Porta Fechada – Tunes, Tunísia, 2 e 3 de Maio de 2012

May 28th, 2012 by admin

Há um rato no quarto! Estou a comer o pequeno-almoço quando vejo um pequeno roedor fugir a velocidade supersónica para debaixo do armário. Apareceu em boa-hora. O gerente do Hotel Garmuda, de Sidi Bouzid, fica tão chocado com o nosso relato que nos troca para a “suíte” – um quarto maior, com duas casas de banho interiores e quatro camas. Pena que também na “suíte” haja um ratinho, mas desta vez ignoramo-lo.

Pode ser que se vá embora na nossa ausência; precisamos de voltar a Tunes para tentar obter o visto para a Argélia. A Embaixada de Portugal preparara-nos uma carta de requerimento extraordinário de visto, uma vez que mediante a lei apenas os residentes em Tunes podem pedir na Embaixada da Argélia em Tunes o visto para o país vizinho. Todavia, não é garantido que os diplomatos argelinos aceitem, uma vez que já sabem que somos jornalistas, uma profissão pouco apreciada pelo regime argelino.

Na estação de Sidi Bouzid, não encontramos carrinhas para Tunes. Chegam mais tarde, dificultando-nos a missão de chegar a tempo às embaixadas. Felizmente, o nosso condutor, um homem castiço, baixinho e de bigode, que automaticamente apelidamos de “Schumacher”, mete o prego a fundo. Meia hora depois é obrigado a travar: a população de Jerma, uma pequena vila, bloqueia a estrada com pedras e troncos de árvores em protesto contra a qualidade da água canalizada: “Há 17 anos que só podemos beber água engarrafada”, diz um manifestante, no meio da balbúrdia. “A água corrente provoca-nos doenças e estraga-nos os dentes”. Há pouco mais de um ano, antes da revolução, seria inimaginável a aldeia de Jerma cortar a estrada à revelia das autoridades – tal ousadia custaria-lhes seguramente várias bastonadas policiais, uns quantos aprisionamentos e quem sabe algumas vidas. Hoje, os populares enfrentam os polícias e os militares, que têm nitidamente relutância em intervir de uma forma agressiva. Quando a democracia triunfar e entregar de novo à polícia o poder de defendê-la, por vezes cegamente, os tunisinos irão sentir saudades do período pós-revolucionário, em que era proíbido proíbir.

Quem não vai em cantigas é o sabichão do “Schumacher”, que nos manda trocar de carrinha e, numa mais adaptada para todo-o-terreno, contorna o corte da estrada pelo mato, por um atalho cheio de lombas, com uma condução de fazer inveja a qualquer adepto de passeios de jipes.

A nossa carrinha é divertida: além do porreiro do condutor, viaja Orfa, uma técnica de anestesia de véu e unhas das mãos vermelhas que regressa ao hospital da capital depois de uns dias na terra, Imad, um militar a caminho do quartel que sabe imenso de futebol, ao ponto de conhecer jogadores do Paços de Ferreira e do Vit. Guimarães e Bilel, que estuda comunicação em Tunes. Rimo-nos bastante com as diferenças culturais entre europeus e árabes e discutimos temas religiosos e políticos. Imad, por exemplo, gosta de Bin Laden e Hitler. Pergunto-lhe a razão: “Ambos lutaram contra a América”, responde. É uma opinião comum no mundo muçulmano principalmente da parte de pessoas que não tiveram a oportunidade de estudar; Hitler exterminou judeus e Bin Laden matou americanos, logo são amigos dos muçulmanos. Tento explicar ao militar que nem Hitler, nem Bin Laden, nem os soldados americanos são boas peças. Peço-lhe para não ser faccioso e para não gostar de qualquer pessoa que mate inocentes. Creio que ele entende a minha mensagem. Mas não vai mudar de opinião. Nem eu mudo a minha.

Saímos rapidamente no centro de Tunes; há uma feira bizarra, com centenas de gaiolas com pássaros de todas as cores e uma multidão ruidosa a leiloar a melhor espécie. Entramos num táxi e indicamos-lhe o caminho da Embaixada Portuguesa, onde o vice-cônsul já nos aguarda. A carta está bem redigida. Apela à sensibilidade das autoridades argelinas para a nossa intenção de visitar a Argélia, com o objectivo de fazer uma reportagem sobre música e, de seguida, metermo-nos num barco em Oran rumo a Espanha, protegendo o bom nome da Argélia no Mundo e compremetendo-nos a não nos metermos nas eleições parlamentares, a decorrer no próximo dia 10 de Maio. Claro que tudo isto é uma tremenda mentira; pretendemos entrevistar um jovem rapper que através da música critica o autoritário regime político de Bouteflika e posteriormente avançar de autocarro para o temido sul, a fim de chegar aos campos de refugiados sahaurís, no deserto, a 2000km da capital. Não contem a ninguém…mas é de loucos! A carta só tem um senão – denuncia que somos jornalistas.

Já não apanhamos a Embaixada argelina aberta e aproveitamos para beber uma cerveja no Bar jamaica, no terraço do hotel El-Hana Internacional, com vista desimpedida para toda a cidade e até ao Mediterrâneo. Conhecemos três amigos novos: Manal, Arbia e Youssef. As duas raparigas estudam juntas na Universidade de Tunes – Manal é do sul e Arbia de uma aldeia na fronteira com a Argélia. Diz-nos que, se quisermos, convence os guardas fronteiriços a deixar-nos entrar sem visto na Argélia. Mas e se nos apanharem lá dentro? “Bem, têm de andar escondidos”, responde. Dizemos-lhe que já tivemos a nossa dose de clandestinidade na Síria e que na Argélia deve ser dez vezes mais difícil escapar aos controlos policiais. Depois, Youssef leva-nos até Gamarthe, a 15 quilómetros, no seu velho Fiat vermelho modificado, com néones roxos e assentos de competição. “Vivo para este carro”, diz o rapaz, estudante de gestão, cuja família é unha e carne com a família Kadhafi. “O primo do Kadhafi ficou em minha casa quando escapou da Líbia. São boas pessoas que gostam do seu povo. Foram traídos por eles, pelos Estados Unidos e a França. Mas cometeram um erro terrível. A Líbia sem Kadhafi vai entrar em guerra civil”. Até chegar ao bar, Youssef pára umas três vezes para ver o nível do óleo. Trata do carro como se fosse uma namorada.

O bar, junto à praia, é bastante aborrecido, com a batida electrónica a soar exageradamente alta e sem bom gosto. Contudo, torna-se engraçado falar de sexualidade e de igualdade de géneros com Manal e Arbia, umas das poucas raparigas que conhecemos com abertura de mentalidade para tal. Youssef ouve, mas não se mete no assunto. Manal, 19 anos, diz que a virgindade é sagrada para as mulheres árabes até ao momento do casamento e que serão rejeitadas pelo marido se desrespeitarem esta tradição. “Ouvi dizer que os chineses estão a inventar uma cirurgia para recuperar a virgindade mas não sei quando vai chegar à Tunísia”, diz Manal, com uma admirável inocência. O João pergunta-lhe se acha que todas as raparigas solteiras no bar são virgens. “Não sei, mas julgo que a grande maioria é”, diz.

É caricata a forma como o conservadorismo religioso moldou a sexualidade dos jovens árabes; os rapazes vão desde jovens às prostitutas, metem-se com mulheres casadas, não virgens, mas sabem de antemão que as raparigas solteiras, da sua idade, só estão disponíveis para amar com promessa de matrimónio. O casamento também tem as suas particularidades. Primeiro, é incrivelmente caro: o noivo tem de ter no mínimo 30 mil euros para pensar na cerimónia, dividido entre o ouro oferecido à família da noiva, as ovelhas sacrificadas para o banquete, o salão de festas e o agrupamento musical. Assim, o amor no mundo árabe vive sob o signo do cifrão. “Aqui só faz amor quem tem bons carros, bons fatos e uma pipa de massa”, disseram-nos vários rapazes ao longo da viagem. Os que não têm dinheiro, estão expostos a situações humilhantes; conhecemos vários que namoraram durante anos com uma mulher, preparavam-se para casar, quando os sogros decidiram que as filhas deviam casar-se com um homem de mais posses. E isto é aceite. Não há nada que os humilhados possam fazer para contrariar a vontade familiar. Para as mulheres, é um sufoco ainda maior. Nos locais mais conservadores, casam-se com quem a família ordenar e mesmo nos locais mais liberais, como Tunes, poucas são as que publicamente dão largas à sua paixão – são obrigadas a fecharem-se em casa, sussurando juras de amor ao telemóvel ou escrevendo à luz do monitor no chat do Facebook. Mesmo nas redes sociais, as mulheres árabes não se mostram – a sua fotografia é normalmente uma flôr, um animal ou um desenho animado.

De manhã, a ansiedade desperta-nos. Chegara a hora de conhecer o parecer da Argélia. Na sala de espera do Consulado, estão em mudanças, e eu enervo-me com o som do arredar dos sofás e da mesinha das revistas. Sou o único sentado num sofá, imóvel, com três argelinos a andarem com a mobília à minha volta, um barulho terrível, e eu cada vez mais tonto e impaciente. Depois, chega um tipo sudanês com passaporte inglês – pede o visto para a Argélia pela segunda vez mas, de repente, o cônsul aparece na sala e corre com ele num instante. A Argélia intimida-me.

O mau pressentimento confirma-se. A secretária do cônsul devolve-nos a carta com uma expressão de pesar: “Tenho muita pena mas o cônsul diz que se aproximam as eleições e que é um momento delicado para vos passar um visto extraordinário. Além disso, vocês são jornalistas”. Rogamos-lhe uma segunda análise, prometemos-lhe tino, juramos que só queremos passar em trãnsito e apanhar um barco para Espanha. Em desespero, qual Galileu, rejeitamos a nossa profissão: “Somos meros viajantes”, aldrabamos, sabendo que uma mera pesquisa no Google mostraria corpos na Síria, revolucionários na Líbia e salafistas no Egipto. Tudo o que a Argélia quer evitar. Nada a fazer: o cônsul não deixa entrar jornalistas por terra antes das eleições. Regressamos a Sidi Bouzid, com o nariz dorido pela porta que se fechara na nossa cara, mas com o cérebro sintonizado numa forma de dar a volta à contrariedade.

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A Mãe da Primavera – Marsa, Tunísia, 4 de Maio de 2012

May 28th, 2012 by admin

Sidi Bou Said, Cartago e Marsa constituem a correnteza de subúrbios finos na zona costeira de Tunes. São a Cornige tunisina, uma marginal de fazer corar de inveja muitas outras na Europa, Sidi Bou Said fica empoleirada num monte, com vista para o Golfo de Tunes e para as montanhas de 600 metros da península de Cap Bon. É uma vista privilegiada e confortável, uma tela de diferentes cores dominada pelo branco das casinhas espalhadas pela planície. A única semelhança com as encostas calvas do sul, são os túmulos de cúpula branca dos homens santos que estão espalhados pela região. O próprio Sidi Bou Said era um homem santo (Sidi, em árabe, quer dizer “Santo” ou “mestre”) que após uma viagem a Meca no século XII se instalou neste monte, enveredando por uma vida de asceta muito respeitado. Lá longe, 250 quilómetros a sul, outro Sidi, o Bouzid, fazia um percurso similiar. 900 anos depois, um episódio histórico ligaria as duas regiões.

A família de Mohammed Bouazizi, o vendedor de fruta de 26 anos que se imolou pelo fogo em Dezembro de 2010 dando origem ao movimento revolucionário na Tunísia, mudou-se da cidade agrícola do sul da Tunísia para Marsa, na região de Sidi Bou Said. A mãe e os irmãos do suicida não resistiram à pressão dos vizinhos e dos jornalistas e, depois de consumada a revolução, decidiram trocar de ares. Muita gente em Sidi Bouzid não lhes perdoou: dizem que o ex-Presidente Zine Ben Ali, acossado pelos crescentes tumultos em Sidi Bouzid, silenciou a família de Bouazizi com o pagamento de uma quantia astronómica de dinheiro. O valor não é conhecido – o que é certo é que três dias após o acto desesperado do seu filho a mãe retirou-se da acção de luta contra o governo.

