “Vivo para este carro”, diz o rapaz, estudante de gestão, cuja família é unha e carne com a família Kadhafi. “O primo do Kadhafi ficou em minha casa quando escapou da Líbia. São boas pessoas que gostam do seu povo. Foram traídos por eles, pelos Estados Unidos e a França. Mas cometeram um erro terrível. A Líbia sem Kadhafi vai entrar em guerra civil”. Até chegar ao bar, Youssef pára umas três vezes para ver o nível do óleo. Trata do carro como se fosse uma namorada.

O bar, junto à praia, é bastante aborrecido, com a batida electrónica a soar exageradamente alta e sem bom gosto. Contudo, torna-se engraçado falar de sexualidade e de igualdade de géneros com Manal e Arbia, umas das poucas raparigas que conhecemos com abertura de mentalidade para tal. Youssef ouve, mas não se mete no assunto. Manal, 19 anos, diz que a virgindade é sagrada para as mulheres árabes até ao momento do casamento e que serão rejeitadas pelo marido se desrespeitarem esta tradição. “Ouvi dizer que os chineses estão a inventar uma cirurgia para recuperar a virgindade mas não sei quando vai chegar à Tunísia”, diz Manal, com uma admirável inocência. O João pergunta-lhe se acha que todas as raparigas solteiras no bar são virgens. “Não sei, mas julgo que a grande maioria é”, diz.

É caricata a forma como o conservadorismo religioso moldou a sexualidade dos jovens árabes; os rapazes vão desde jovens às prostitutas, metem-se com mulheres casadas, não virgens, mas sabem de antemão que as raparigas solteiras, da sua idade, só estão disponíveis para amar com promessa de matrimónio. O casamento também tem as suas particularidades. Primeiro, é incrivelmente caro: o noivo tem de ter no mínimo 30 mil euros para pensar na cerimónia, dividido entre o ouro oferecido à família da noiva, as ovelhas sacrificadas para o banquete, o salão de festas e o agrupamento musical. Assim, o amor no mundo árabe vive sob o signo do cifrão. “Aqui só faz amor quem tem bons carros, bons fatos e uma pipa de massa”, disseram-nos vários rapazes ao longo da viagem. Os que não têm dinheiro, estão expostos a situações humilhantes; conhecemos vários que namoraram durante anos com uma mulher, preparavam-se para casar, quando os sogros decidiram que as filhas deviam casar-se com um homem de mais posses. E isto é aceite. Não há nada que os humilhados possam fazer para contrariar a vontade familiar. Para as mulheres, é um sufoco ainda maior. Nos locais mais conservadores, casam-se com quem a família ordenar e mesmo nos locais mais liberais, como Tunes, poucas são as que publicamente dão largas à sua paixão – são obrigadas a fecharem-se em casa, sussurando juras de amor ao telemóvel ou escrevendo à luz do monitor no chat do Facebook. Mesmo nas redes sociais, as mulheres árabes não se mostram – a sua fotografia é normalmente uma flôr, um animal ou um desenho animado.

De manhã, a ansiedade desperta-nos. Chegara a hora de conhecer o parecer da Argélia. Na sala de espera do Consulado, estão em mudanças, e eu enervo-me com o som do arredar dos sofás e da mesinha das revistas. Sou o único sentado num sofá, imóvel, com três argelinos a andarem com a mobília à minha volta, um barulho terrível, e eu cada vez mais tonto e impaciente. Depois, chega um tipo sudanês com passaporte inglês – pede o visto para a Argélia pela segunda vez mas, de repente, o cônsul aparece na sala e corre com ele num instante. A Argélia intimida-me.

O mau pressentimento confirma-se. A secretária do cônsul devolve-nos a carta com uma expressão de pesar: “Tenho muita pena mas o cônsul diz que se aproximam as eleições e que é um momento delicado para vos passar um visto extraordinário. Além disso, vocês são jornalistas”. Rogamos-lhe uma segunda análise, prometemos-lhe tino, juramos que só queremos passar em trãnsito e apanhar um barco para Espanha. Em desespero, qual Galileu, rejeitamos a nossa profissão: “Somos meros viajantes”, aldrabamos, sabendo que uma mera pesquisa no Google mostraria corpos na Síria, revolucionários na Líbia e salafistas no Egipto. Tudo o que a Argélia quer evitar. Nada a fazer: o cônsul não deixa entrar jornalistas por terra antes das eleições. Regressamos a Sidi Bouzid, com o nariz dorido pela porta que se fechara na nossa cara, mas com o cérebro sintonizado numa forma de dar a volta à contrariedade.

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2 Responses to “Porta Fechada – Tunes, Tunísia, 2 e 3 de Maio de 2012”

  1. antónio carrasco says:

    Foi pena, mas paciência “amores”!

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