Dentro de um táxi, procuramos a nova casa dos Bouazizi, em Marsa. Perguntamos a casais ricos que passeiam o cão e fazem jogging, a polícias e a jardineiros de grandes mansões – ninguém conhece a morada. Finalmente, um mecânico indica-nos que é algures atrás do liceu. Num ápice, damos com Mannoubia Bouazizi, a mãe de Mohammed, no quintal da sua nova casa, em auxílio a um homem que lixa e pinta de branco os muros. Mannoubia é uma senhora simples, com os olhos de uma côr ainda mais marinha do que o lenço que lhe cobre os cabelos. Dois dos irmãos de Mohammed também estão em casa; a irmã, de cabelos negros e olhos castanhos grandes, tem todas as caracterísiticas da beleza árabe; o irmãozinho fita-nos com um olhar tímido. A casa, que em Sidi Bouzid nos tinham dito ter uma dimensão palaciana, é na verdade bastante simples, com dois pisos baixos, um pátio e uma garagem, embora deixando a anos-luz a espelunca minúscula em que viviam em Sidi Bouzid. Depois de alguma insistência, a mãe da Primavera Árabe concede-nos a entrevista; está mais preocupada com o asseio da casa do que propriamente com os direitos de imagem.

A 17 de Demzembro de 2010, a senhora que tenho à minha frente perdeu o filho mais velho, aquele que através do seu trabalho, que nunca lhe dava cerca de 140 dínares por mês (70 euros), sustentava uma família de oito. Mohammed suicidou-se e, em condições normais, isso seria sinónimo de uma enorme tragédia para a família Bouazizi, pois o Islão coloca o suicídio na lista de haram (pecados) – Mohammed seria um apóstata. Contudo, não foi um suicídio como os outros. O acto desesperado de Mohammed, ateando fogo ao seu próprio corpo, desencadeou uma revolta em Sidi Bouzid seguida de uma reacção em cadeia em todo o Mundo Árabe; em pouco mais um ano, três ditadores caíram, outros enfrentam fortes acções de contestação, fala-se pela primeira vez de liberdade e democracia e Bouazizi conquistou um lugar na história. Não que ele tivesse noção da dimensão que a sua morte viria a adquirir, longe disso; foi somente um acto desesperado de alguém que perdera todas as ilusões de futuro. Para os tunisinos, fora a gota de água e eles próprios encarregaram-se de transmitir aos outros árabes que já não havia necessidade de ter medo. Para a mãe, fica o orgulho, mas não há revolução que lhe consiga apagar da memórias as chamas que consumiram o corpo de Mohammed.

Que género de homem era Mohammed Bouazizi?

Mohammed perdeu o pai aos três anos, com um enfarte, e desde criança que tentou preencher o seu lugar. Era uma criança tímida com um grande coração, amava a família e os amigos, que também o amavam. Era bom aluno, tinha ambição de chegar à universidade mas não tínhamos dinheiro para pagar os estudos. Ele próprio decidiu começar a trabalhar.na venda de fruta para poder dar aos irmãos mais novos a hipótese de estudarem, algo que ele não tinha podido alcançar. O seu maior sonho era ganhar dinheiro para ver-me tranquila em casa, sem necessidade de trabalhar, porque me dizia sempre que eu tinha trabalhado tanto para ele que chegara a hora de me retribuir.

No dia 17 de Dezembro, Fadia Hamdi, uma polícia encarregue de fiscalizar o comércio, terá pedido a Mohammed Bouazizi a licença para vender fruta fora do mercado. Ele não a tinha e Fadia confiscou-lhe o carrinho de mão, a balança e toda a mercadoria. Mohammed ficara sem nada e, para mais, endividado perante o crédito que tinha pedido para comprar a fruta. Há várias versões do momento em que a vida de Fadia se cruzou com a de Mohammed para alterar o rumo da história do Mundo; a família de Bouazizi e vários populares dizem que a polícia lhe deu uma estalada e que os seus capangas lhe deram uma sova; Fadia nega qualquer agressão a Bouazizi e o tribunal deu-lhe razão – a 19 de Abril de 2011 foi libertada depois de três meses detida numa cela com 16 mulheres em Gafsa.

Bouazizi suicidou-se por ter perdido tudo ou por ter levado uma estalada de uma mulher?

Para o povo do sul da Tunísia, uma mulher que bate num homem é a maior das humilhações. Jamais se tinha visto uma coisa assim. O Mohammed já tinha 26 anos, o que já é uma idade avançada para trabalhar na venda de fruta, pelo que a polícia nunca o deixava em paz. Nesse dia, ele perdeu a paciência. Já andava farto da pobreza e da dureza do trabalho e, ainda por cima, nem o deixavam trabalhar. Mesmo que a mulher não lhe tenha batido, os seus ajudantes bateram-lhe e ele chorou em frente a toda a gente. Depois, foi três vezes à esquadra e duas vezes ao Palácio do Governador, mas ninguém o quis ouvir. Ele fartou-se de tudo. Nesse momento, enlouqueceu e suicidou-se. Era a única forma de morrer de cabeça erguida. Felizmente, as pessoas de Sidi ouzid não deixaram a sua morte cair no esquecimento.  Fez com que percebessem os anos de opressão policial nos regimes de Ali e Bouguiba. Para todos, era a gota de água. Ninguém admite que uma muher bata num homem. E foi isso tudo que provocou a raiva da população.

Mannoubia enxuga as lágrimas. Inundam-lhe a memória os acontecimentos que se seguiram à morte de Mohammed. Em Sidi Bouzid, todos lhe estão gratos pela conquista da dignidade. Porém, queixam-se de que pouco mudou depois da revolução e que continuam a ter uma vida pobre e sem esperanças de prosperidade.

Tem receio que a morte do seu filho não seja honrada pelos futuros governantes da Tunísia?

A morte do meu filho fez com que tantos jovens inocentes da sua idade tivessem saído da prisão e com que as pessoas pudessem finalmente falar dos seus problemas e criticar livremente o governo. Isso já foi uma vitória. Mas é verdade é que pouco mudou na Tunísia e, especialmente, em Sidi Bouzid. Há quem tenha agora uma vida mais dura que antes da revolução. Toda gente continua à procura dos seus direitos e ninguém sente que alguma coisa de significativo tenha mudado. Continuamos sem dinheiro e a única boa é que podemos falar. Há outro problema: a Tunísia ainda não não deu nada a quem fez a Revolução ou a quem tenha perdido algo pela revolução. Até a nossa família; dizem que ficámos ricos mas estamos nesta casa a pagar renda, ninguém nos deu nada. Espero que não se esqueçam do sangue dos nossos mártires.
O que acha que Mohammed Bouazizi sentiria se pudesse voltar a este Mundo e ver as consequências do seu suicidio?

Para já, acho que o meu filho foi directamente para o Paraíso. E creio que terá de sentir-se orgulhoso porque sacrificou a vida em nome da dignidade e da liberdade. Sei que quando o reencontrar no Paraíso, ele vai estar feliz.

Deixamos a casa dos Bouazizi, passando pelas ruínas de Cartago e pelos casarões da família de Leila Trabelsi, a esposa do antigo ditador, hoje vandalizadas e revestidas de palavras de fúria. Em comum têm o destino de todos os Impérios: ascensão e queda. Cartago destruída pelas espadas romanas, as casas dos Trabelsi pelas mãos do povo tunisino.

Reflicto na mescla de sensações que a mãe de Bouazizi deve sentir; tinha uma vida pacata, longe dos holofotes da fama e, de repente, tornou-se numa das pessoas mais solicitadas do país. De cada vez que ligar a televisão, as notícias sobre as revoluções árabes relembrar-lhe-ão o seu filho e o seu nome será citado por muitos anos. Para o mundo, será apenas mais um nome, uma figura histórica, para ela será mais que isso, será um filho que se queimou, será carne amamentada transformada em cinzas. O duelo entre a dor e o orgulho jamais lhe dará descanso.

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Ainda Há “Bouazizis” Na Terra da Revolução – Sidi Bouzid, Tunísia, de 29 de Abril a 1 de Maio

May 9th, 2012 by admin

Trabalham das 5h até ao anoitecer, vivem com três euros por dia e bebem álcool etílico para esquecer os problemas. Em Sidi Bouzid, na Tunísia, onde Mohammed Bouazizi se imolou pelo fogo e começou a Primavera Árabe, os jovens queixam-se de que nada mudou desde a revolução. Ficou apenas o slogan: “Quando estás cansado, arde”.

Na noite de 16 de Dezembro de 2010, Mohammed Bouazizi, um vendedor ambulante de fruta, de 26 anos, jantou lablabi (cozido de grão, pão, pimentos, ovos e atum) com os amigos num restaurante barato. À refeição, disse-lhes que ia pedir um crédito de 300 dínares (150 euros) no mercado abastecedor para vender mais fruta e arranjar dinheiro para comprar uma carrinha, com que se pudesse meter no transporte de produtos agrícolas. E assim fez: ás 22h30m, Bouazizi entrou no grande armazém de Sidi Bouzid, comprou 150 euros de bananas, laranjas, maçãs e limões, disse que pagava quando vendesse tudo. Daí, caminhou pelas ruas de terra batida, frias e silenciosas, até ao bairro de Cité Nour (Bairro das Luzes), que como sempre estava às escuras. Entrou na sua casa minúscula, um paralelepípedo de cimento caiado de branco, disse boa noite à mãe e aos irmãos e ficou a ver um filme de acção até adormecer. Acordou pelas 07h30m, correu para o centro da cidade para receber a fruta, que dispôs com todo o cuidado sobre o seu carrinho de mão, empurrando-o de seguida para junto da praça de táxis adjacente ao mercado de legumes. Pouco passava das 10h30m dessa sexta-feira, quando Fadia Hamdi, 45 anos, uma polícia com a missão de fiscalizar o comércio, abordou Bouazizi.

Ninguém sabe ao certo o que se passou a seguir; o controlo e a corrupção policial eram tão coloquiais na Tunísia que ver a autoridade chatear um comerciante já não era digno de atenção. Até a História, neste momento, estava de costas voltadas. Por pouco tempo.

(Leia esta reportagem na íntegra na próxima edição do Semanário Sol)

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Centro e Subúrbio – Tunes, Tunísia, 28 de Abril de 2012

May 7th, 2012 by admin

O João está submetido a uma espécie de tortura – tem de acordar de meia em meia hora durante mais de 24h para passar 800 gigabites de imagens de um disco para o computador e do computador para outro disco. Vejo-o acordar com um movimento de máquina fabril, fazer dois clicks no rato, olhar para o monitor e cair de novo com a cabeça na almofada para mais de 30 minutos de sono inquieto.

A dois passos do hotel, ouve-se uma algazarra. Ali, também há quem saiba o que são noites mal dormidas. São cinquenta vendedores de rua que ocuparam um terreno devoluto no centro da cidade e exigem que o Governo o transforme num bazar, onde possam realizar legalmente os seus negócios. Hoje, festejam o parecer positivo do munícipio em relação às suas demandas. Os homens, cuja profissão é exactamente a mesma de Mohammed Bouazizi, o vendedor ambulante de frutas e legumes que se imolou pelo fogo na pequena cidade de Sidi Bouzid, criticam ferozmente a polícia por não lhes permitir fazer o único ofício que têm à sua mercê: “Sou casado, tenho três filhos e vendo ferramentas há 25 anos nos passeios”, diz Nouldi Othmani, 42 anos. “No mês passado, a polícia apreendeu-me a mercadoria e proibiu-me de vender na rua onde sempre trabalhei. O que posso fazer? Vim para aqui pedir que este espaço unitilizado possa ser explorado por mim e pelos meus colegas”.

Dezassete dos homens estiveram até hoje em greve de fome. Dormem em colchões rotos por cima do entulho, encostados às paredes pintadas com palavras de ordem; “Temos direito a trabalhar”. Um sexuagenário arrasta-se pelo baldio com a cara amassada pela violência policial. Homens de fato e gravata e mulheres de saia pelo joelho passam diante do estaleiro, indiferentes ao miserável que lava os pés com um mangueira junto ao passeio. “Eu estive preso durante o mês da revolução porque confrontei a polícia. Hoje pergunto-me o porquê desse sacrifício…Não mudou nada neste país”, diz Ali, 33 anos,deitado num dos colchões á sombra do muro. Está menos satisfeito que os outros porque, apesar de ter feito greve de fome, ainda não tem o seu nome contemplado na lista dos futuros proprietários de bancas do souk (mercado) da Baixa. “Nem posso ver os meus dois filhos porque quando estou com eles não tenho dinheiro nem para lhes comprar comida. Não foi para isto que mandámos embora o Ben Ali”.

A insatisfação face ao período pós-revolucionário tunisino não é geral. Em frente à murada do estaleiro dos vendedores, conheço Yahya Chaker, 21 anos, estudante de engenharia informática. Diz-me estar envolvido em diversos movimentos da sociedade civil e num grupo de debate que pretende recolher as melhores ideias de cada uma das facções políticas da Tunísia. “É normal que depois de uma ditadura de mais de cinquenta anos haja confrontos entre cidadãos com diferentes mentalidades”, explica. “A grande ameaça são os extremismos. Os nossos islamitas querem proibir o álcool e legalizar o casamento de um homem com quatro mulheres e a nossa esquerda quer anular a cultura islâmica. Não pode ser”. Assim, Yahya e um grupo de jovens tem feito o levantamento do que há de melhor na sharia (lei islâmica) e na esquerda liberal e eliminado tudo o que pensam não encaixar na sociedade tunisina. “A sharia tem dogmas que não fazem sentido aqui como cortar a mão a ladrões e a poligamia mas também tem coisas boas como a preservação dos valores islâmicos e a solidariedade social. Do lado da esquerda, podemos agarrar a liberdade de expressão mas não podemos sequer conceber a criação de um estado 100% laico”.

Deixo-me contagiar pela pluralidade de opiniões e derivo pelas ruas de Tunes ávido de falar com gente. Escolho regressar á medina. Diante de uma loja de calças de gangas, três amigos pedem-me para os fotografar. Zendaoiu Abdelhamid, 48 anos, passa a tarde a olhar para rabos de saias. Por isso, não concorda com a implementação de uma lei que obrigue as mulheres tunisinas a usar véu. “As nossas mulheres são como as europeias: gostam de mostrar aquilo que é bom”, diz. “O Ennahda (partido de corrente islâmica que venceu as primeiras eleições com 41% dos votos) vai ter de moderar as suas políticas senão corre o risco de enfrentar uma nova revolução”. Zendaoiu é apologista de um Governo liderado por um partido islâmico moderado, que defenda o Islão mas que dê liberdade aos tunisinos de fazer aquilo que querem. Já o seu amigo Zaher, um tipo divertido de 34 anos, que vende malas de couro na loja vizinha, prefere a esquerda: “Não conheço nenhuma democracia que misture política e religião”, defende, agitando uma pequena bandeira da Tunísia.. “A religião sobrepõe-se sempre á política e acaba por matar a democracia”. Quem não acredita na democracia é Mahrez, um salafista de 30 anos, que os meus novos amigos arrancam de uma loja de informática para falar comigo. “O Ennahda não trouxe nada de novo aos muçulmanos da Tunísia e até me custa admiti-los como um partido islâmico. Aliás, eu não ligo nenhuma à política porque é feita por homens e é impura”, explica. Pergunto-lhe o porquê da sua opinião, sabendo de antemão que os salafistas genuínos rejeitam todos os tipos de sistemas políticos que não a sharia: “A única lei que pode existir é a de Deus e está escrita no Corão”. Insisto; quero saber se concorda com os grupos de salafistas que têm andado a virar do avesso os bares que vendem cerveja na capital da Tunísia. “Os verdadeiros muçulmanos não fecham bares à força. Temos é de usar a palavra de Deus para fechar no coração dos tunisinos a tentação de beber cerveja”.

Como ontem, enfio-me nas ruelas da medina, e dou tantas voltas e reviravoltas que acabo por perder-me. Manal vem da universidade e conduz-me à avenida principal. Tem 19 anos e estuda Inglês. Diz-se apavorada pelo crescimento do movimento muçulmano e receia que o Ennahda promulgue leis que a obriguem a partilhar um futuro marido com mais três mulheres, a ficar em casa a tratar dos filhos e a tapar o seu penteado estilizado com qualquer espécie de tecido: “Se isso acontecer, fujo do país”, confessa. “Quero que a Tunísia se transforme num país como Itália, com uma mentalidade moderna e onde as mulheres possam ter os mesmos direitos que os homens”.

Apesar de adorar a Baixa de Tunes, faltava-me conhecer os arredores da cidade, bairros onde a pobreza leva os moradores a agarrarem-se à religião. Apanho um táxi e peço para me levarem a Cité El Zohour (Vila Flôr), a primeira região da capital a insurgir-se contra Ben Ali em Janeiro de 2011. El Zohour é um típico bairro árabe da classe trabalhadora, transbordante de vida e movimento, com mercados de verduras, cafés apinhados de homens a beber café e a jogar às cartas, talhos a céu aberto e pequenas lojas de comércio tradicional. As casas são quase todas térreas e há imenso lixo a esvoaçar, atravessando-se à frente das bolas das crianças que jogam nas ruas. Entre os quarteirões, há grandes desterros, onde cabras e indigentes procuram nos montes de detritos a refeição do dia.

Sento-me no café e travo amizade com Rached Foumini, 25 anos, que é nem mais nem menos que o filho do imam da mesquita de El Zohour. “O meu pai era membro da Irmandade Muçulmana e esteve preso durante 14 anos. Cresci sozinho apenas porque frequentava mesquitas e mostrava o seu desacordo com as políticas de Ben Ali”, conta. “Depois da Revolução, as pessoas aqui do bairro escolheram-no para ficar à frente da mesquita. Ele faz parte do Ennahda e eu, naturalmente, também votei neles”. Para Rached, técnico administrativo de uma companhia de telemóveis, o partido que venceu as eleições na Tunísia está distante do radicalismo com que o pintam: “Defendemos a liberdade religiosa, os direitos das mulheres e a democracia. Todos aqueles que pensam que os Irmãos Muçulmanos estão virados para o Islão radical estão muito enganados. Tanto aqui, como no Egipto, na Líbia e em todo o Mundo Árabe, vamos mostrar as virtudes do islamismo através da tolerância. Ou achas que queremos fazer à oposição aquilo que o antigo regime fez a pessoas como o meu pai?”.

Também o seu primo Bilel, 22 anos, com um bacharelato em mecânica de aviões, está do lado do governo. Não encontra trabalho há três anos mas acredita que com o tempo a Tunísia vai alcançar a prosperidade. Tanto ele, com o seu boné preto e óculos de sol, como Rached, de t-shirt raiada e calções veraneantes, têm um visual e um estilo de vida ocidental, mas tentam seguir à linha os ensinamentos do Corão. Por exemplo, Bilel diz-se um bom muçulmano, apesar de já ter experimentado drogas como a cocaína e a quetamina. “O Corão proibe o álcool mas não refere as drogas como pecado. Claro que não sou estúpido, sei que as drogas me fazem mal e que Deus não gosta que as use. Mas acredito que Deus me vai afastar delas e que me vou tornar num muçulmano perfeito”.

A conversa sobre religião acaba nos temas do costume; Rached e Bilel não compreendem como os cristãos podem acreditar que o sangue de Issa (Jesus Cristo) é vinho tinto e que Jesus é filho de Deus porque Deus não pode ter filhos. “Mesmo admitindo que Jesus é filho de Deus, achas que Ele deixaria o seu próprio filho morrer assim? Pregado a uma cruz, a esvair-se em sangue?”, pergunta Rached. Dou por mim a defender algo em que também não acredito, só para não ter de confessar que não acredito em nada.

Para terminar a visita à Vila Flôr, os primos, orgulhosos, levam-me à esquadra central da polícia: “Antes da revolução, nem podíamos passar à frente da esquadra e olhar para eles. Agora, estão de portas abertas e recebem toda a gente bem”. O chefe da esquadra diz-me que o bairro não tem tido grandes conflitos entre islâmicos e liberais, até porque os esquerdistas costumam frequentar mais o centro. “O que nos dá mais trabalho é o consumo e a venda de haxixe e os roubos, devido à miséria e ao desemprego”. A Tunísia tem hoje mais de um milhão de desempregados.

No quarto, o João, qual anti-herói da mitologia grega, continua a cumprir o castigo que parece ter-lhe sido ditado pelos deuses do Olimpo; a privação do sono já lhe cavara umas fundas olheiras e tem a voz tão sumida que mal entendo o que me diz.

Depois de comer um farto prato de ravioli com molho de três queijos por sete dínares (3,5 euros), saio para uma cerveja no bar Oscar’s. Planto-me num dos cantos e observo a clientela: há mulheres a beber vinho tinto, velhos boémios, rapazes de cabelo comprido e dois músicos que tocam uma música sobre Che Guevara. É em Tunes, mas podia ser num botequim parisiense. Esta é a esquerda intelectual tunisina – a tal franja altamente liberal da sociedade que jamais aceitará a islamização do país.

Num só dia, tantas caras e tantas ideias. Fico com a sensação de nas ruas, mais que no Parlamento, os tunisinos estão dispostos a transformar a mais genuína e pacífica das revoluções árabes num Estado de liberdade e tolerância.

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O Cerco a Tunes – Tunes, Tunísa, 27 de Abril de 2012

May 5th, 2012 by admin

Desde o início da viagem que conhecíamos as dificuldades para entrar em dois países – Síria e Argélia. Por motivos diferentes: na Síria porque estão em plena revolução armada e na Argélia porque o governo não quer que se arme uma revolução.

O obstáculo sírio fora ultrapassado. Chegara a hora da Argélia.

Entramos na sala de espera do Consulado, onde duas pessoas preenchem papelada. É um homem que aparenta ter quase 70 anos, de óculos e cabelo branco, e um de cabelo curto e olhos claros, na casa dos trinta. Surpreendentemente, ouvimo-los falar português. Olhamos com mais atenção e reconhecêmo-los: são Carlos Carneiro pai e Carlos Carlos Carneiro filho, os autores do mega-projecto de viagens “Nunca é Tarde”!

Quis o destino que os 39 mil quilómetros deles de Renaul 4L pelo continente africano e os nossos 12 mil pelo mundo árabe desembocassem ao mesmo tempo naquela salinha do Consulado argelino. Pai e filho estão há mais de um ano na estrada e preparam-se para dar entrada no último país da odisseia antes de chegarem a casa. “Contactámos a Embaixada de Portugal que emitiu um pedido de autorização especial aos argelinos. Deram-nos o visto na hora”. É uma excelente notícia. Principalmente, porque nos apercebemos nos minutos seguintes que de outra forma seria impossível consegui-lo: o Consulado emite vistos apenas a residentes em Tunes e a Embaixada da Argélia só concede acreditações jornalísiticas a profissionais que tenham base na Tunísia.

O timing não é o melhor; a Argélia tem eleições legislativas no próximo dia 10 de Maio e o presidente Abdelaziz Bouteflika quer evitar que qualquer contágio da febre revolucionária dos países vizinhos. A única esperança é persuadir o cônsul português a fazer connosco o que fizera com os homens do “Nunca é Tarde” – mediar a solicitação de visto. Contudo, os projectos não são iguais: “Não posso omitir aos meus colegas argelinos que vocês são jornalistas”, diz o vice-cônsul. “Além disso, o vosso trabalho é muito mais político, vocês são jovens, não têm a idade do Sr. Carlos, têm o passaporte cheio de carimbos de países perigosos para a Argélia…não vai ser fácil”.

Sabia perfeitamente que a referência à nossa profissão podia arruinar qualquer hipótese de sucesso. Tento convencer o diplomata a fechar os olhos a esse pequeno pormenor, em vão. “Com o vosso equipamento todo como vão esconder que são jornalistas”, diz. E com razão. Depois, aponta-nos para a barba por fazer e para a minha t-shirt com o logo da Estrada da Revolução estampado: “Os argelinos vão pensar que vocês querem apoiar a revolução no país”, comenta. “Não se preocupe. A barba faz-se e a t-shirt muda-se. Não será por aí que teremos problemas”, respondo. Abandonamos a Embaixada portuguesa com duas certezas: que os diplomatas portugueses iam dar o seu melhor e que o seu melhor podia perfeitamente não chegar. Sinto-me um aperto no estômago; ao segundo dia em Tunes, auguro que nos estão a montar um cerco, uma forma de nos prender aqui. Espero estar enganado.

Pela tarde, visito o local mais apertado de Tunes – a medina. Meto-me numa rua estreita e calcorreio as ruelas labirínticas como se andasse por cima do dorso de uma serpente. Imediatamente, um carteirista tenta abrir-me a mala; sorrio, deixo-o passar e fico a observá-lo enquanto ele escolhe sorrateiramente a próxima vítima. Há sempre um Ali Babá na medina. É algo que faz parte da envolvência.

Entalado entre a corrente humana que desliza pela rua apertada e as lojas de candeeiros, tento captar toda a efervescência da medina; os pregões vivaços, os empurrões apressados, o cheiro a haryssa (picante tunisino), as velhas madrassas, as elegantes mesquitas, os tapetes coloridos, os cachimbos, os puffs de couro, os coloridos vestidos das mulheres com brilhantes incrustados. Não admira que em 1979, a UNESCO tenha inscrito a medina de Tunes na lista de locais Património da Humanidade.

Subo a um terraço e reparo como de cima a medina parece uma floresta branca de antenas parabólicas. No centro, destaca-se a mesquita com o nome mais engraçado do Mundo: a mesquita de Ez-Zotouna (Mesquita da Oliveira), com o seu minarete resplandescente. A medina tornou-se numa das cidades mais importantes do mundo árabe desde o século VII, altura da chegada dos árabes à Tunísia, até ao século XVI, quando foi conquistada pelos Otomanos. Antes, a Tunísia, com a sua capital na lendária Cartago, já tinha estado nas mãos dos Fenícios e dos Romanos, que se bateram por ela nas sanguinárias guerras púnicas, com o destemido Aníbal, o comandante cartaginês, a fazer a vida negra ao Império de Roma. Pelo meio, os Vândalos, e depois dos Otomanos, os franceses. Tunes é uma cidade cosmopolita, uma porta aberta para o Mundo e isso nota-se tanto na arquitectura da sua capital como na mentalidade dos tunisinos.

Sento-me a beber uma limonada junto a uma loja de marroquinaria. O comerciante, um jovem chamado Sadok, diz-se triste com o actual momento do país: “Como praticamente não há polícia, dão-se muitas confusões, o que leva a que os turistas não venham à Tunísia. Pouco a pouco, eles começam a aparecer, mas qualquer comerciante da medina tem tido prejuízo com a falta de turistas”. Na Tunísia, como no Egipto, tem sido o sector turístico que mais tem sofrido com o processo de transição. Na minha perspectiva, os turistas não têm o que temer na Tunísia; exceptuando uns rolos de arame farpado a isolar postos policiais em Tunísia, uns checkpoints pacíficos na estrada e as discusões sobre política diante dos cafés, nada denuncia que a Tunísia está a atravessar um decisivo processo de transição política. E, claro, o país continua lindíssimo.

Saio das muralhas da medina, encontro-me com o João e entramos juntos no Teatro Municipal, que apresenta um ciclo de documentários sobre a Primavera Árabe. A entrada é gratuita. O cinema tem estado na ordem do dia na Tunísia. Tudo porque em Outubro último, a poucos dias das eleições, o canal privado de televisão Nessma emitiu o filme Persépolis, um filme animado premiado em Cannes que mostra a revolução iraniana de 1979, com a islamização do país, aos olhos de uma menina. O objectivo da cadeia era obviamente alertar os tunisinos para os perigos de uma vitória islâmica nas eleições, que viria a acontecer, mas o que na verdade inflamou a raiva dos fiéis foi uma breve sequência do filme em que Alá aparece desenhado como um velho barbudo – um haram (pecado) no dogma muçulmano. No dia seguinte, 300 salafistas tentaram incendiar a sede do canal. Registaram-se vários confrontos entre radicais islâmicos e defensores da liberdade de expressão. Finalmente, já com o Ennahda (representante dos Irmãos Muçulmanos na Tunísia) no poder, o patrão da televisão, Nabil Karaoui, acabou por ser multado em quase 1000 euros por perturbação da ordem pública e violação dos bons costumes. Há um mês, tinha sido condenado pela justiça popular: a sua casa foi alvo de um atentado sem vítimas.

O filme de hoje é Tous Brulês(Todos Queimados), de Leila Chaibi, que foca os dramas e as frustrações da juventude tunisina, antes e depois da revolução. Conta com relatos angustiantes de rapazes que arriscaram as suas vidas para tentar chegar à Europa num barco a remos, das mães que perderam os filhos nessa travessia e com uma divertida discussão familiar entre apoiantes dos islamitas e apoiantes liberais no pós-revolução. Essa cena, particularmente, capta-me a atenção: a mãe, de cabelo solto, pergunta à filha, de vinte e poucos anos, porque usa o véu. Ela diz-lhe que a Tunísia obteve a democracia e que agora já se pode rezar livremente. Isto sustenta algo de que me tenho vindo a aperceber: ser islamita está na moda no seio da juventude. São os efeitos normais de uma revolução recente. Nas revoluções dos anos 60 e 70, quando os comunistas eram perseguidos e presos, os jovens adquiriam a sua identidade revolucionária seguindo o caminho de Marx e Lenine. No Médio Oriente e no Magreb, ditadores como Kadhafi, Ben Ali e Mubarak oprimiram durante décadas a livre prática do culto islâmico, prendendo os Irmãos Muçulmanos, dispersando quem rezasse na mesquita durante a madrugada, abominando o uso do véu. A consequência está à vista: hoje seguir o Corão é tão rebelde e revolucionário como ter o Manifesto Comunista na mesa de cabeceira.

Os que rejeitam esta tendência, que são muitos, fazem tudo para a anular ou então tentam sair do país. Mas não é fácil – as portas da Europa estão fechadas e os países vizinhos estão numa situação ainda mais instável. Para quem receia que a Tunísia secular desabe em ruínas como Persépolis, o cerco aperta. Como para nós, que ainda não encontrámos a solução para furar a muralha argelina.

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Uma Noite em Tunes – Tunes, Tunísia, 26 de Abril de 2012

May 4th, 2012 by admin

Ainda não estamos recuperados das 40 horas de viagem entre Benghazi e Tunes. A madrugada fora infernal; chegáramos para lá das 4h da manhã, exaustos e doridos, e apanháramos um taxista oportunista que nos levara a dar voltas pela cidade à procura de um hotel, enquanto lutávamos para manter os olhos abertos. Connosco, um rapaz líbio, chegado a Tunes para umas férias de álcool e bordéis. O chofer deve ter pensado que nós viéramos para o mesmo pois não parava de falar de discotecas e prostitutas – e nós só queríamos uma cama. Acabáramos por ficar num hotel daqueles de dois ou três euros, de que nem me quero lembrar do nome; o quarto ficava atrás das retretes e dos chuveiros e o som do despertador fora de urinadelas e de abluções.

A sensação de ver Tunes após onze dias na Líbia é a que deve ter um camponês que sai pela primeira vez da aldeia para visitar a grande cidade. Deslumbro-me com aquilo que costumo detestar: os prédios altos, centros comerciais, as pessoas ao molho a passear na Avenida Habib Bourguiba e os táxis amarelos cheios de pressa quase a atropelá-las. Há cafés com cerveja e mulheres sem véu. Tunes é uma cidade europeia.

Ao final da tarde, corremos para o Café de Paris, o primeiro que encontramos com cerveja, para acabar com duas semanas de abstinência. Tem uma decoração ocidental e está lotado por homens sedentos que entornam garrafas de Celtia o mais depressa que conseguem. Numa ou outra mesa, alguém a ler tranquilamente o jornal. “Franceses?”, pergunta um tunisino grande como a Torre Eiffel, com um pólo às riscas brancas e azuis, óculos de massa preta e boina à artista plástico. “Preciso de falar com estrangeiros”. Bouraoiu, 28 anos, trabalhou durante seis em restaurantes em Haia, Holanda, e fora deportado para a Tunísia há três meses. “Apanharam-me numa briga com um jamaicano numa coffee-shop”, diz o tunisino. “Como não estava legal, inventei que era da Líbia e que me chamava Abdel Karim. Fui parar seis meses à prisão e depois deportaram-me”.

Bouraoiu está mais preocupado por ter voltado a viver em Tunes do que pelos seis meses passados na prisão holandesa: “Tinha uma cela só para mim, televisão por cabo, boa comida. Estar na prisão é sempre mau, mas se tivesse estado numa prisão tunisina nem sequer seria capaz de estar aqui a falar com vocês sobre isso”. Ao chegar, sentiu-se desenraízado: está desempregado, o irmão casou e muitos amigos emigraram. “Não me sinto bem neste país porque não gosto da mentalidade dos tunisinos”, diz. Segundo ele, tudo piorou após as eleições de Novembro, ganhas pelo Ennahda, o partido islâmico: “Querem acabar com os bares e com os bordéis, obrigar as mulheres a usar o véu e pretendem legalizar o casamento com quatro mulheres”, diz. “Um dia, estou aqui a beber uma cerveja, entra um maluco qualquer com uma bomba e rebenta com isto tudo. Não se consegue viver com esta ameaça”.

A Tunísia é um estado secular e laico, graças às bases criadas pelo fundador da república, Habib Bourguiba, presidente desde 1957 a 1987. Foi o primeiro país árabe a abolir a escravatura, a criar uma Constituição, a abolir a poligamia, a legalizar o aborto e a destituir um Presidente através de uma revolução pacífica, a 14 de Janeiro de 2011, Nesse dia, o presidente Zine El Abidine Ben Ali anunciou a sua demissão e escapou com a mulher e os filhos para Arábia Saudita. Quando o país foi a votos, o Ennahda, o representante local dos Irmãos Muçulmanos, ganhou com 41% dos votos, deixando atrás de si os partidos de esquerda. Nos últimos meses, têm-se registado confrontos entre islamitas e esquerdistas; os primeiros acham que a Tunísia é um país de pecados e querem acabar com eles, os segundos lutam para manter o Islão distante da próxima Constituição.

Não vá o Café de Paris explodir, mudamo-nos para um mais discreto no primeiro andar de um espaço comercial. A clientela é assustadora: varia entre prostitutas obesas e gordurosas e tipos fininhos com ar de heroinómanos. Na televisão, passa o Atlético de Bilbao – Sporting, para a Liga Europa; tenho dificuldades em concentrar-me na partida, pois à minha frente está um homem com uma camisola de hóquei no gelo com uma bebedeira tão grande que faz caretas para focar a visão e para endireitar o pescoço que desfalece a cada instante, como se a cerveja lhe tivesse corroído as vértebras e estivesse agora transformado num molusco. Atrás de mim, uma das mulheres, de cabelo tingido de amarelo, tronco robusto e rosto másculo amassado pela folia, tenta persuadir um cliente a pagar-lhe uma cerveja. Ele está mais virado para o sexo. “Achas que és homem?”, pergunta ela. “Claro que sou homem”, responde-lhe o homem. “Eu também sou homem. Por isso, pôe-te a andar daqui antes que perca a paciência”, remata, ao mesmo tempo que guarda o telemóvel entre os seios. O empregado de mesa trabalha com os auscultadores nos ouvidos; peço-lhe para ouvir um bocadinho – é pop chinês. No balcão, uma leprosa assiste a tudo, com uma mão amputada e o rosto minado de bolhas. Logo após o final da partida, deixamos o bar discretamente, convencidos de que à meia-noite todos os clientes se transformariam em zombies, tão insaciáveis na procura de sangue fresco como na ingestão de litros de Celtia.

Se à tarde o espaço público em Tunes é misto, à noite as mulheres desaparecem; é raro ver uma a passar pelo centro da capital depois das 23h. Entramos noutro café, este mais escuro e apinhado, ao melhor estilo de uma taverna. De dez em dez minutos há discussão e muitos desafios para duelos ao luar: “Vamos lá para fora e resolvemos isto como homens”, diz um velhote de setenta anos, enquanto arregaça as mangas do casaco. “Os árabes gostam de discutir. Falam, falam, mas depois não fazem nada. Todos os dias são assim. Estou farto. Quero voltar para a Europa”, diz Bouraoiu. Toda a sua vida adulta foi dedicada a tentar sair da Tunísia. Começou por traficar cocaína da Turquia para a Tunísia, fazendo duas viagens de avião com saquinhos de droga no bucho, só para conseguir dinheiro para emigrar. Depois, veio a carta de convite para a Holanda, foi de férias e nunca mais voltou – viveu seis anos ilegal. Agora, voltou à estaca zero e está de novo disposto a tudo para deixar de novo a Tunísia. “Vou tentar chegar à Turquia porque não preciso de visto, saltar para a Bulgária e daí para a Europa de Leste”.

Regressamos a casa com o humor reforçado por uma série de cervejas e por uma boa conversa. No caminho, somos abordados por um homem com pensos na testa e na nuca. Surpreendentemente, diz que nos conhece: “Olha, os portugueses”. Franzo o sobrolho – nunca o tinha visto à frente. Aaquil, líbio de Tripoli, estava na recepção de um dos hotéis a que o taxista nos levara na madrugada anterior e recordara-se de nós. Tem 31 anos e está em Tunes a curar as feridas da revolução. “Mas passo mais tempo aqui que no hospital”, diz. “Entrem. Pago-vos uma cerveja”, convida, apontando para a porta do Restaurante Palais.

O Palais, tal como tantos outros restaurantes árabes, transforma-se depois de jantar numa espécie de cabaret ingénuo. Homens casados sentam-se à mesa com amantes e prostitutas, bebem cerveja e vinho tinto e ouvem o cantor que, em cima de um pequeno palco, debita o seu repertório de músicas populares árabes. Na nossa mesa, Bouraoiu e dois líbios, o tal revolucionário dos pensos e outro que está de férias, pró-Kadhafi. Na mesa do lado, outros quatro líbios de Benghazi. Por cada música que pedem ao cantor, os líbios deixam-lhe no bolso 10 dínares (cinco euros). O local concentra tudo o que o Ennahda abomina e expõe também muita da hipocrisia da sociedade árabe. O Fontes fala de Deus à mesa – Aaquil aponta para a garrafa de cerveja e manda-o calar.

Por alguns momentos, pensei que o grande momento da noite fora quando o cantor interpretara uma das músicas da revolução líbia e todos os rebeldes se puseram a dançar à volta do homem pró-Kadhafi. Mas isso foi até ir à casa de banho. Sou recebido por um empregado que não me larga: vai buscar-me papel, abre a porta da retrete, fica à espera, abre-me a torneira, entrega-me o sabonete, passa-me a toalha, ajeita-me o cachecol e, quando estou prestes a berrar-lhe que basta, borrifa-me a cabeça e a cara com um perfume horrível. Desato-me a rir. Ele estende a mão – sou obrigado a pagar o “serviço de assistência fisiológica”.

Na mesa, os líbios já dançam uns com os outros, balançando os ombros e a cintura como eunucos loucos. No mundo árabe, é muito comum os homens dançarem juntos, o que não é de admirar uma vez que as mulheres passam as noites fechadas em casa.

O João já tinha recolhido e regresso com Bouraoui, dois metros de homem a cambalear de alcoolémia, que não se cansa de repetir que a noite tinha sido óptima porque não falava com um europeu há séculos. Tento dizer-lhe para esquecer a Europa, que está de rastos, e para procurar outros destinos: o Brasil ou a Turquia. Mas ele recusa-se – o Velho Continente continua a ser o seu El Dorado. Tanto para Bouraoui como para milhares de outros tunisinos liberais que temem a islamização da Tunísia secular.

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A Líbia de Lés a Lés – Benghazi/Misrata/Tripoli/Tunes – Líbia/Tunísia, 24 e 25 de Abril de 2012

May 2nd, 2012 by admin


Rapazes que beijam imagens de Kadhafi, cidades destruídas, metralhadoras, facas e haxixe à deriva. Ao longo de 1200km numa carrinha cheia de passageiros, a equipa d’A Estrada da Revolução viu uma Líbia eufórica e neurótica, um país que tanto celebra a liberdade como se vinga de velhos inimigos.

“A carrinha para Tripoli parte às 13h”, diz-nos um homem barrigudo e de óculos escuros, que apregoa o nome da capital líbia em frente a uma Mercedes Vito azul-escura com oito lugares. Contudo, estamos em África, e sabemos de antemão que aqui os ponteiros do relógio não são dignos de respeito. A carrinha partirá, se Alá e o motor quiserem, quando os lugares estiverem preenchidos. Como já passa do meio-dia e nós somos os primeiros clientes, isso só vai acontecer lá para as 14h, na melhor das hipóteses, mas também não me surpreende que arranque lá para a noitinha.

Deixo as malas na bagageira e aproveito para beber um café e dar uma volta pelo mercado e pela estação. Atravesso a densa nuvem de fumo negro do lixo incinerado, passo por umas cabeças de vaca penduradas a céu aberto e salto umas poças de cheiro nauseabundo até dar com Mahdi, um líbio negro, de camisa branca e calças cinzentas, que rega o passeio com uma mangueira enquanto, atrás de si, três rapazes rezam dentro de uma casa em construção. Mahdi nasceu no sul, no deserto, mas vive em Benghazi há 20 anos. É o primeiro líbio que conheço que defende a instauração imediata do federalismo no país – a divisão da Líbia em três estados: “Primeiro, porque fomos nós que fizemos a revolução e Tripoli já está a tomar conta do poder de novo”, diz. “Depois, porque Benghazi é o único sítio onde nós, os negros, podemos viver em segurança. Lá no Oeste andam a matar-nos”. Mahdi é desta opinião porque vive em Benghazi há muito tempo; várias testemunhas indicam que imigrantes do Chade, Níger e Somália foram escorraçados da cidade nos últimos meses. Mais à frente, um tipo barbudo de túnica branca tenta amedrontar-me: diz que é da al-Qaeda e que vai rebentar com um carro. Eu digo-lhe para não escolher o azul e rio-me. Na verdade, há um pequeno emirado da al-Qaeda a menos de 200 quilómetros de Benghazi, em Derna, liderado pelo ex-motorista de Ossama Bin Laden. Há relatos de homicídios à mão armada, atentados com granadas e armadilhamento de carros.

Quando regresso à carrinha, fico decepcionado: não só chegara apenas mais um passageiro, como há uma gaiola com pássaros em cima das nossas malas. O nosso companheiro de viagem é um rapaz que trabalha, como milhares de líbios, numa firma de petróleo e vai passar uns dias de descanso à terra, a Ras Lanuf. Só perto das 15h chegam mais clientes: um homem tranquilo de longas barbas pardas e dois amigos sírios danados para a brincadeira. Juntos, aguardamos a chegada dos dois últimos passageiros mas, como tardam em surgir, decidimos fazer uma vaquinha de cinco dínares (3,66 euros) cada um para pôr a velha Mercedes na estrada. O motorista não perde quase nada – um litro de gasolina na Líbia custa 10 cêntimos, menos que um litro de água. Não obstante o lucro, o chofer está mal-disposto: reclama com tudo e com todos e até ordena ao Fontes para não cruzar as pernas (os árabes não gostam de ter as solas dos sapatos viradas para si). Por fim, barafusta comigo por estar descalço (esta é mais difícil de compreender porque os árabes se descalçam em todo o lado).

À medida que nos afastamos de Benghazi, vamos conhecendo melhor os dois sírios. Um deles, Hammadi, 28 anos, casado e pai de duas crianças, é pintor de automóveis e tem trabalhado cada ano num país diferente: 2009, Dubai, 2010, Líbano, 2011, Jordânia, 2012, Líbia. Diz que na Síria de Bashar al-Assad é muito difícil arranjar trabalho e que dentro de um mês a sua família, residente numa aldeia perto da fronteira com a Turquia (por onde entrámos clandestinamente na Síria há mais de dois meses), chegará à Líbia. O outro, Wail, 31 anos, é analfabeto, e faz uns biscates a bater chapas e em carpintaria. Fugiu da Síria para a Líbia mas instalou-se no sítio errado: vive com a mulher e os três filhos em Misrata, o local onde a guerra foi mais intensa e lá teve de se juntar à rebelião para proteger a cidade dos homens de Kadhafi. Viu uma bala trespassar os miolos do seu melhor amigo e foi alvejado no dedo de uma mão. “Se voltar à Síria cortam-me a cabeça”, diz. Mesmo com todos estes problemas, os dois amigos desfazem-se em gargalhadas. O seu número preferido é gozarem com as espessas barbas do motorista: “Dá para cortar e fazer uma esfregona”, diz Hammadi.

Este continua com cara de poucos amigos. É um homem com menos de 30 anos, calças alçadas até aos sovacos com camisa enfiada por dentro do elástico, usa cabelo puxado para trás com gel, uns óculos escuros american style e uma volumosa barba preta, marca identitária da sua posição religiosa, salafista, pois então, os seguidores de Alá que pretendem voltar aos primeiros tempos do Islão, quando o profeta Mohammed ainda espalhava a palavra de Deus pela Arábia (séc VII). Excepto a embirração com os sapatos, não tinha nada conta ele, até ao instante em que um odor intolerável a gasolina se espalha pela carrinha e ele faz ouvidos mocos à nossa súplica para retirar de debaixo do assento traseiro o bidão de combustível ou abrir as janelas. Começamos a ficar todos drogados com o cheiro e Wail tem mesmo de tomar um comprimido para as dores de cabeça. Daí até ao Fontes começar a berrar e os sírios intensificarem a lista de insultos, foi um ápice; o motorista pára a carrinha para ir rezar, mas aproveita o trajecto para a mesquita para rosnar algumas pragas e gesticular contra nós.

Estamos a meio caminho entre Benghazi e Sirte e não há absolutamente nada. A paisagem que até começou por ser de um verde tímido nas redondezas de Benghazi, depressa amarelou de tédio, ficando totalmente preenchida pelas areias e pedras do Sara. Enfrentado-as, somente uma ou outra caravana de camelos selvagens, meia dúzia de gaiatos a brincar em frente a uma fila de casas inacabadas, tanques destruídos, carros queimados e uns arbustos secos que ousam brotar na terra infértil. Lá longe, a silhueta de uma plataforma de petróleo. Impressionante é a quantidade de lixo dispersa ao logo do deserto; embalagens de comida, papelada e até partes de mobília. Se não há pessoas como há tanto lixo?

A brisa abafada acaricia-nos o rosto enquanto vemos o sol, ruborizado de esforço, preparar-se para se deitar. Respiramos paz. Até que o condutor volta da mesquita, mais furioso que nunca, e põe-se a discutir em árabe com Wail até ao ponto de encostarem as testas. Tudo termina quando o sírio lhe espeta o cartão de guerrilheiro na cara. Na Líbia, há muito respeito por quem lutou na revolução. Porém, segue viagem sem tocar na gasolina nem abrir as janelas. “Este tipo é maluco”, desabafa Hammadi.

Por esta altura, já tínhamos largado o velho das barbas cinzentas e o miúdo de Ras Lanuf e a velha Vito começava a engasgar-se do esforço – já completáramos 400km. Paramos noutra estação de serviço para beber um café, o salafista volta à mesquita e, de regresso à estrada, apanhamos dois passageiros novos: adolescentes de Sirte, terra natal de Muammar Kadhafi, e leais seguidores do ditador assassinado. Por coincidência, levo o portátil aberto num artigo com a fotografia de Kadhafi ; Salih, um dos rapazes, encosta o nariz ao monitor como que não acreditando no que via, leva a mão ao coração, esbugalha os olhos e diz: “Muammar…Love”. Salih está convencido que eu também morro de amores por Kadhafi. Tira o telemóvel do bolso e abre um vídeo excepcional; imagens de Kadhafi e de Che Guevara correm em ecrã dividido – os dois de barbas e tronco nu, os dois a discursar, os dois a orientar tropas, os dois mortos. Ao ritmo da música Hasta Siempre Comandante, Wail vai dando beijos no visor do telemóvel. Quando levanta a cabeça, lágrimas contidas embaciam-lhe os olhos.

Confesso que estou admirado pela coragem de Salih. Ele lutara em Sirte do lado dos lealistas a Kadhafi e nem agora, com o líder enterrado e perseguições constantes a todos os antigos súbditos do General, se inibe de demonstrar a sua fidelidade ao antigo regime. Observo a carrinha – dois portugueses, um elemento da guerrilha revolucionária de Misrata, um imigrande sírio, dois apoiantes de Kadhafi e um motorista islâmico resmungão. A Líbia pós-revolucionária está quase toda dentro da Mercedes. Equaciono propôr a formação de um Comité de Reconciliação Nacional mas resolvo não me meter em sarilhos. Até porque, lá fora, ouvem-se tiros.

“Problema, problema”, diz o condutor assim que desliga uma chamada. No meio de uma rotunda, os Khadafistas saltam do carro. “Lembrem-se: Sirte está com Kadhafi, Tripoli, Ben Wallid e Kufra também. Só Benghazi e Tobruk querem a revolução. Muammar está entre nós”, diz Salih, antes de desaparecer na escuridão. Por momentos, lembro-me das palavras de Ramon, um queniano que fora incentivado pelo regime de Kadhafi a trabalhar no petróleo da Líbia, que conhecêramos em Beirute; ele acreditava que Kadhafi ainda estava vivo e que os revolucionários tinham assassinado um dos seus quatro sósias. É impressionante ao que o fanatismo leva as pessoas e Kadhafi, diga.se, tinha esse dom: o de levar alguns líbios a vê-lo como um profeta.

Sirte, o local onde Kadhafi nasceu e morreu, a cidade que desenhou para ser a capital dos seus Estados Unidos de África, o centro da sua teoria pan-africana, está arrasada. Ainda hoje, meio ano após a morte do ditador, milícias andam à solta para encontrar os que rejeitaram a revolução. Aumentam os postos de controlo e os sons de balázios. Wail diz-nos para não nos preocuparmos. Na verdade, estou mais apreensivo com o carro, que insiste em fazer um barulho estranho e começa a perder pujança. Paramos novamente para reparar a máquina.

Enquanto o chofer, com o corpo debruçado sobre o motor, tenta detectar a origem do problema, converso com o empregado de balcão da estação de serviço. Ele conta-me-me que os marroquinos saíram hoje à rua para pedir o afastamento do Rei Mohammed VI. Eu digo-lhe que considero improvável uma revolução em Marrocos, uma vez que encontro os marroquinos altamente devotos ao seu monarca. Ele abana a cabeça: “Aqui, também éramos todos altamente devotos a Muammar Kadhafi. De um momento para o outro, tudo se alterou”. Impossível de rebater.

Estamos já preparados para apanhar um táxi, quando o motorista chanfrado, de chave de fendas em riste, festeja o conserto da avaria. “É um obach (cabrão). O problema é dele, não é do carro”, diz Wail, que já não pode ver o salafista à frente. À meia-noite, dizem-nos que não podemos seguir até Tripoli porque a estrada está cortada. Mesmo após muita insistência, o inglês precário dos nossos comparsas de viagem não deixa clara a razão do bloqueio da estrada. Somente entendemos que temos de passar a noite em casa de Hammadi, em Misrata. Pelo menos, era uma oportunidade de ver em que estado ficara a cidade, o palco das batalhas mais acesas durante a guerra civil.

A casa de Hammadi, afinal, não é bem uma casa. É um pequeno quadrado de cimento de uns 2 m2 que divide com um amigo sírio; duas camas, uma televisão e cascas de pevide em cima do tapete. Roemos uma maçã enquanto o sírio enfarda um prato de esparguete. Lá fora, um pátio espaçoso, rodeado de outros cubos de cimento onde dormem dezenas de pessoas. Ao fundo, a oficina onde Hammadi e os seus sócios reparam e pintam automóveis. Vive literalmente a dois passos de trabalho. Antes de me deitar, cometo o erro de pedir para ir à casa de banho; a retrete árabe – o pior pesadelo de um viajante ocidental pelas arábias. A quantidade de manobras que tenho de fazer para não sujar os pés nem tombar para cima da fossa equivale a umas horas de ginásio. Depois, o problema do costume: nunca há papel higiénico. Acabamos por dormir nuns colchões montados no chão de outro dos cubículos, ao lado de um egípcio que adormece a ver na televisão um show de dança do ventre.

Quando acordo, é 25 de Abril – a data prevista para chegar a Portugal e assistir ao aniversário da Revolução dos Cravos. Digamos que nos atrasámos um pouco…Contudo, recebo uma mensagem que diz que chove em Lisboa. Calculo que muitos portugueses tenham ficado em casa, o que é uma pena, pois o que esta viagem pela Arábia em revolução mais me tem ensinado é que ainda é possível mudar alguma coisa na rua. Mas chove, e tirando o Woodstock, não me lembro de revoluções debaixo de chuva.

Os primeiros raios de sol da manhã desmascaram as mazelas de Misrata tal e qual como quando um tipo com um olho negro tira os óculos escuros. A cidade está parcialmente devastada; quase todas as casas estão crivadas de balas e há outras que desabaram por acção de bombas e mísseis. A rua principal, especialmente, está feita em cacos; entre os escombros e as lojas esburacadas, são expostos os tanques capturados ao regime, esvoaçam bandeiras do Qatar e da França, os principais aliados dos rebeldes, e há quem reconstrua o lar. Durante mais de um mês, de 20 de Março a 21 de Abril de 2011, os habitantes de Misrata protegeram a cidade do ataque do exército líbio: mais de 1000 morreram e 3000 ficaram feridos. Kadhafi cortou o abastecimento de água e os seus homens lançaram fogo sobre cidadãos desarmados. Mulheres foram violadas, homens torturados e as casas saqueadas.

Misrata não perdeu tempo para encontrar os responsáveis dos crimes hediondos. As várias brigadas da cidade apontaram o dedo aos habitantes da povoação vizinha de Tawergha, a 40km, e iniciaram uma perseguição sanguinária. “Tawergha já não existe, só Misrata”, disse o capitão de uma das brigadas, Ibrahim al-Halbous, em Setembro de 2011. Hoje, não resta nem um dos 30 mil habitantes em Tawergha, transformada numa cidade-fantasma. Ninguém sabe ao certo o paradeiro de toda esta gente; muitos terão sido assassinados, milhares continuam em cativeiro e a maioria fugiu para campos de refugiados em Benghazi e nas terras de ninguém nas fronteiras com a Tunísia e com o Egipto. Tentei visitar um desses campos perto do pavilhão gimnodesportivo de Benghazi, guardado pelas milícias locais: vi dezenas de homens esquálidos e subnutridos a passearem-se à entrada mas não mas os rebeldes não me deixaram chegar às tendas – o clima estava tenso. Mas qual a razão da triste sina de Tawergha? É a única cidade costeira da Líbia com uma população predominantemente negra. Foi povoada no tempo pré-colonial por escravos africanos privados de qualquer direito até à ascensão ao poder de Muammar Kadhafi, que lhes deu a oportunidade de alcançar cargos de chefia no sector público e no exército. Durante a revolução, Kadhafi usou Tawergha como tampão ao avanço dos rebeldes de Misrata até Sirte, usando inclusive a população como escudo humano. Conquistada a cidade, os rebeldes clamaram por vingança, alegando que os negros de Tawergha não eram líbios. A Human Rights Watch (HRW) fala de “limpeza étnica” e já alertou os líderes das brigadas de Misrata para a possibilidade de serem julgados por crimes contra a Humanidade.

Hammadi deixa-nos na estação local, onde damos com o motorista barbudo de roupa lavada e banho tomado pronto a regressar a Benghazi. Mas a carrinha ainda tresanda a gasolina. O nosso caminho é o contrário, para Tripoli, mas assustam-nos ao dizerem-nos que a estrada continua cortada pelas Brigadas de Zliten. Um taxista oportunista ainda nos pede 70 euros para contornar o bloqueio por estradas secundárias, mas felizmente surge outra carrinha de transporte colectivo a assegurar a viagem até Tripoli por 12. Fazemos dois amigos novos – Yamen e Ahmed -, revolucionários de Benghazi que, após terem sobrevivido à guerra, se deslocam à Embaixada de França para pedir uma bolsa de estudo para uma Universidade de Paris.

Mesmo evitando o corte na estrada principal por um estreito caminho pelas montanhas, somos surpreendidos por um grande monte de terra guardado por dois quarentões armados que inviabiliza a progressão da carrinha. Aymen explica-me finalmente a razão do bloqueio: “Há soldados feridos em Zliten que exigem que o governo transitório lhes pague tratamento no estrangeiro e como não estão a ser ouvidos, cortaram a estrada”. Yamen foi um dos rebeldes contemplados com uma viagem por razões médicas – esteve três semanas em Atenas. O Conselho Nacional de Transição (CNT) paga 300 euros por semana, tratamento hospitalar e alojamento num hotel de cinco estrelas para o rebelde ferido e um acompanhante em cidades como Istambul, Amman ou Tunes. Com que dinheiro? Com o que a família de Kadhafi deixou para trás: “É uma forma de premiar quem fez a revolução”, diz Yamen. Há outros problemas em Zliten: minas disseminadas, bombas perdidas por explodir e todas as escolas destruídas. O CNT não tem mãos a medir.

O percurso de Misrata até Tripoli não tem nada a ver com a desertificação de Benghazi até Misrata: circulamos agora por planícies adornadas por oliveiras, com casas arranjadas e uma espectacular vista para o Mediterrâneo. Surgem as praias e os primeiros edifícios altos.

Chegamos a Tripoli 24h e 1200km depois de termos saído de Benghazi. Na estação, a resposta de sempre: “A carrinha só sai quando estiver cheia”. E ainda faltam cinco passageiros. Não é preciso sair da estação para perceber que Tripoli respira um sentimento de liberdade, que por vezes se confunde com anarquia; em cinco minutos, vejo-me com um charro e com uma kalashnikov na mão. “Foi assim que fizemos a guerra. A fumar haxixe e a disparar”, diz Ahmed. É preciso referir que há menos de um ano, ser apanhado com haxixe e com uma bala que fosse na Líbia dava direito a metade da vida na choça. Agora, toda a gente se droga às claras e os militares andam de esquina em esquina a mostrar as AK aos amigos. Dentro de uns anos, todos estes miúdos falarão com nostalgia do pós-revolução em que na Líbia não havia lei.

Só três horas depois conseguimos encher a carripana. Ao nosso lado, vai um tunisino chamado Hatem, carpinteiro em Palermo, que passara uma semana em Tripoli “a rever amigos e a tratar de negócios”. Está chocado: “Os líbios são parvos. Viviam bem com Kadhafi e agora andam a matar-se uns aos outros”. Hatem é céptico em relação às revoluções: “A democracia não funciona com os árabes. Precisamos de um ditador, não como Ben Ali (ex-presidente da Tunísia), um ladrão, mas um ditador justo. Com democracia os árabes não se entendem”. Quanto a Mohammed Bouazizi, o tunisino que se imolou pelo fogo e desencadeou a insurgência árabe, Hatem não tem dúvidas: “Era um bêbedo, tinha tanto álcool dentro dele que se incendiou à mínima faísca”.

Não consigo concordar nem desmentir Hatem; voamos furiosamente por uma estrada sem rumo definido, espreitando pela janela tanques ferrugentos e ramos de oliveira; soldados bêbedos pedem-nos o passaporte em casernas improvisadas, crianças correm felizes pelo deserto; aqui, uma aldeia berbere em guerra contra uma aldeia árabe, acolá, amigos cantam à volta de uma fogueira; de um lado brilha o Mediterrâneo, do outro a brancura pálida de uma terra asfixiada pelo sal. É um caminho longo entre a guerra e a paz. E a carrinha só parte quando cheia…de esperança.

(Na próxima edição do Semanário SOL pode ver mais fotografias da viagem e um mapa com todos os detalhes sobre a Líbia e sobre o percurso realizado)

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O Tribunal da Liberdade – Benghazi, Líbia, de 19 a 23 de Abril de 2012

April 24th, 2012 by admin

Líbia: A Estrada da Revolução volta aos locais onde a Primavera Árabe começou no Egipto, na Líbia e na Tunísia.

O Tribunal da Liberdade

O Tribunal de Benghazi, Líbia, está ocupado desde o início da Revolução. Foi lá que se fez a primeira manifestação, que caíram os primeiros mortos e que se planeou a guerra. Seis meses após a morte de Muammar Kadhaffi, o Tribunal passou a chamar-se Prédio da Liberdade. Recebe guerrilheiros, mães de mártires e aspirantes a políticos. Cada sala tem uma história.

Mohammed Ali Enfais, 42 anos, acorda todos os dias em cima de um fino colchão encaixado entre um móvel robusto e um cacifo de chapa cinzenta numa sala do antigo Tribunal de Benghazi. As prateleiras que outrora guardavam arquivos e notificações servem hoje para arrecadar as botas, as camisolas e as cuecas deste designer gráfico que decidiu mudar-se de Tripoli para o coração da revolução. A rotina matinal é sagrada: primeiro, toma banho numa das casas de banho do tribunal, usada anteriormente pelos presidiários; depois, volta ao escritório ocupado, estende um tapete defronte de um cofre alinhado com Meca e reza; por fim, veste à pressa umas calças da tropa e uma camisola de algodão creme, calça umas botas negras pesadas e vai á rua beber um café e fumar um cigarro. Às sextas-feiras tem um trabalho adicional: escolhe um disco com recitações do Corão e insere-o no computador que, ligado a colunas na fachada do tribunal, propaga a palavra de Alá pela calçada que percorre o Mar Mediterrâneo e pela Praça dos Mártires. Mas se há algo que Mohammed não dispensa são os passeios pelos corredores, forrados com milhares de fotografias de pessoas que morreram durante a guerra, na maioria rapazes na casa dos 20 anos. Mohammed Ali pára em frente a uma que exibe a cara ferida de um homem barbudo deitado num lençol branco, Ahmed, morto, com um sorriso aberto para o Paraíso: “Já lhes conheço as caras e falo com eles”, diz. “Olhem para este sorriso…vêm como partiu feliz?! Todos nós gostaríamos de ser mártires como ele mas Deus não nos quis. Agora, temos de fazer o que podemos nesta vida”. Mohammed já escolheu o que quer fazer: ao longo de um ano vai viver no tribunal, desenvolvendo uma base de dados no site que criou para o Prédio da Liberdade, que vai reunir informação sobre os mais de 4000 civis ainda desaparecidos. É apenas uma das facetas do prédio que a 17 de Fevereiro de 2011 viu a Revolução nas cer e que hoje alberga os sonhos e os pesadelos de cinco milhões de líbios. Nos corredores e nos antigos escritórios do tribunal há mães que perderam filhos, homens que querem recuperar terras, guerrilheiros que passeiam as espingardas, gente que quer aprender o que é a democracia. O tribunal tornou-se no maior símbolo da liberdade na Líbia.

(Leia este artigo na íntegra na próxima sexta-feira, com o Semanário SOL)

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Eclipse – Benghazi, Líbia, 18 de Abril de 2012

April 24th, 2012 by admin

Benghazi está a viver um momento único. Ao virar de cada esquina, uma nova história; Hussein Sail, o pintor bêbedo, desde as onze da manhã encharcado em borra (aguardente artesanal), desenha caricaturas de Kadhafi na parede: “Ele ofereceu-me 2500 dínares para lhe fazer um retrato e recusei. Agora dá-me mais prazer pintá-lo de borla”; Razzi, um puto vivaço de oito anos mostra-me o terraço da antiga esquadra da polícia, agora ocupada por cinco famílias, que vivem nos escritórios e nos antigos calabouços; Abubacr e Najia, de reflector laranja, limpam pela manhã o calçadão junto à praia, construído pelos colonos italianos nos anos 20. O velho Abubacr faz instalações sobre a revolução e a enérgica Najia tem um projecto para a recolha do lixo – algo de que Benghazi bem precisa.

Um homem no café fala-me sobre o legado italiano no vocabulário líbio: “Makiatto”, é café com leite, “freno” é travão, “makarrona”, é macarrão, “cujina”, é cozinha. Depois, fala sobre o irmão que durante a revolução apanhou um barquinho para a ilha italiana de Lampedusa. Milhares de líbios fizeram o mesmo.

Benghazi vive a dois tempos: pela manhã e ao final da tarde. Entre o meio-dia e as 17h a cidade fica deserta. Poucos são os que trabalham e os que o fazem não dispensam a sesta. Não há autoridade: armas, haxixe e álcool circulam impunemente no mercado negro. Vivem-se tempos de liberdade – nos cafés discute-se política mas poucos sabem o que é um partido pois ainda nem fizeram uma lei para os legalizar. Eleições também é um conceito estranho, pois nenhum líbio teve ainda a oportunidade de votar em toda a sua vida. Assim, o debate mais habitual é sobre a federalia, o movimento que surgiu após a revolução em Benghazi e que sustenta que a Líbia deve voltar a ser um sistema federal de três estados – Tripolitânia (Tripoli), Cirenaica (Benghazi) e Fezzan (Sul). No passado mês de Março, apoiantes e detractores do federalismo chatearam-se na Paraça dos Mártires e a discussão acabou ao tiro. Balanço: três mortos e mais uma mão cheia de feridos. Benghazi está silenciosa mas na verdade é uma bomba de rastilho curto que quando explode faz um barulho tremendo.

Apesar de tudo o que se passa em Benghazi, não me apetece estar aqui. Se calhar sofro do síndroma de Variações, estar bem onde não se está, mas a verdade é que tenho andado com a cabeça mais em Misrata, onde milícias locais andam a limpar o sebo à população negra da cidade vizinha de Towergha, ou em Sirte, onde permanece a caça aos lealistas de Kadhafi, do que na cidade-bastião da revolução. No entanto, decidimos concentrar o nosso trabalho no Egipto, na Líbia e na Tunísia nos locais onde as revoluções rebentaram há um ano, para encontrar vida debaixo dos escombros e testemunhar o que se criou de novo no sítio da implosão. Queremos averiguar se as sementes da Primavera Árabe já deram fruto, ou se pelo contrário o terreno ficou baldio. É olhando para a raíz que se percebe a orientação do tronco e dos ramos, que se capta a complexidade do pós-revolução.

Na Líbia, a raíz é Benghazi, e em Benghazi quis o destino que a semente caísse no tribunal. Perdemos três dias a perceber por onde começar e afinal tudo já tinha começado há mais de um ano a dois minutos do nosso hotel. O antigo tribunal de Benghazi, diante do qual dezenas de milhar de líbios se concentraram no primeiro dia da revolução, a 17 de Fevereiro de 2011, é hoje um prédio hibrído: metade monumento, metade cemitério. Chama-se agora Prédio da Liberdade e congrega nos seus corredores fotografias de milhares de mortos durante a guerra civil, caras sorridentes na vida e na morte, mártires felizardos que viram o Paraíso antes de deixarem esta vida, rapazinhos com cintos de munições enrolados à cabeça, miúdos que mal podem com a kalashnikov, homens robustos qual Rambos do Magreb entre explosões e aviões de guerra, mulheres que sucumbiram a ataques cardíacos. Uma galeria de mortos em que todos os revolucionários gostariam de figurar. São o orgulho da nação. “Deus não nos concedeu a honra de morrer também”, dizem os vivos que olham para eles.
Pelo Prédio da Liberdade passam várias actividades pós-revolucionárias: criação de Associações dos Direitos da Mulher, gabinetes de informação sobre as eleições, grupos de apoio às mães dos mártires e muitas outras. O antigo tribunal está desordenado; as salas de audiência estão viradas do avesso, arquivos e notificações a voar ao sabor do vento que entra pela janela, paredes com grafitis, armários partidos, vidros estilhaçados, autocolantes e bandeirolas por toda a partes e escritos assinalando as principais referências em tempo de revolução: “aqui fez-se a primeira cirurgia”, “aqui formou-se o primeiro hospital de campanha”, “aqui caiu o primeiro morto”.

A 17 de Fevereiro de 2011, o tribunal mudou de vida como a Líbia: há já dois dias que as famílias dos presos de Abu-Slim, 1275 homens assassinados em três horas numa prisão de Tripoli, em 1996, tinham tomado as ruas em protesto contra a prisão de um dos advogados do caso. No dia seguinte, registaram-se os primeiros confrontos entre os jovens e a polícia. Para o dia 17, em frente ao tribunal, convocou-se pelo Facebook uma manifestação com o pretexto de marcar o 6º aniversário do massacre do consulado italiano, onde dez líbios, um deles com oito anos, morreram após a polícia reprimir ao tiro uma manifestação em frente à sede da missão diplomática italiana em Benghazi, numa altura em que o povo protestava contra as caricaturas do profeta Mohammed na Europa. Ao início do dia, estavam apenas 100 pessoas. Alguns juízes e advogados dos Direitos Humanos ocuparam o tribunal, chamaram mais gente e o número de manifestantes foi crescendo. Ninguém pedia a demissão de Kadhafi, gritava-se somente por liberdade. Porém, ao cair da noite, chegou a notícia das primeiras baixas, em Bayda e numa ponte em Benghazi. O número de manifestantes subiu para 10 mil, ocuparam o tribunal e começou a pedir-se o fim de Kadhadi. No dia seguinte, centenas de jovens armados com pistolas, facas e arpões assaltaram o quartel do exército de Kadhafi (katiba), e a partir daí deixou de haver escassez de armas para a população. Toda a gente teve direito à sua kalash. Para tal, muito contribui um rapaz de óculos com aspecto de pirata informático que figura na galeria dos falecidos. Data de morte: 18 de Fevereiro de 2011; pela tarde, encheu o carro de bilhas de gás, acelerou a fundo e mandou-se contra o muro da katiba. A explosão abriu caminho aos revolucionários. Deixou quatro filhos.

Quem nos conta estas histórias é Mohammed Ali Enfais, um revolucionário de Tripoli, que vive no tribunal desde Julho – dorme num colchão entre o cacifo e o armário de um antigo escritório de um advogado. Instalou ali os seus dois computadores e fez do espaço o seu próprio escritório. Recebe mães que não sabem dos filhos e gente que quer recuperar as suas terras. Mohammed Ali, 42 anos, tem nome de pugilista mas não teve de lutar – as únicas balas que disparou durante a guerra foram para o ar para celebrar a morte de Kadhafi em Outubro do ano passado. “Pedi a Deus para não ter de matar nenhum irmão líbio e felizmente Ele ouviu as minhas preces”, diz. Criou uma nova forma de combate: um site do Prédio da Liberdade, onde está a alojar uma base de dados com toda a informação sobre mortos e desaparecidos.

Lida com as mães dos meninos de Benghazi mortos na guerra; são dezenas de mulheres que peregrinam diariamente ao tribunal e passam horas a chorar agarradas a molduras e a cartazes. Uma delas é Najwa Kharam, 40 anos, mãe de quatro filhos que agora são só três. Perdeu Awad, o mais velho, 20 anos, o rapaz que a tratava por “meu amor”, que jogava futebol e estudava na universidade. No primeiro dia da revolução, Awad disse à televisão que a sua família odiava Kadhafi e que estava disposto a morrer pela liberdade. A mãe não o deixou ir combater. Awad passou a trabalhar no tribunal, ocupando a sala onde estamos agora; um Corão verde aberto sobre um colchão poeirento, frases suas escritas no móvel, uma mesa de esguelha com um prato em cima, a palavra “bala” em destaque na parede. Awad discursava da janela para os jovens que o ouviam lá em baixo, passava música e versos do Corão. Um dia, tentou juntar-se aos guerrilheiros numa traineira para Misrata mas a mãe antecipara a manobra e o capitão veio entregá-lo à costa. Awad chegou lavado em lágrimas. À mãe, disse que não aguentava mais; as tropas de Kadhafi andavam a violar as mulheres em Misrata e Awad queria ir defendê-las. “Mas as raparigas são de Misrata, não são de Benghazi. O que vais para lá fazer?”, disse-lhe a mãe. “Todas as mulheres da Líbia são minhas irmãs”, respondeu Awad. Depois, ajoelhou-se e beijou-lhe os pés. “Sabes que vais morrer, não sabes?”. “Se morrer terás de me perdoar”. A mãe disse-lhe que não teria o seu perdão. Awad foi na mesma. Treinou num campo militar e durante o Ramadão partiu para Brega, entre Benghazi e Sirte. Uma das suas funções era trazer os corpos para Benghazi. A 2 de Agosto, Najwa viu-o pela última vez. Vinha com um barbão farto: “Tens de ir ao barbeiro porque, se morreres, não podes ver Deus nesses preparos”, disse-lhe Najwa. Awad sorriu. A mãe ainda o tentou impedir de voltar: “Não vás, fica aqui connosco, quero organizar o teu casamento”. “Vou casar no Paraíso”, respondeu o filho. A 15 de Agosto, já a noite ia longa, o tio tocou à campaínha. A família antecipou a má notícia; o pai correu para a porta e nem precisou de perguntar o que se tinha passado, mandou um grito de desespero, as três crianças choravam, Najwa paralisada, em choque. Awad tinha morrido. Foi alvejado por um rocket quando transportava os corpos dos companheiros de regresso a Benghazi; ficou sem um braço, sem a mandíbula inferior e com a cabeça e as costas trespassadas por estilhaços. “Mesmo assim, quando o vi na morgue, continuava bonito”, diz a mãe. Nesse dia, Najwa deu-lhe um beijo na testa e conseguiu-lhe perdoar. Diz que o filho morreu por uma Líbia livre.

Em casa, os sapatos de Awad continuam à porta, os cadernos da escola em cima da mesa e quando a mesa é posta há pratos e copos a contar com ele.

Desmanchamo-nos a chorar durante a entrevista; não sei se pela carga do lugar, pela tristeza da história ou pelo nosso próprio estado de espírito, não me consigo conter. Não me lembro da última vez que me tinha acontecido. Ao deixar o prédio tudo me parece escuro e sombrio; fantasmas apavorados saltam dos cartazes, ofegantes, o rosto sujo de areia e suor, pedem clemência, Deus é Grande; correntezas de sangue arrastam-me pelos corredores por onde circulo à deriva, há sons de bombas e esgares de dor, depois, silêncio, o mais ensurdecedor dos ruídos; dou à costa no Paraíso onde encontro todos os rostos dos cartazes, mártires, mártires, para onde foram os que mataram, os do outro lado, que também são líbios?; ninguém me responde. E eu também sinto um nó na garganta.

Jantamos praticamente em silêncio. No regresso ao hotel, um caminho de uns 300 metros, o João tem de parar uma série de vezes. Está débil e cansado – já perdeu 10 quilos e não se aguenta em pé. Tem os braços finos como uma cana de pesca, as costelas salientes as costas massacradas pelo peso da câmara. Fico assustado e angustiado. Apetece-me começar a correr e a berrar na praia, fugir e só parar em Tânger e depois atravessar o Estreito a nado. São já mais de três meses de malas às costas, um busca diária por temas de reportagem, muitas dezenas de textos, centenas de horas de filmagem, dezenas de milhar de fotos; todos os dias a falar de mortos, de desaparecidos, de ditadores, de liberdades e de conspirações, a tentar compreender o Médio Oriente encriptado em milhares de anos de códigos de raivas e ódios, todos os dias, sem cessar, como um martelo que atinge a cabeça a um ritmo sincopado. Hoje a cabeça abriu, o cérebro estourou e caímos na cama sem forças. Deu-se o eclipse; uma lua má pôs-se no caminho, deixando a Estrada na mais tenebrosa das sombras e nós vendados a palpar um caminho minado de cactos. Espero que amanhã o sol desponte.

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Guerra Santa – Benghazi, Líbia, 17 de Abril de 2012

April 24th, 2012 by admin

Ao longo desta viagem, temos conhecido vários géneros de islâmicos. Há os islâmicos não praticantes, gente que acredita em Deus mas não vai à mesquita e raramente reza, homens que bebem cerveja e mulheres que usam decotes – são uma minoria e encontrámo-los em grandes cidades como o Cairo, Amman e, especialmente, Istambul. Há os islâmicos moderados, a grande fatia deste bolo, gente que reza quando pode rezar, que frequenta as mesquitas uma ou duas vezes por semana, gente de paz, que não só tolera como respeita gentes de outros credos – estes formam o paradigma do mundo muçulmano. Há ainda os muçulmanos ortodoxos, gente extremamente religiosa e cumpridora de todos os dogmas do Islão, gente que vai à mesquita todos os dias e com uma mentalidade conservadora, mas que adora receber estrangeiros e percebe as diferenças culturais e religiosas – cruzámo-nos com muitos nas regiões mais remotas da Jordânia, na Palestina e na Síria. Por fim, os chamados muçulmanos radicais, uma minoria que, diga-se, está em crescendo; são iguais aos anteriores mas com uma intolerância total para com os outros credos, super-conservadores e machistas – é o caso dos salafistas com quem falámos no Cairo. Opõe-se à democracia e querem implementar uma sociedade o mais próxima possível da existente nos primeiros tempos do Islão (séc VII). Pedem a lei islâmica, o uso obrigatório do véu, o encerramento de bares e cafés, a diminuição da idade legal para casar e pena de prisão para qualquer um que contrarie a palavra de Deus. As últimas notícias dão conta que os salafistas do Cairo querem legalizar o acto sexual com mulheres mortas desde que seis horas após o falecimento.

Porém, ainda não tinha conhecido nenhum jihadista, que de tão radicais fazem os salafistas parecerem meninos compreensivos. O jihadista acredita exactamente no mesmo que o mais extremista dos salafistas, com a diferença de que quer impõr a sua crença ao Mundo. Pior: considera a guerra um meio legítimo para atingir o seu fim – converter o Mundo ao Islão. Hoje Alá enviou-me um jihadista.

Eu estou diante do computador. Abdurrahim, 28 anos, está sentado num sofá da recepção do Hotel Alanis. Tem uma perinha mal semeada, boné castanho simples, roupas ligeiramente largas para o seu corpo franzino, simples e unicolores, de um verde amorfo. Peço-lhe ajuda para mudar o teclado de árabe para inglês e, quando espreita o monitor, vê um artigo do jornal israelita Jerusalem Post: “És judeu?”, pergunta-me. “Não, sou cristão”, respondo-lhe. Apesar de ser agnóstico, há muito que me apercebi que por esta região é obrigatório ter um Deus. Eu escolhi o que me estava mais à mão. A conversa com Abdurrahim tinha começado pela religião e daí não iria sair.

“Já leste o Corão”, pergunta.
“Algumas partes, mas não todo”.
“Para perceberes o que se passa aqui tens de ler o Corão. Eu mostro-te uma parte”.

Precipita-se a abrir um site com o Corão em inglês – Capítulo 5: Al’Ma’idah. Depois, lê-me em voz alta:

E também aceitamos a promessa daqueles que disseram: Somos cristãos! Porém, esqueceram-se de grande parte do que lhes foi recomendado, pelo que disseminamos a inimizade e o ódio entre eles, até ao Dia da Ressurreição. Deus os inteirará,então, do que cometeram.
Ó adeptos do Livro, foi-vos apresentado o Nosso Mensageiro para mostrar-vos muito do que ocultáveis do Livro e perdoar-vos em muito. Já vos chegou de Deus uma Luz e um Livro lúcido, Pelo qual Deus conduzirá aos caminhos da salvação aqueles que procurarem a Sua complacência e, por Sua vontade,tirá-los-á das trevas e os levará para a luz, encaminhando-os para a senda reta.
São blasfemos aqueles que dizem: Deus é o Cristo, filho de Maria. Dize-lhes: Quem possuiria o mínimo poder para impedir que Deus, assim querendo, aniquilasse o Messias, filho de Maria, sua mãe e todos os que estão na terra? Só a Deus pertence o reino dos céus e da terra, e tudo quanto há entre ambos. Ele cria o que Lhe apraz, porque é Omnipotente.

A missa dura mais duas páginas. Depois, Abdurrahim pára e fita-me fixamente para analisar a minha reacção: “Percebeste? A Tora e o Evangelho precederam o Islão mas os homens que a escreveram deturparam a palavra de Deus. O Corão é que é a última palavra de Deus e judeus e cristãos devem aceitar a verdade e converter-se ao islamismo para conseguirem a salvação. Mohammed é o último profeta. Se continuares ignorante vais parar ao Inferno”, diz-me. “Por isso, quando chegares a Portugal, lê o Corão, analisa a Verdade…e tenho esperança que te convertas ao Islão”.

Honestamente, toda aquela conversa arrepiava-me. Tenho vontade de mandá-lo ir curar-se mas contenho-me. Afinal, tem de existir uma razão para se ficar assim. Até o mais doentio dos terroristas afegãos deve acreditar do fundo do coração no que está a fazer – de que outra forma um ser humano coloca bombas à volta da cintura e se faz explodir? Eu queria aproveitar o facto de me terem enviado Abdurrahim para perceber o que está por trás dessa convicção.

Abdurrahim é técnico de anestesia, tunisino, casou este ano e vai ser pai em Dezembro. Escolheu emigrar para a Líbia por dois motivos: “Economicamente é melhor, ganho mais e a vida é mais barata, religiosamente, tenho mais possibilidades de me focar no Islão, uma vez que na Líbia um milhão de pessoas sabe de cor o Corão. Na Tunísia, não é assim”.

À minha frente, tenho um tipo que deixara a mulher grávida em Tunes para vir empinar o Corão a 2000km de distância, que acredita que vem aí uma guerra santa em nome da islamização do Mundo e que daqui a 50 anos, judeus, cristãos, hindus e budistas vão ser todos muçulmanos. E está disposto a continuar a falar. O que é que um jornalista pode pedir mais?

“És jornalista? Devias estar no norte do Mali, no sul do Iémen, na Somália ou no Afeganistão. Aí é que fazias reportagens interessantes. Sabes porquê, não sabes?”, questiona. “Al-Qaeda?”, respondo, a medo. Abdurrahim sorri.

- “O que pensas da Al-Qaeda?”
-“Acho que é uma organização terrorista”.
- “E os americanos não são?”
- “O exército faz actos terroristas, sem dúvida”
- “Mas foram eles que invadiram a nossa terra e mataram as nossas crianças. Não é terrorismo defender o que é nosso, pois não?”
- “Quando se atacam alvos civis, sim, é”.

Evito entrar em confronto com o tunisino. Tinha lido que a menos de 200 quilómetros a este de Benghazi, em Derna, a Al-Qaeda tinha formado um autêntico emirado. Muitos jihadistas líbios que viviam no Afeganistão e no Iémen regressaram a casa para se juntarem à luta contra Kadhafi e fixaram-se perto de Benghazi. A bandeira negra da Al-Qaeda até já apareceu uma manhã a esvoaçar no terraço do tribunal de Benghazi, o epicentro da revolução. Nada me garantia que Abdurrahim não fazia parte desta célula. “E em Derna, não achas que é interessante?”, atiro-lhe. “Sim, estão lá algumas pessoas, mas eu ainda não conheço ninguém”, responde.

Derna está transformada numa cidade afegã. Sufian al-Quma, o antigo motorista de Osama Bin Laden, formou um grupo armado chamado Ansar al-Sharia que está a espalhar o terror pela cidade. Há registos de um ataque com granada no instituto politécnico para acabar com as instituições de ensino mistas, explosões de carros, assassínios à mão armada e postos de controlo patrulhados por tipos com pinta de talibã de metralhadora em riste. “Um dia, um homem estava a dizer na rádio que Sufian al-Quma devia sair da Líbia. Sabem o que lhe aconteceu? Quando ainda estava no ar, recebeu um telefonema de um número desconhecido, e disseraram-lhe que da próxima vez que mencionasse o nome de Sufian deixaria de ver o sol porque lhe separariam a cabeça do corpo”, disse uma habitante de Derna, ao jornal Magharebia. Abdurrahim apercebe-se da vontade que tenho de ir a Derna e isso fá-lo ganhar confiança. Convida-me para dar um passeio em Benghazi. Aceito. Estou convencido que Abdurrahim é jihadista por ideologia mas ainda não está ligado a nenhuma célula terrorista.

Para já, está mais concentrado em converter-me ao Islão. Meteu na cabeça que é o mensageiro que me vai levar até Alá e desenrola todo o seu conhecimento teológico. Qualquer muçulmano que converta um infiel ao islamismo está a ajudar Alá na sua missão e a construir a sua moradia no Paraíso. Para Abdurrahim, o meu interesse no tema fê-lo acreditar que era passível de me render ao Evangelho de Mohammed.

Fico a saber, por exemplo, que rezar na mesquita é 27 vezes mais importante para Deus do que rezar em casa e que que há uma lista de haram (pecados) a evitar: beber álcool, sexo antes do casamento, fumar, métodos contraceptivos, homens com brincos, tatuagens e mais uma série de banalidades. “Não tens brincos, não tens tatuagens…pareces um tipo simples como eu. Sabes a única coisa que não gosto em ti? Tens as calças rotas”, diz Abdurrahim. Rio-me. “Não é uma questão de estilo, estão mesmo velhas e como estou em viagem ainda não comprei outras”, respondo. O tunisino fica feliz. A sua vida é o paradigma de tantas outras que se entregam às mãos de Deus: nasceu numa família miserável, o pai morreu quando ainda era bebé, teve de trabalhar desde os 12 anos e estudar ao mesmo tempo. Encontrou no livro sagrado o único guia para dar sentido à sua existência.

Tento tirar-lhe uma fotografia mas Abdurrahim rejeita: “É pecado”, refere. “Se for vídeo tudo bem, mas Deus não gosta de fotografias”. Franzo o sobrolho. Esta nunca tinha ouvido. “É difícil explicar, mas tem a ver com a representação icónica. Deus disse que nada podia ser representado através de desenhos ou pinturas, nem Ele próprio. A fotografia é parecida com a pintura, por isso rejeitamo-la. Mas se quiseres filmar, estás à vontade”. Questiono-me quanto mais tempo teria de viajar para conhecer todos os dogmas do Islão.

Regressamos ao hotel e Abdurrahim mostra-me alguns sites da Al-Qaeda que, segundo ele, são a única informação fidedigna da guerra no Afeganistão. Referem-se às baixas americanas como “inimigo” e às afegãs como mártires. “A Al-Jazeera e a CNN dão sempre um número de mortos muito abaixo da verdade. Por exemplo, nos ataques desta semana referiram apenas cinco mortos, como vês aqui matámos quase 90 inimigos”. Prossegue com a sua dissertação sobre os guerreiros-mártires do Afeganistão e em como gostaria de fazer parte da guerra santa: “Estou somente à procura do imam com os contactos certos para poder ir para lá”.

Paro uns segundos para pensar no fundamentalismo que impera desde o 11 de Setembro. Se perguntarmos a um soldado americano a razão da sua presença em Cabul, ele certamente responderá que está a defender a sua pátria: “In God We Trust”. Se perguntarmos a um guerreiro talibã os fundamentos da sua luta, ele responderá que não é terrorista e que está a defender a sua terra de acordo com o livro sagrado: “Não há Deus que não Deus e Mohammed é o profeta de Deus”, é a mensagem da bandeira da Al-Qaeda. É Deus, como nas cruzadas, que justifica a barbárie dos homens.

Mostramos um ao outro as nossas páginas de Facebook. Eu engulo em seco quando vejo que a foto de perfil de Abdurrahim é a bandeira da Al-Qaeda. Ele arregala os olhos quando vê uma foto em que bebo vinho tinto com a minha namorada: “A tua mulher bebe vinho tinto? Isso é haram?”. “Só em festas e jantares românticos….faz parte da nossa cultura”, defendo-me. “Tens de ler o Corão. Só quando o leres irás perceber tudo”.

O tunisino crê que no final do ano vou ser muçulmano. Eu digo-lhe que acho difícil. “Se te convertes, oxalá, encontramo-nos daqui a uns tempos no sul do Iémen”. Quem sabe…

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